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30/11/2009 | Site Câmara dos Deputados

100 anos de Dom Hélder Câmara

O SR. OTAVIO LEITE (PSDB-RJ. Sem revisão do orador.) - Eminente Deputada Sandra Rosado, que preside a sessão neste instante, a quem cumprimento pelo belo pronunciamento; meu abraço fraterno ao eminente Deputado Mauro Benevides, o nosso decano, maestro de tantas sessões, um homem cuja República já reconhece grandes feitos, eminente Deputado Luiz Couto, nosso querido amigo, a quem também cumprimento pelo belíssimo pronunciamento; Padre José Ernanne Pinheiro, assessor político da CNBB, representando todas as autoridades eclesiásticas brasileiras, minhas senhoras, meus senhores, venho à tribuna trazer minha contribuição como um dos autores daproposta desta sessão de homenagem.

Deputada Sandra Rosado, estamos homenageando talvez um dos maiores brasileiros de nossa história: Dom Hélder Câmara. Há 100 anos nascia esse homem que era um misto de santo e guerreiro. A sua história, a sua trajetória, por tantas situações e exemplos marcantes nos permite asseverar essa expressão: um misto de santo e de guerreiro.

A dimensão desta homenagem é única. Estamos falando de um brasileiro cujo nome foi indicado por quatro vezes ao prêmio Nobel da Paz. E, certamente, só não foi mercê de injunções políticas, muitas delas depois reveladas, inclusive ao tempo da ditadura, para que não se concedesse a ele essa honraria.

Dom Hélder, pelo que se depreende da sua história, era um homem que fazia acontecer, um homem do mãos à obra, um homem do diálogo, da fala mansa e do sorriso doce, que jamais se curvou diante do autoritarismo.

Aos 22 anos já era padre e já percorria a estrada do fazer o bem, do fazer pelo outro, de lutar por uma sociedade mais justa. Em 1952 presidiu a assembleia que criou a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil — CNBB, instituição maior da nossa Igreja Católica, tão importante nos dias atuais e, desde sempre, como expressão do pensamento da Igreja, como um ingrediente, eu diria, indispensável à democracia, como integrante da sociedade civil organizada.

Mas, Deputada Sandra Rosado, desejo-me ater a dois aspectos que me parecem muito relevantes e ilustrativos, entre tantos da história de Dom Hélder. Em 1955 o Congresso Eucarístico Nacional foi realizado em julho na nossa cidade do Rio de Janeiro.

Naquele instante, o Cardeal, que já tinha como Bispo Auxiliar Dom Hélder, entregou-lhe o desafio de trabalhar pela organização de algo até então inusitado, porque acorreriam ao Rio de Janeiro milhares de bispos, cardeais, sacerdotes, peregrinos, padres, enfim, católicos como um todo, para naquele instante, no ano de 1955, conviverem, compartilharem e participarem do Congresso Eucarístico Nacional, que foi um importantíssimo marco na história da Igreja.

Desde já, o desafio: onde reunir todas essas pessoas? Como? Que infraestrutura? Que mecanismo, que logística organizar para que o evento acontecesse a contento?

Ao tempo de Getúlio Vargas, Presidente, Prefeito, Mendes de Moraes, a ideia que convergiu como solução era providenciar um aterro na Praia do Flamengo, o Aterro do Flamengo. Exatamente onde estáerguido o Monumento aos Pracinhas, ali foi instante campal da realização desse grande evento.

Para os senhores terem ideia, foram mais de 250 mil pessoas sentadas e 850 mil pessoas em pé no ano de 1955.

Na organização de toda a infraestrutura, não fosse, por exemplo, a Marinha do Brasil, não haveria alojamentos. Os auxiliares de Dom Hélder naquele instante diziam que sua rotina era proibitiva, tamanha a garra e a dedicação ao evento, que teve repercussão internacional.

Houve uma série de situações após o Congresso Eucarístico. Ninguém passa incólume, há sempre críticas, palavras as mais variadas, focos distintos na observação de determinado assunto. Sobre o Congresso ocorreram várias críticas e, uma vez apresentadas, provocaram Dom Hélder. Provocou-se Dom Hélder diante daquelas críticas injustas de que: O que levou a esse gasto? O que levou à organização desse evento, que não propriamente resolveu problemas humanos e sociais?. Críticas menores, mas que fizeram cutucar a onça com vara curta; que fizeram crescer cada vez mais na alma daquele homem o desejo de servir, de ir adiante, de fazer acontecer.

No instante final desse evento, em uma conversa, o grande Cardeal Gerlier, de Lion, virou-se para Dom Hélder e pronunciou: Dom Hélder, nossa cidade do Rio de Janeiro é tão bela, tão formosa, tão decantada, mas ao mesmo tempo espaço de tantas mazelas, muitas delas ilustradas por essa péssima fotografia, socialmente falando, que são as favelas do Rio de Janeiro. Favelas que, naquele tempo, tinham grau de desenvolvimento padrão Biafra, os mais perversos e menores do mundo, com elevada mortalidade. Eram 150 favelas na Cidade do Rio de Janeiro, onde moravam cerca de 600 mil pessoas. Àquele tempo, o Cardeal Gerlier disse: Mas a opção pelos pobres éimportantíssima. É fundamental a busca pela solução humana e cristã dessas mazelas sociais. Que fazer? Aquilo, junto com as críticas que Dom Hélder recebeu, tocou-lhe a alma, e ele partiu para uma experiência prática reveladora de uma intenção nobilíssima e de uma capacidade de enfrentamento de situações concretas como poucos homens já o tiveram na nossa história republicana.

Havia, na Cidade do Rio de Janeiro, no Leblon, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, nos muros do que hoje é o espaço da agremiação rubronegra — que parte para a vitória no próximo domingo, e faço um parêntese para comentar esse final de campeonato brasileiro — , uma das principais favelas do Rio de Janeiro: a Favela do Pinto, muito grande.

