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06/07/2008 | Jornal O Globo

20 anos do plebiscito da Barra

Plebiscito completa duas décadas, e líderes pró e contra a emancipação condenam falta de soluções para trânsito e saneamento

Vinte anos depois do plebiscito que manteve os 138 quilômetros quadrados da Barra da Tijuca como parte do município do Rio, os principais problemas da 24ª Região Administrativa persistem e se agravaram com a duplicação da população: a deficiência de vias de acesso, sobretudo para a Zona Sul, e a falta de saneamento, apesar da entrada em operação do emissário submarino. A opinião é unânime, tanto dos que defenderam a separação como dos que participaram da campanha do “não à emancipação”.

A idéia de criar o município da Barra é vista como página virada por integrantes dos dois grupos. Uma das razões é que a Constituição Federal (Emenda 15/1996) passou a exigir que a consulta seja feita à população de todo o município, e não apenas aos moradores da região a ser emancipada.

— Na ocasião, levaram a questão para o lado da separação do Rio. A Barra continuaria no Estado do Rio, mas confundiram tudo — lamenta o ex-jogador Zico.

Para Zico, Barra já virou um grande município

Morador da Barra há quase 30 anos, Zico está convencido de que a região estaria mais organizada, se tivesse se tornado um município, pois teria mais recursos para investimentos:

— Está provado que a emancipação poderia ter acontecido. A Barra já virou um grande município.

Presidente da Câmara Comunitária da Barra, Delair Dumbrosck, que, como Zico, assinou a carta-compromisso pela emancipação, em 1988, diz que a legislação não seria hoje o único empecilho à emancipação:

— A oportunidade passou. A situação é outra. A Barra está totalmente integrada à cidade. Antes, estávamos isolados.

Mais um defensor do “sim”, o ator Kadu Moliterno — que interpretou o surfista Lula, de “Armação Ilimitada”, série de TV da década de 80 — lastima que, por falta de recursos, as lagoas da região estejam, cada vez mais, poluídas e contaminando o mar. Ele, no entanto, pensaria muito antes de apoiar um novo movimento de emancipação:

— Se pudesse significar mais dinheiro para investimentos na Barra, votaria “sim” outra vez. Mas tenho dúvidas de que isso venha a acontecer — afirma Kadu, que mora no Recreio (bairro que faz parte da 24ª Região Administrativa, assim como Barra, Vargem Grande, Vargem Pequena, Grumari, Joatinga e um trecho de Jacarepaguá).

Outro cabo eleitoral do “sim”, o engenheiro civil e sanitarista Alaor Santiago, afirma que, além da mudança na legislação, o crescimento do Rio inviabiliza um novo movimento de emancipação:

— Só posso lamentar que a população tenha aumentado na região (de 118 mil, em 1988, para 272.555 habitantes, este ano, segundo estimativa do Instituto Pereira Passos, da prefeitura), para depois começar a chegar a infraestrutura.

Já o fundador da banda da Barra, o corretor Mário Ruy de Souza, reveria o voto, dado há 20 anos, pela emancipação:

— Eu me decepcionei. Os políticos que se apresentaram naquela época, e continuam atuando, nada fizeram. Seriam eles que estariam à frente do município da Barra.

A campanha do “não” ganhou o reforço de um cartaz feito pelo cartunista Ziraldo, com o Cristo de braços abertos. E a então administradora regional Vera Chevalier foi para as ruas defender a integridade da cidade:

— A separação provocaria problemas em vez de soluções. A Barra é um pedaço do Rio. Ela é carioca — ressalta Vera, que foi morar na Barra em 1974, saindo de lá para o Humaitá há cinco anos.

Com o deputado federal Otavio Leite (PSDB) aconteceu o inverso. Há 20 anos, ele foi um dos advogados do PDT (o prefeito era Saturnino Braga, filiado ao partido) a tentar barrar o plebiscito no Tribunal Regional Eleitoral. Em 1988, Otávio morava no Cosme Velho. Há 17, se mudou para a Barra.

— A descontinuidade territorial faria da Barra um gueto. Há valores culturais na região que toda a cidade tem direito de usufruir. Além disso, a emancipação requer gastos para a criação de uma estrutura pública.

Então membro do colegiado que dirigia a Associação de Moradores da Barra, Luiza Helena Nunes Ermel não se mostra arrependida de ter ido às ruas lutar pelo “não”:

— Até porque queriam transformar o aeroporto de Jacarepaguá num grande aeroporto e abrir um acesso da Lagoa de Marapendi para o mar.

Por sua vez, o engenheiro Fernando MacDowell, que votou “não”, hoje tem dúvidas:

— Não gostaria de ver o Rio partido. Só que alguns problemas poderiam estar equacionados se a Barra, que tem uma das maiores arrecadações do Rio, tivesse virado município. É um inferno sair do bairro. As lagoas e o mar também estão poluídos, porque o emissário não funciona como devia.