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01/12/2004 | Repórter Geral

As cortadas para 2006

Com um vice tucano, o deputado estadual Otavio Leite, que não integra o seu círculo de relações políticas, o prefeito Cesar Maia, candidato à reeleição, não tem muitas chances de largar o novo mandato, caso o conquiste, para tentar um vôo mais alto em 2006. Os liderados de Cesar mais exaltados chegam a imaginá-lo candidato à sucessão de Lula. Já os realistas admitem que o homem forte do PFL no Sudeste pode assumir, se assim o desejar, o papel de forte candidato de oposição à sucessão da governadora Rosinha Garotinho.

Para ter toda a tranqüilidade do mundo em um virtual desembarque do poder, menos de um ano e meio depois de assumir o mandato, Cesar precisaria de um vice da copa e cozinha, do tipo do deputado estadual Eider Dantas ou da supersecretária da área social, a ex-deputada Solange Amaral. O exemplo do prefeito do Rio é válido para qualquer outro município. Para deixar um mandato duramente conquistado, 15 meses e cinco dias depois da posse, qualquer um dos novos prefeitos não poderia, como aconteceu na arrumação das suas coligações, de escancarar muito a porta das alianças com partidos, grupos ou pessoas.

Cesar Maia, se alcançar a reeleição, deverá se concentrar na estruturação de um forte esquema que garanta a candidatura do seu filho, o deputado federal Rodrigo Maia, ao governo fluminense. Manteria, então, no jogo da sucessão presidencial, condições excepcionais para aumentar o poder de fogo de Rodrigo como principal candidato de oposição ao senador Sérgio Cabral, que será, ao que tudo indica, o candidato do casal Garotinho ao Palácio Guanabara. As eleições do próximo mês de outubro representam, em linhas gerais, um bom aperitivo para as eleições nacionais e estaduais, dois anos depois. Cesar e outras lideranças de peso da política do Estado do Rio, pelos vices que se obrigaram a escolher, entram no jogo maior de asas quebradas.

Bem à frente

A eleição de outubro próximo não será federalizada na maioria dos municípios brasileiros, embora isso não queira dizer que ela vai se restringir a a determinados nichos de política municipal. Agora que as pesquisas de opinião começam a registrar a recuperação da popularidade do presidente Lula e do próprio governo que ele representa, a eleição que vem aí, tem tudo para ser vista, no entanto, em grandes centros urbanos do Rio e de São Paulo como uma preliminar da sucessão presidencial de 2006. Mas, no dia-a-dia das ruas, não basta aos petistas apelar para Lula, como uma espécie de santo da vez. O eleitor exigente quer dos candidatos, aliados ou adversários do presidente, propostas firmes para a cidade onde mora, vive e vota.

O Estado do Rio vai às urnas com 10.515.216 eleitores. Desse total, 4.414.090 estão concentrados na capital. Os 6.101.128 restantes espalham-se pelos 91 municípios restantes. O grosso do eleitorado transita, no entanto, pela chamada Região Metropolitana do Grande-Rio: cerca de 75% dos mais de 10 milhões de inscritos. Foi Leonel Brizola, chegado do exílio no início da década de 1980, quem descobriu que para ganhar uma eleição de governador no RJ, bastaria a um político competente empolgar essa massa de eleitores concentrada no chamado entorno da cidade do Rio. Dito e feito. Brizola ganhou, assim, o governo fluminense em 1982.

Lula já está despachando ministros e a cúpula nacional do PT para o Rio, na tentativa de socorrer o candidato petista Jorge Bittar, que não apareceu muito bem nas primeiras pesquisas de intenção de votos registradas na Justiça Eleitoral e divulgadas nos jornais e nas emissoras de rádio e televisão. Sabe o presidente da importância da capital no seu projeto de reeleição, mas se conforta na constatação de que o drama que enfrenta, pelas dificuldades de decolagem de Bittar, são idênticos ao do casal Garotinho ante o fraco desempenho, até aqui, do vice-governador Luiz Paulo Conde, o candidato do PMDB.

Se a eleição fosse hoje, a capital estaria perdida, tanto para Lula e o PT como para o PMDB e o casal Garotinho. Como o primeiro turno só será realizado em 3 de outubro e todas as esperanças passam a ser jogadas, daqui em diante, na propaganda eleitoral gratuita na televisão, vale a pena esperar um pouquinho mais antes de se proclamar reeleito o prefeito Cesar Maia, líder disparado em todas as pesquisas conhecidas.

Cesar Maia, que já perdeu uma eleição governamental – foi derrotado por Anthony Garotinho em 1998 –, sabe que os seus planos políticos futuros inviabilizam uma renúncia prematura. A Lula e ao casal Garotinho, que caminham para perder o Rio para Cesar Maia, resta uma luta renhida nas demais cidades do entorno da capital. Em Niterói, pela primeira pesquisa conhecida, contratada ao Ibope pela Rede Globo, existe uma polarização, no momento, entre o deputado Moreira Franco – candidato do PMDB e do casal Garotinho – e o prefeito Godofredo Pinto que tenta a reeleição pelo PT, com o apoio aberto de Lula.

Em São Gonçalo, o PMDB e o casal Garotinho levam grande vantagem sobre o PT e isso se explica: o partido de Lula, no importante município, nunca teve maior importância política, bastando lembrar que nunca elegeu um vereador em toda a sua história. Na eleição desse ano, o Partido dos Trabalhadores resolveu apoiar a reeleição do prefeito Henry Charles (PTB), em troca da indicação do vice. Charles, segundo pesquisa do Ibope, patrocinada pela Rede Globo de Televisão, apresentou um fraco desempenho: somou apenas 3% das intenções de voto contra 48% de Graça Matos (PMDB) e 17% de Aparecida Panizet (PFL).

O que está sendo jogado, em linhas gerais, na presente eleição municipal, cidade por cidade – e particularmente nos municípios que formam o grande entorno da capital e que concentram 75% dos mais de 10 milhões de eleitores do Estado do Rio -, é o título de grande eleitor. Em Niterói, Godofredo Pinto aposta em Lula, enquanto Moreira Franco joga todas as suas fichas no casal Garotinho e no senador peemedebista Sérgio Cabral.

Em Niterói, além dos líderes das duas importantes vertentes políticas lideradas por Lula e pelo casal Garotinho, há uma terceira via, representada pelo ex-prefeito Jorge Roberto Silveira, que sustenta a candidatura pedetista do ex-deputado federal João Sampaio. E o prefeito Cesar Maia? As pesquisas também o identificam como um grande eleitor. Mas, no campo da prática, fora da cidade do Rio, essa qualidade ainda está por ser testada. Será que Cesar passa no teste? Ele vai poder satisfazer a dúvida, se vencer a eleição do Rio no primeiro turno. É que aí, terá os 20 dias de campanha do segundo turno para apoiar candidatos simpáticos ao PFL ou que interessam ao seu futuro político que ainda não foi bem delineado.