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29/11/2004 | Jornal do Brasil

“Abaixo o peixe a R$ 1”

Otavio Leite tem 43 anos, quatro mandatos parlamentares – três como vereador e o atual como deputado estadual – e um futuro traçado no Executivo. Em dois anos, o sergipano criado em Copacabana deve assumir o Palácio da Cidade, com a anunciada candidatura do prefeito Cesar Maia à Presidência. Para o tucano de voz suave, que gesticula pouco e gosta de falar de si próprio na terceira pessoa, é hora de fazer um “doutorado em política”, tendo o prefeito como “orientador da tese”.

O curso parece já ter começado. Ao analisar o quadro político do Estado, Leite elege os mesmos alvos de Cesar na campanha: o senador Marcelo Crivella e o presidente regional do PMDB, Anthony Garotinho, que acusa de populismo.

– Viva a vara de pescar, abaixo o peixe a R$ 1.

O tucano, que sonha em reeditar a aliança PFL-PSDB para barrar a reeleição de Lula, defende o companheiro de chapa das acusações de estelionato eleitoral provocadas pela promessa de renúncia. Como constituinte em 1988, Cesar foi responsável pela reserva de vagas em concursos públicos para deficientes físicos, eleitorado cativo de Leite. Que, por sua vez, foi “brizolista de carteirinha” nos anos 80. Relembrando os tempos no PDT, o deputado, batizado em Aracaju por Juscelino Kubitschek, revela uma curiosidade: foi colega de Garotinho na coordenação da campanha de Brizola em 1989.

Como começou sua carreira política?

– Sou neto do senador Julio Leite. Cresci em sua casa, em Copacabana, onde se respirava política. Participei, no Colégio Andrews, das passeatas pela Anistia. Na faculdade de Direito, me engajei na militância estudantil. Era brizolista de carteirinha, trabalhei na campanha vitoriosa ao governo do estado em 1982. Quando Marcello Alencar se elegeu prefeito, em 1988, me convidou para trabalhar com ele. Fui secretário de Governo com 28 anos. Era um do Menudos do Marcello, rótulo criado por Ricardo Amaral numa célebre reportagem do JB.

A política local está se sobrepondo ao voto de opinião?

– O Congresso precisa aprovar a reforma política para corrigir os maus hábitos de mudança de partidos. Defendo um modelo inspirado no voto distrital misto alemão. Dos 50 vereadores, 25 deviam ser distritais. O eleitor votaria duas vezes, uma para sua região, outra com visão global da cidade. É legítimo que se puxe a brasa para sua sardinha, mas distorções devem ser eliminadas.

– Como avalia o trabalho da Assembléia Legislativa do Rio?

– É difícil, porque o governo do Estado tem ampla maioria. Como líder do PSDB, no ano passado, chamei atenção para questões perversas. Conseguimos, por decisão do TCE, que o Estado fosse obrigado a aplicar as verbas do Fundo de Conservação Ambiental. Por meio de uma alquimia contábil, o governo não destinava 5% dos royalties do petróleo ao meio ambiente.

– A decisão de apoiar Cesar Maia causou um racha no PSDB. No fim de abril, a deputada Denise Frossard retirou sua candidatura e deixou o partido. Qual é sua versão para o caso?

– Em fevereiro, desisti da minha pré-candidatura, em nome da unidade do partido, e passei a vice da Denise Frossard. Virei vice dela e fomos à luta. Em abril, um mês de muitos feriados, não viajei uma única vez.

– A indicação de Denise foi uma derrota de Marcello Alencar?

– Minha ascensão no partido foi uma conquista própria. Não foi de bolso de colete ou de apadrinhamento político. Marcello defendia a candidatura da Denise, embora dissesse que seu nome de coração era o Otavio. Quando especulou-se que havia uma crise interna no PSDB, ela resolveu sair. Ficamos com dois caminhos: prosseguir com candidatura própria ou apoiar Cesar Maia, o que era bem-vindo pela cúpula nacional do PSDB.

– Denise diz que se sentiu traída...

– Não houve articulação para demovê-la. Pelo contrário, a surpresa foi de todos ao vê-la desistir. Ponto final. Pessoalmente, tenho boa relação com ela. Após minha indicação para vice de Cesar, fui ao ex-presidente Fernando Henrique, ao prefeito José Serra, aos governadores Aécio Neves e Geraldo Alckmin e ao senador Tasso Jereissati. Houve uma blindagem tucana na aliança, referência para 2006.

O PSDB se reduziu ao papel de coadjuvante no Estado? O partido elegeu apenas 3 prefeitos, em cidades pequenas, e 11 vices.

– O partido fez várias alianças. Não temos qualquer estrutura no governo federal, estadual ou municipal. Na verdade, o PSDB desinchou. No Rio, saímos de uma situação pior. Elegemos 75 vereadores realmente tucanos, não hospedeiros de ocasião. A saída do poder permitiu que o partido perdesse gorduras. Estamos num processo de reconstrução, se considerarmos que o interior é influenciado por máquinas e controlado pelo Garotinho.

O partido terá candidato ao Planalto?

– Um partido que tem nomes como Geraldo Alckmin, Aécio Neves e Tasso Jereissati terá naturalmente uma candidatura própria.

