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17/06/2004 | Agência Carta maior

Cesar Maia não deve escapar do segundo turno no Rio

Prefeito busca a reeleição em chapa que terá como vice o deputado do PSDB Otavio Leite. A outra vaga do segundo turno pode ir para Marcelo Crivella, do PL. Esquerda, desunida, ocupa o quarto e o quinto lugar em pesquisa divulgada esta semana.

Foi definida oficialmente a primeira coligação partidária para a disputa pela Prefeitura do Rio. Encabeçada pelo PFL do atual prefeito, Cesar Maia, que busca a reeleição, a chapa terá como vice o deputado estadual Otavio Leite, do PSDB. A coligação conta ainda com PV e PTB, mantendo o arco de sustentação política da atual administração. Favorito para o pleito de outubro, Cesar quis largar na frente para tentar consolidar sua vitória ainda no primeiro turno. O problema é que a última pesquisa de intenções de voto, divulgada no início desta semana pelo instituto Sensus, indica que o prefeito terá dificuldades em ver seu sonho realizado.

O resultado da pesquisa, que ouviu mil pessoas nos diversos pontos da cidade, mostra Cesar Maia em primeiro lugar, como era esperado. O problema é que, com 34% das intenções de voto, o prefeito está longe de dar a surra prometida nos adversários ainda no primeiro turno. O adversário mais próximo de Cesar é uma surpresa, o senador Marcelo Crivella (PL), que aparece em segundo lugar na pesquisa Sensus com 21,5% das intenções de voto dos cariocas. Apoiado pela governadora Rosinha Matheus (PMDB), por Anthony Garotinho e pelo senador Sérgio Cabral Filho (PMDB), o vice-governador e candidato peemedebista Luiz Paulo Conde aparece em terceiro, com 14,6%, no que parece ser o início de um processo irrecuperável de queda das intenções de voto.

E a esquerda? Vai mal, obrigado. Apesar de ter seu nome aclamado na convenção do PT, de ter sido protagonista do horário gratuito do partido na televisão esta semana e do apoio recebido in loco recentemente por cardeais petistas como José Dirceu, o deputado federal Jorge Bittar parece só ter esquecido de combinar a prometida “ascensão rápida nas pesquisas” com o povo. O candidato do PT aparece em quarto lugar com 6,7% das intenções de voto. O curioso é que na cola de Bittar, com 4,2% das intenções de voto, aparece a deputada federal Jandira Feghali, do PCdoB, que seria sua natural aliada. Com menos de 2% das lembranças nas pesquisas estão os pré-candidatos Nilo Batista (PDT), Julio Lopes (PP) e André Correa (PPS).

Crivella crê na vitória

Além de indicar a probabilidade de ocorrência do segundo turno, a pesquisa traz como informação importante a posição de Marcelo Crivella. Há apenas um mês, o senador evangélico – ele é cunhado do bispo Edir Macedo e uma espécie de padre Marcelo Rossi da Igreja Universal do Reino de Deus – ainda fazia leilão de sua candidatura, negociando o melhor acordo para só então anunciar o apoio do PL carioca. Crivella vem sendo assediado pelo PT, que quer convencer os liberais a repetir no Rio a aliança nacional que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva, mas também mantém laços com Garotinho, de quem sempre foi aliado na política regional e para quem fez campanha nas eleições presidências de 2002, contrariando a orientação da direção nacional do PL.

Bittar e Conde nunca esconderam a vontade de ter o senador como vice em suas respectivas chapas. Por conta disso, o PL estava como moça bonita em baile, estudando qual convite iria aceitar para dançar. Agora, vendo o petista e o peemedebista pelo retrovisor, Crivella fala que nunca pensou em desistir de sua candidatura: “Ainda nem começamos, e nosso potencial de crescimento é grande. Vamos eletrizar o eleitorado quando apresentarmos nosso programa de governo, com iniciativas nas áreas de educação, saúde e segurança pública. Terei um programa especial para as comunidades carentes”, promete, sabedor que os votos dos bolsões mais pobres do Rio garantiram sua surpreendente chegada ao Senado em 2002.

