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18/09/2011 | Revista Veja.com

A divisão faz a força

Por Cecília Ritto

É certo que a união faz a força. Mas em eleições em dois turnos, a divisão também pode ser muito produtiva. A um ano do próximo pleito, é esse o quadro no Rio de Janeiro, onde o peemedebista Eduardo Paes está embalado pelos projetos dos Jogos Olímpicos e conta com apoio e máquina do governador Sérgio Cabral e da presidente Dilma Rousseff. Caciques da política local apostam na diversidade de concorrentes no primeiro turno para evitar que Paes atinja mais da metade dos votos e liquide a disputa.

A tendência é de que, fora o alcaide, a eleição seja disputada apenas por novatos na corrida à prefeitura. Mas o jovem Paes terá, do outro lado do tabuleiro, operando separadamente e sempre contra ele, velhos conhecidos da política carioca. Os padrinhos dos candidatos serão o ex-prefeito Cesar Maia (DEM), o deputado federal e ex-governador Anthony Garotinho (PR), o líder tucano e deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha, e o verde Fernando Gabeira.

“É bom ter um leque de ofertas, mas os candidatos terão que se diferenciar do prefeito e convencer de que vale a pena apoiar outro projeto em detrimento do que está em curso. E o brasileiro tem sido conservador em eleição de meio de mandato. Um político com uma avaliação de média para cima costuma se reeleger”, analisa o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

Pelo cenário que se desenha, a tarefa dos oposicionistas não será fácil. Os encarregados de tornar a disputa menos simples e, quem sabe, dar trabalho para Paes são, por enquanto, o deputado federal Rodrigo Maia, do DEM – já fechado com o PR e com chance de ter como vice a deputada estadual Clarissa Garotinho –, o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, o deputado federal Otavio Leite, do PSDB, e a vereadora tucana Andrea Gouveia Vieira, que está de saída do partido e com conversas avançadas para se filiar ao PV.

Andrea defende que o maior número de pessoas coloque “o nome na rua” e se candidate. “Nós temos, hoje, um prefeito com muita chance de se reeleger. Mas não significa que vamos desistir do debate, de fazer oposição e apontar erros. Vai ser difícil para o Paes e ele vai ficar assustado. Todos os candidatos conhecem muito o Rio e as entranhas da prefeitura. Não haverá factóide lançado sem resposta e nem discurso fácil”, avisa Andrea.

O lema do dividir para dominar, na prática, não é automático. Na cidade do Rio, Eduardo Paes conquistou o território das zonas norte e oeste e nenhum dos outros candidatos ainda é forte o suficiente para desbancá-lo nas áreas mais pobres. Ao que tudo indica, logo de cara, haverá uma maior aceitação dos políticos oposicionistas na zona sul. Mas são nas regiões menos nobres onde está grande parte do eleitorado do Rio. Ou seja, ao pulverizar os candidatos é preciso que, para a medida ter efeito, a população também se divida.

Ninguém nega a dificuldade que será driblar a chapa composta pelo PMDB e PT na eleição de 2012. Mas os outros candidatos prometem tornar o jogo eleitoral cansativo para Paes. Os padrinhos, veteranos na política do Rio, têm os dados sobre a cidade na ponta na língua e já confabulam sobre as vidraças da prefeitura onde pretendem mirar: entrarão na roda assuntos como os baixos salários dos militares e a defesa da PEC 300, os contratos da prefeitura, o choque de ordem – entendido pela oposição como uma política higienista – e os gastos volumosos do período pré-Olimpíadas.

De Freixo, o que se pode esperar é o discurso de esquerda que o projetou na eleição para deputado estadual de 2010. Com a defesa dos direitos humanos e o combate à milícia, o candidato do PSOL foi levado ao segundo lugar no ranking dos políticos mais bem votados para a Alerj. A aliança entre as famílias Maia e Garotinho parte do capital político de Cesar e Antony. Isso quer dizer que, de início, arrebanham os evangélicos e os servidores públicos. “Uma das táticas é usar a união entre Paes e Cabral para associar a imagem desgastada do governador com a do atual prefeito e mostrar que ambos têm a mesma forma de atuar”, adianta Rodrigo Maia.

Otavio Leite é forte nas políticas de apoio aos deficientes e pretende se fortalecer na zona oeste, onde já começa com alguma aceitação. “O Otávio tem entrada nos bairros do Recreio, da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá”, comenta Luiz Paulo, dando a dica de qual eleitorado Otávio tentará abocanhar de Eduardo Paes. Já Andrea tem atuação na Câmara Municipal marcada pela vigilância dos gastos públicos e todo tipo de brecha deixada pela atual administração.

Apesar dos currículos e das boas informações que os candidatos terão em mãos, Paes parte na dianteira. O peemedebista é o gestor de obras importantes, que devem ser inauguradas ao longo desse um ano e meio. E, até o momento, faz um governo com poucas notícias negativas. “Será uma eleição que se discutirá a continuidade ou não da gestão. Certamente serão enfatizadas as ações conquistadas e se falará sobre a importância de manter a cidade nas mãos da mesma equipe”, explica Nicolau.