Como avalia a possibilidade de Cesar Maia renunciar em 2006 para ser candidato à Presidência?

– Os homens públicos emergem ou caem. A dinâmica da vida pública é assim. Culpar Cesar por sua ascensão é uma injustiça. É natural que o PFL aproveite seu êxito eleitoral para alçar seu nome à Presidência. Está havendo uma interpretação míope de uma conseqüência natural da vida política. A curva política de Cesar é ascendente. Qual é sua culpa nisso?

Ficou surpreso com as reações negativas da opinião pública?

– A maioria concorda que é legítimo ir adiante. Fernanda Torres questiona a candidatura a presidente, mas espera que ele seja candidato a governador. Isso também implica em sua saída antecipada da prefeitura. Há uma histeria injusta, sobretudo dos adversários do Cesar na campanha. Jandira Feghali, Jorge Bittar e Marcello Crivella foram candidatos e, se eleitos, teriam que abandonar seus mandatos parlamentares. Bittar acusou Cesar de “estelionato eleitoral”. É injusto.

Crivella propôs que Cesar renunciasse para ele assumir a prefeitura...

– É um exagero, né? Sonho de uma noite de verão.

– Qual será seu papel como vice-prefeito?

– Serei pró-ativo, solidário e participativo. Não ficarei parado. Diz a lenda que o Jânio Quadros, quando eleito prefeito em São Paulo, em 1985, disse: “Ao vice, uma mesa e uma cadeira. Quiçá, uma linha telefônica”. Que o mal de Jânio não se abata sobre mim.

– Qual será a participação do PSDB no governo?

– Os espaços que o prefeito Cesar Maia está reservando ao PSDB foram estabelecidos no acordo político. Duas secretarias e a secretaria extraordinária do Deficiente Cidadão – uma sugestão minha. Nossas secretarias serão a de Saúde, onde continua o deputado Ronaldo Cezar Coelho, e a de Trabalho e Renda, cujo titular o partido ainda não escolheu.

Como avalia o resultado das eleições no Estado?

– Garotinho saiu enfraquecido. Quando um político perde em sua base, é o prenúncio de que seu ciclo político está em plena decadência. A ineficiência no combate à criminalidade mostra como o governo é ruim. A política de segurança é uma tragédia. Isso afeta não apenas a economia do Estado, mas o prazer de viver das pessoas, de todas as classes sociais, cada vez mais assustadas com a escalada da violência. Há um comando vacilante. Não é vergonha o governo do Estado requerer o apoio da União, como é o caso da presença do Exército.

Defende o uso de soldados nas ruas?

– Proponho a organização de grupos táticos móveis do Exército nas linhas Vermelha e Amarela, em permanente circulação. As unidades do Exército na Zona Sul deviam promover rondas noturnas nas praias. Isso já nos traria, no mínimo, melhoria na percepção de segurança. O país tem 1.500 homens fazendo policiamento no Haiti. Esse efetivo podia ser reaproveitado aqui.

O que a prefeitura pode fazer para ajudar no combate à violência?

– A prefeitura tem uma tarefa complementar. A Guarda Municipal é desarmada e tem de se ater às suas obrigações de proteção do patrimônio municipal. Não é uma força policial.

Qual o objetivo da reestruturação da prefeitura anunciada por Cesar?

– A cidade só tem uma saída: o desenvolvimento econômico. Vou me dedicar a fortalecer a atividade econômica e atrair novas empresas. Vamos inverter o esvaziamento homeopático, silencioso e perigoso da cidade – que atribuo, sobretudo, ao sentimento de insegurança. O turismo terá um papel de vanguarda, pois representa entrada de divisas e geração de empregos.

O que fazer para atrair negócios?

– Há na Câmara Municipal um projeto que prevê a diminuição da alíquota do ISS sobre feiras e congressos de 5% para 2%. Isso vai dar nos competitividade em um mercado disputado. Queremos criar uma força-tarefa para atrair mais pacotes turísticos para o Rio. A solução não cairá do céu.

O ex-governador Marcello Alencar terá participação no governo?

– Marcello é a maior referência política do PSDB no Rio. Será sempre um grande consultor para mim e para meus companheiros. Tenho interlocutores em nível nacional: os governadores Alckmin e Aécio, o prefeito Serra e o senador Arthur Virgílio. Estamos pavimentando a estrada para uma nova aliança em 2006 entre PSDB e PFL, em nível nacional e estadual.

Há possibilidade de união com o PT numa frente anti-Garotinho, como ocorreu em algumas cidades?

– No plano estadual, cabe a presença do PT. Não descarto a possibilidade de construção de um programa comum pela salvação do Estado. O nome do candidato é secundário. Precisamos fortalecer o Rio.

Qual é sua posição ideológica?

– Os rótulos estão fragilizados, mas sou um homem de centro-esquerda. Entendo por isso a preocupação permanente com o social, o desenvolvimento e a autonomia das pessoas. Sou contra o paternalismo. Viva a vara de pescar, abaixo o peixe a R$ 1. O ser humano precisa ter autonomia. O Estado pai é apenas uma referência dos livros de História. O peixe a R$ 1 permanente é a forma de amarrar a consciência.