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10/03/2010 | Jornal Folha de São Paulo

Brasil nunca teve tantos casos de recall de veículos

Por Fabiano Severo

O Brasil nunca teve tantos casos de recall de veículos. No ano passado, foram 40 convocações e quase 1,2 milhão de carros com defeitos que comprometem a segurança.

É um número quatro vezes maior do que o de 2007, segundo informações do Procon e do DPDC (Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor), do Ministério da Justiça. Os dados só do DPDC são menos abrangentes e apontam 35 recalls para 460 mil carros.

Ainda é pouco. Nos EUA, com 215 milhões de veículos -no Brasil, são 45 milhões-, só o recall da Ford em 2009 convocou 4,5 milhões de Fusion, metade de todos os carros envolvidos em recalls nos últimos 20 anos no Brasil.

Isso sem falar no último recall da Toyota, que, desde fevereiro, convoca 8,5 milhões de carros com problemas no acelerador nos EUA e na Europa. Afinal, as montadoras perderam o controle de qualidade?

Segundo Paulo Butori, presidente do Sindipeças (Sindicato dos Fabricantes de Autopeças), "o aumento da produção e algumas dificuldades nos projetos, devido à alta velocidade dos lançamentos, têm contribuído para o aumento nos recalls".

Por lei, as montadoras são apenas obrigadas a comunicar aos proprietários via mala direta e anunciar o recall em veículos de grande circulação.

No anúncio, é preciso informar a gravidade do problema, o risco de acidentes fatais, os modelos e os números dos chassis do carros envolvidos. Para as montadoras, se o anúncio sair no pé da página, melhor.

O prejuízo com a troca dos componentes e o treinamento das revendas é o de menos. Muitas montadoras passam anos para reconstruir a imagem da marca após um recall.

Quem não se lembra do caso do banco traseiro do Fox? A Volks insistia em dizer que o sistema desenvolvido e fabricado no Brasil era perfeito. Os usuários, segundo a montadora, não liam o manual e machucavam o dedo.

As intimações do Procon não foram suficientes. O DPDC teve de intervir para obrigar a VW a convocar 477 mil donos de Fox. Foi o segundo maior recall do país, só perdendo para o do Chevrolet Corsa -em 2000, foi convocado 1,3 milhão de carros com problemas no cinto dianteiro.

Só que nem sempre as campanhas são suficientes. Segundo os fabricantes, só metade dos convocados no Brasil vai às revendas checar os problemas.

Na Europa e nos EUA -país no qual o primeiro recall de carro foi feito, em 1966-, o comparecimento chega a 90%.

Por isso, o deputado Otavio Leite (PSDB-RJ) propôs o projeto de lei 1.527/07. Ele obrigaria o Detran a fiscalizar os carros na vistoria anual. Se o dono não tiver atendido ao recall, não poderá licenciar o carro.

Até o momento, o projeto está parado na CCJC (Câmara de Constituição e Justiça e Cidadania) da Câmara.

"Não há interesse de grandes grupos pressionando. Aí o processo não anda", admite o presidente da CCJC, deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS).