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27/07/2012 | Jornal O Globo on line

Balanço tucano

Jingles dos candidatos do Rio refletem marasmo da militância

Por Flávio Tabak

RIO - A qualidade técnica é bem melhor do que em 1960, quando o então candidato a presidente Jânio Quadros grudou na cabeça dos brasileiros seu “Varre, varre, vassourinha” e venceu as eleições. A capacidade de chamar a atenção dos eleitores, porém, é no mínimo discutível. A nova safra de jingles políticos dos principais candidatos a prefeito do Rio reflete, dizem especialistas, o marasmo da militância popular e a fraca relação entre quem vota e quem se candidata.

As preferências musicais dos principais candidatos a prefeito do Rio passam por estilos distantes — variações de samba, rap e pop/rock —, mas, de preferência, bem próximos aos gostos das fatias eleitorais que mais lhes interessam. As marchinhas não dão as caras há décadas, e, em tempos de revolução digital e excesso de informação, o desafio de fazer os refrões grudarem na cabeça do eleitor — como aconteceu com o “Lá, lá, lá Brizola”, na campanha presidencial de 1989 —, são maiores.

Eduardo Paes (PMDB), Marcelo Freixo (PSOL), Rodrigo Maia (DEM), Otavio Leite (PSDB) e Aspásia Camargo (PV) têm parceiros conhecidos do cenário musical e já lançaram seus jingles via internet. A pedido do “Globo a Mais”, o arranjador e violonista André Siqueira, que atualmente trabalha com Danilo Caymmi e já se apresentou com a Orquestra Sinfônica Brasileira, ouviu os temas das campanhas. Para ele, não há novidades musicais:

— O estilo é como se fosse o de música religiosa. Não vão inserir muitos elementos, acordes e convenções harmônicas estranhas a uma média. Os cinco candidatos atingiram o objetivo principal de nunca distrair o ouvinte da letra. Mas não há nada que chame a atenção musicalmente. Até o groove de funk é feito com cautela.

Paes decidiu investir mais uma vez no samba, agora sem o refrão forte que o elegeu em 2008: “Esse é o prefeito / Esse é capaz / O Rio é 15, é Eduardo Paes”. O nome do candidato só aparece uma vez na letra, que tenta chamar a atenção para mudanças que ocorreram na cidade — mais sentimentais do que de projetos e obras — desde que o prefeito tomou posse, em 2009.

O estilo da música de Freixo lembra o usado por Fernando Gabeira em 2008. Embora não atinja a maior fatia do eleitorado, o rap com refrão cantado por Caetano Veloso lembra uma marcha libertária, mais estilosa e menos popular. Rodrigo Maia é o mais crítico ao falar dos problemas da cidade. Em determinado momento, a letra pergunta para quem a cidade está “bombando”. Já a música de Otavio Leite parece estar mais preocupada em apresentar o candidato do que em investir num discurso que seja lembrado, assim como o de Aspásia, que mistura muitos ritmos para, talvez, mostrar as diferenças da única candidata a prefeita.

Professor do curso de Estudos de Mídia da UFF, Afonso de Albuquerque diz que, assim como em eleições recentes, nenhuma das músicas pode se tornar um hino:

— Há um esquecimento da militância popular. Brizola tinha isso, o PT investiu muito nisso, mas não é um elemento que faça parte de qualquer desses candidatos. Há excesso de significação, de discurso verbal. Os personagens não são tão conhecidos e não contam com um patrimônio simbólico que acrescente muito. Então os jingles tendem a ficar dentro de uma lógica industrial, não são passíveis de compartilhar um estado de afeição como outros do passado eram.

Para o cientista político e professor do Iesp/Uerj Marcus Figueiredo, falta algo que motive eleitores, a exemplo do que foi o jingle de Getúlio Vargas em 1950, o “Retrato do Velho”:

— No geral, os jingles não têm qualquer imagem criativa como foi o “Lula lá”. A função do jingle é dar uma mensagem e atrair o eleitor para a campanha, criar uma imagem, um atrativo que misture emoção e razão.

A atual atmosfera da cidade, que passa por grandes modificações para receber a final da Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, evita discursos mais engajados de oposição. Isso fica evidente nos jingles, diz Figueiredo:

— É dificílimo confrontar o astral positivo da cidade.

Em time que está ganhando...

O jingle do prefeito é econômico ao falar do... prefeito. “Eduardo Paes” só aparece uma vez na letra do tema de campanha assinado por Nani Dias e André Epinghaus, e o número da candidatura (15) aparece apenas no fim. É uma samba de “manutenção”, sem grandes efeitos ou refrões que marquem o candidato. O que interessa, aqui, é o “em time que está ganhando não se mexe”. O intérprete é Preto Joia, o mesmo de 2008. O produtor musical Nani Dias, que já atuou com Kid Abelha e Paulo Ricardo, explica sua proposta:

— Não queríamos fazer um jingle padronizado, de refrão chiclete. Trabalhamos mais na letra em vez de ficar grudando o nome da pessoa. É mais uma coisa de manutenção, mas nada impede que usemos o tema de 2008. O jingle não pode ser maior que o candidato — diz Nani, que teve a companhia de nomes populares como Dudu Nobre, Sorriso Maroto e Fundo de Quintal no coro.

Para o músico André Siqueira, faltou ousadia:

Abrem com um cavaquinho dedilhado e vira sambão. O violão sete cordas dá um jeito menos previsível. Há uma tentativa de ser mais popular, embora não grude.

Rap socialista com Caetano

“Não ataca, não abusa, não sufoca que eu não deixo, eu sou carioca e fecho com Marcelo Freixo”. Na voz de Caetano Veloso, a refrão do candidato do PSOL fica na cabeça. O surdo e o tamborim aparecem entre uma e outra frase do rap, e o número 50 é gritado por uma voz que lembra a vinheta da “Rádio Globo” usada para anunciar o placar dos jogos de futebol. Talvez para deixar o jingle mais carioca, já que o ritmo é, para o músico André Siqueira, o menos brasileiro de todos.

— É mais pop, direto, sem elementos fofinhos. A mensagem fica clara porque quase não há melodia. É o rap, e depois vem o Caetano repetindo o refrão, que é forte mais pela figura dele — opina, sobre a música assinada por Caetano, Breno Góes e Gus Levy.

A composição surgiu por acaso. Os amigos e músicos Breno e Gus ofereçam o jingle durante um encontro promovido por Freixo, que gostou e topou.

— Escrevemos a letra por afinidade ideológica. O Freixo não mudou nada. Gravamos a maior parte em casa. Depois o Caetano gravou sobre a base — conta Gus, de 22 anos, que tem uma banda de pop/rock.

À la Zeca Pagodinho. De oposição.

A campanha de Rodrigo Maia traz no jingle um discurso mais claro de oposição, com o clássico “hora de mudar” na letra. Hospital está uma confusão, metrô lotado, trânsito parado, “acordo cedo pra ralar”. Está tudo lá. O ritmo é o samba, mas diferente do usado pelo prefeito e adversário Eduardo Paes.

— Lembra o Zeca Pagodinho no começo, tem mais malandragem. Achei o que consegue ser um samba mais genuíno, sem ser almofadinha. Está mais para samba-enredo — avalia André Siqueira.

A letra do jingle assinado por Fabiano Ribeiro, João Andrade e Marquinhos “O Sócio” é a única que faz referência ao candidato a vice. Clarissa Garotinho surge apenas como “Clarissa”, colada ao nome de Rodrigo no refrão para aproveitar os votos dos pais dos candidatos, Cesar Maia e Anthony Garotinho.

Em nota enviada pela campanha, Fabiano Ribeiro diz que a ideia é chamar a atenção para o que é preciso mudar na cidade, um “jingle conceito, que tem como objetivo apresentar o posicionamento de campanha”.

O balanço tucano

O candidato do PSDB, Otavio Leite, explora mais o ritmo que o discurso. Um tímido “continuando o que é certo, mudando o que está errado” é a única lembrança de que se trata de uma candidatura de oposição.

— Lembra as músicas do Seu Jorge, Jorge Ben, Tim Maia. E é bem americanizado. O refrão em forma de rap é usado desde os anos 90 nos EUA. O cantor que só aparece no refrão não é um rapper. Esse elemento é usado para dar uma característica melódica à composição. Há referências de funk e samba-rock na base, além da divisão com o rap — diz o músico André Siqueira.

O produtor fonográfico Carlos de Andrade conta que tentou dar uma “balançada” no tema tucano:

— Trouxe algumas vertentes do samba, do funk, do samba-rock. É uma música que pede positividade, alegria. O prefeito se reporta a todos na cidade. Acredito que dialogamos com todas as fatias da sociedade, da popular à MPB — diz Andrade. — O carioca já entendeu que não existem grandes benefícios ao tentar desfazer o que a administração anterior fez. Por isso manter o que é certo e ajustar o errado.

A salada verde

A candidata verde Aspásia Camargo tem um jingle tão variado quanto as espécies nativas da Mata Atlântica carioca. Há teclados, guitarra, levada suingada, coros, efeitos digitais, rapper falando grosso, sambalanço. Todos eles misturados numa produção caprichada da única candidata a prefeita do Rio.

— Os teclados remetem à década de 80, e a harmonia é a menos óbvia. Me pareceu a produção mais caprichada. A guitarra de rock’n’roll tem um ótimo timbre, mas ajuda a deixar a música com a cara de que atira para todo lado. É mais fiel às raízes da Banda Black Rio e de Tim Maia — comenta o arranjador e músico André Siqueira.

O responsável pelo jingle é o compositor e produtor musical Ary Sperling, que já trabalhou com Gilberto Gil, Milton Nascimento e Xuxa, entre outros artistas. Ele conta que não queria a cara de jingle político:

— Fizemos uma produção sofisticada. Usamos o ritmo brasileiro misturado com a sonoridade moderna de hoje, com sintetizador, guitarra, hip hop, rock e samba. Todo o pano de fundo da letra foi enviado pelo comitê. Eles queriam elementos sobre natureza.

* Esta matéria foi publicada originalmente na edição vespertina de quinta-feira do Globo A Mais