Havia tido um incêndio próximo àquela ocasião, e ali Dom Hélder botou oseu dedo. Vamos reverter essa situação, vamos mostrar que é possível dar qualidade de vida, que é possível empreender algo em prol de uma habitação mais digna. E surgiu a Cruzada São Sebastião, mas não surgiu do nada. Como viabilizar recursos para 910 apartamentos? Como organizar toda essa população ainda vítima de atrasos na educação, na saúde e em todos os quesitos sociais?

Naquele tempo, ainda em 1956, foi Dom Hélder ao Presidente Café Filho, que por sua vez encaminhou ao Congresso Nacional pedido de crédito adicional de 50 milhões de cruzeiros. Mas seu mandato estava no final, jáhavia sido eleito JK, e o Congresso não foi adiante com a aprovação. Eis que veio Juscelino Kubitschek, que, no meu entendimento, foi o maior Presidente desta República, e aquiesceu, sensibilizou-se com as breves palavras de Dom Hélder, para que o poder público convergisse verbas com esse objetivo.

Hoje, na Avenida Brasil, do lado direito, há o Mercado São Sebastião, área que se expandiu e se deu graças à possibilidade, à ideia, à engenharia, à criatividade de Dom Hélder e àsensibilidade de Juscelino Kubitschek, que doou à Cruzada São Sebastião aquele espaço, que, por sua vez, foi vendido e que permitiu a autossustentação desse empreendimento. Por várias vezes, Deputado Luiz Couto, de 1956 a 1960, esse empreendimento esteve no vermelho, com empréstimos junto ao Banco do Brasil ou a alguma entidade, sobretudo a estatal bancária brasileira. Mas o plano de autofinanciamento era alguma coisa que Dom Hélder acalentava. Foram 850 mil metros quadrados, na Avenida Brasil, que JK disponibilizou para a Cruzada São Sebastião, o que acabou perfazendo 80% de todo esse empreendimento.

A ideia maior da Cruzada, ali no Leblon, junto à classe alta do Rio de Janeiro, era de uma superação romântica, sim, mas objetiva e honesta. Uma superação de lutas de classes, visando permitir — e hoje se fala tanto nisso — que a população estivesse mais próxima também do mercado consumidor, do mercado de trabalho, da integração à vida do bairro.

Daí vê-se que chegou Dom Hélder, diria, à sofisticação ideológica e à boa-fé de tentar introduzir um código de honra, mercê dos atrasos que tivemos, uma luta por uma sociedade mais justa.

E permitam-me dizer aqui algumas passagens desse código de honra, a Ordem dos Cavalheiros São Sebastião. A ideia era de estabelecer princípios norteados em valores católicos, que haveriam de reger o comportamento das pessoas. E se lutava muito por isso em assembléias, em reuniões as mais diversas.

Para participar, os homens deveriam observar 10 princípios:

1) Palavra de homem é uma só;

2) Ajude seu vizinho;

3) Bater em mulher é covardia;

4) Sem exemplo não se educa;

5) Homem que é homem não bebe até perder a cabeça;

6) Jogo só futebol;

7) Difícil não é mandar nos outros; é mandar na gente;

8) Comunismo não resolve;

9) Quero meu direito, mas cumpro minha obrigação;

10) Sem Deus não somos nada.

Às mulheres havia também um decálogo das Legionárias de São Jorge:

1) Questão fechada: casa limpa, arrumada e bonita;

2) Quando um não quer, dois não brigam;

3) Anjo de paz e não demônio de intriga;

4) Não vire a cabeça porque o marido não tem juízo;

5) Se o marido faltar, seja mãe e seja pai;

6) Educar de verdade, sem palavrão, sem grito e sem pancada;

7) Seja liga dos educadores do seu filho;

O SR. OTAVIO LEITE - Enfim, também existe um decálogo muito interessante para os jovens. São muito honestas as iniciativas de pugnar e tentar concretizar algo importante para a sociedade.

Esta sessão me foi sugerida em uma conversa que tive com um padre da Paróquia Santos Anjos, ali na Cruzada São Sebastião, dos bons padres da nova geração da Igreja Católica, o Padre Marcos Belisário. Nessa conversa que tivemos, ali, firme, levantamos a bandeira de Dom Hélder.

Enfim, houve essa luta pela auto-organização dos moradores, o congresso de trabalhadores permanentes. Em 1974, Dom Hélder falou no Fórum Mundial de Davos. Dom Hélder recebeu o título Doutor Honoris Causade Sorbonne, de Harvard; falou tantas e tantas vezes aos líderes mundiais; foi, sem dúvida nenhuma, um grande homem brasileiro.

Portanto, Deputada, queria dizer — e aqui encerro minhas palavras — da minha satisfação de poder pronunciar algo em torno do nome de um personagem ímpar da nossa República, da nossa História, que deve servir como fonte de inspiração para todos os brasileiros no sentido de que é possível ter solidariedade, o princípio da subsidiariedade da Igreja Católica, doutrina social da Igreja. Ele ia ali ajudar a pessoa com a perspectiva emancipativa do homem, isso é fundamental. Dom Hélder era isso na prática, não na teoria.

Hoje, o Jornal O Dia traz um belo artigo sobre os homens da história. Curiosamente, Dom Hélder foi citado. Que interessante! Que coincidência feliz! Fico a imaginar: se o Brasil tivesse 10 Dom Hélderes, ele seria outro no aspecto social. Não tenho dúvida disso.

Foi um orgulho todo especial poder compartilhar deste instante em que homenageamos esse grande brasileiro que foi Dom Hélder Câmara.

Muito obrigado. (Palmas.)