Contra si, Crivella tem o relativamente alto índice de rejeição (13,4%), que tem tudo para crescer ainda mais numa eventual polarização característica de um segundo turno. Na frente dele, apenas o prefeito Cesar Maia, que aparece na pesquisa Sensus com 15% de rejeição do eleitorado. Em terceiro está o pedetista Nilo Batista, com 10,1% de rejeição, seguido de Bittar (9%), Conde (7,7%) e André Correa (6,9%). A candidatura com menor índice de rejeição do eleitorado é a da comunista Jandira Feghali que, curiosamente, aparece na pesquisa com um percentual idêntico ao que obteve nas intenções de voto (4,2%).

Esquerda desunida

Apesar de ambos negarem, a separação das candidaturas de Bittar e Feghali está se desenhando como fatal para as pretensões da esquerda em mais um pleito municipal no Rio. Ocupando respectivamente o quarto e o quinto lugar na pesquisa, os candidatos do PT e do PCdoB teriam juntos cerca de 11% da preferência do eleitorado, o que indica que uma candidatura única de esquerda teria chances mais concretas de brigar com Conde e Crivella pela ida ao segundo turno contra Cesar.

Bittar aposta todas as suas fichas de crescimento no início do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, onde vinculará sua candidatura ao governo Lula. Em termos de aliança, só fechou com o PSB, comandado no Rio pelo deputado federal Alexandre Cardoso, que deve indicar o vice na chapa petista. O candidato do PT chama Feghali de sua “principal aliada para vencer Cesar no segundo turno”, mas sabe que a candidatura da deputada não lhe é favorável no primeiro.

Será pior ainda para Bittar se a candidata comunista catalisar o apoio dos petistas cariocas descontentes com o governo Lula. Um indício claro dessa possibilidade é a confirmação de que o ex-deputado, e agora ex-petista, Milton Temer será o coordenador da campanha de Feghali: “O Bittar que se cuide, pois se a Jandira o ultrapassar nas pesquisas e tiver chances reais de ir ao segundo turno, ele será abandonado por boa parte da militância petista”, afirmou para a Agência Carta Maior um dirigente do PT fluminense, que preferiu não se identificar.

O PV, partido com alguma tradição de voto no Rio e que poderia engrossar uma candidatura conjunta de esquerda, optou por Cesar Maia. A aliança do prefeito com Alfredo Sirkis, que atualmente é secretário municipal de Urbanismo, é antiga e remonta ao primeiro governo do pefelista à frente da Prefeitura. Para garantir o apoio ao aliado, Sirkis teve que vencer uma dura batalha interna no PV, que culminou com a saída do deputado estadual André Correa, agora candidato pelo PPS, e seu grupo, apelidado de PV do G (Partido Verde do Garotinho), do partido. “O PV agora está unificado. A nossa presença ao lado de Cesar Maia é boa para os dois lados”, resume o secretário.

Vice não é o desejado

Em termos de voto, o principal aliado de Cesar será mesmo o PSDB. Em prévia disputada no último domingo (13), os tucanos decidiram que o vice na chapa do PFL será Otavio Leite. Com 258 votos, o deputado estadual venceu a disputa na qual teve como adversários o também deputado estadual Luiz Paulo Correa da Rocha (54 votos) e o deputado federal Ronaldo Cezar Coelho (28 votos). A escolha de Leite representa um problema, pois o preferido do prefeito para compor sua chapa era Coelho, um dos artífices da relação entre Cesar e a cúpula do PSDB durante o governo de Fernando Henrique Cardoso e a quem ele entregaria mais confortavelmente a cadeira de prefeito no caso de uma provável candidatura ao governo do Rio, ou até mesmo a Presidência da República, em 2006.

No lançamento de sua candidatura, Cesar anunciou que só sairá às ruas no início de setembro, pois “jamais iria deixar de priorizar a administração municipal”. O fato de o anúncio ter sido feito no Palácio da Cidade, no entanto, já fez com que o juiz eleitoral Luiz Alves Pereira pedisse abertura de investigação sobre o uso da máquina administrativa em favor do candidato do PFL. Quanto ao seu companheiro de chapa, Cesar mostrou que já está com o jogo de cintura necessário a quem quer vencer a disputa pela Prefeitura do Rio. “Sempre torci por ele”, disse, ao lado de um sorridente Otavio Leite.