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29/09/2010 | Jornal O Globo online

Debate entre os candidatos ao governo do Rio é focado na segurança

Por Fábio Brisolla, Fábio Vasconcellos, Natanael Damasceno, Paulo Marqueio e Rafael Galdo

RIO - No último debate entre os candidatos ao governo do Estado do Rio antes das eleições de domingo, realizado nesta terça-feira pela Rede Globo, Sérgio Cabral (PMDB) e Fernando Gabeira (PV) se confrontaram sobre temas essenciais para o estado como segurança, milícias, saneamento e saúde. Fernando Peregrino (PR), apoiado pelo ex-governador Anthony Garotinho, atuou como franco atirador e passou a maior parte do debate fazendo ataques pessoais ao governador.

Cabral lidera a disputa com folga e, segundo as pesquisas, deve ser eleito já no primeiro turno. Gabeira é o segundo colocado, mas a diferença entre os dois é de cerca de 40 pontos. Peregrino não passa de 5% das intenções de voto.

Numa questão sobre segurança, Gabeira disse que as UPPs "representaram um avanço", mas que, no caso das milícias, o governo do estado fala em prisões, números, exaltando o que chamou de um "falso sucesso" porque, segundo ele, "as milícias estão se estruturando de uma maneira tal que, quando elas são desarticuladas, vem o segundo escalão, vem o terceiro escalão".

Gabeira acusa Cabral de ter visão 'limitada' sobre Segurança Pública

Cabral então cobrou de Gabeira por que, como parlamentar, ele não havia apresentado emendas com recursos para combater a violência.

- O que me pergunto, deputado Gabeira, é por que você, deputado federal durante 16 anos, nunca apresentou uma emenda ao Orçamento federal, aquele dinheiro a que o deputado tem direito, para a segurança pública.

- Porque a sua visão de segurança pública é muito limitada. Eu coloquei imensas emendas parlamentares, por exemplo, para o basquete para os meninos de comunidades pobres, e coloquei dinheiro para o funk. A minha perspectiva é sempre uma perspectiva de resolver os problemas que eu posso resolver. É uma ilusão e um pouco de demagogia culpar um deputado pelo problema de segurança do Rio - reagiu Gabeira.

" Porque a sua visão de segurança pública é muito limitada. Eu coloquei imensas emendas parlamentares, por exemplo, para o basquete para os meninos de comunidades pobres, e coloquei dinheiro para o funk "

O governador defendeu a atual política de segurança e prometeu levar UPPs para todas as comunidades controladas pelo tráfico no estado:

- Hoje nós temos uma plano de metas, com redução de homicídios, redução de roubo de veículos em todo estado, e não apenas nas regiões das UPPs. Hoje a polícia está motivada. Hoje há uma política de segurança pública efetiva, que a população reconhece. Vamos pacificar todas as comunidades.

Outro tema que provocou discussão foi a participação das milícias no crime organizado no Rio de Janeiro. Ao perguntar sobre o assunto para Peregrino, Cabral afirmou que em seu governo mais de 500 milicianos foram presos, enquanto na administração de Rosinha Garotinho apenas cinco milicianos teriam sido presos. O candidato do PR disse que pretende criar uma corregedoria fora da polícia para investigar a atuação desses grupos armados.

Os candidatos foram obrigados a tratar de temas específicos. O primeiro deles foi saneamento, numa pergunta de Gabeira para Cabral. O candidato do PV destacou que, apesar da propaganda do governo, os investimentos na área diminuíram. Cabral contestou a crítica:

- Em um relatório da FGV (Fundação Getúlio Vargas), o Rio aparece como o terceiro estado do Brasil que mais cresceu em tratamento de esgoto. Temos um desafio muito grande. Foram muitos anos de descaso e corrupção. Nós viramos o jogo com mais de R$ 1,5 bilhão em investimentos no tratamento de esgoto - disse o governador.

Gabeira citou o bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo, por ter sido esquecido pelos investimentos públicos. E disse que, só após visitar o local, o governo anunciou alguma providência para a área. O governador reagiu dizendo que a obra recém-iniciada já havia começado antes, com a elaboração de um projeto e a licitação.

Na discussão sobre saúde, Gabeira disse que durante o governo Cabral houve denúncias de corrupção na compra de medicamentos e perguntou por que Cabral não se manifestou sobre o assunto. O governador disse que há investigação sobre o caso e rechaçou as críticas:

- Nosso governo abriu sindicância antes da imprensa. Estabelecemos práticas que o governo não tinha, com por exemplo, a compra por pregões eletrônicos. Hoje são mais de 4 mil compras. O Brasil inteiro participa e é qualificado aquele que tem menor preço.

Gabeira disse que discordava, porque o inquérito citado por Cabral não seria de conhecimento público:

" Nosso governo abriu sindicância antes da imprensa. Estabelecemos práticas que o governo não tinha, com por exemplo, a compra por pregões eletrônicos. Hoje são mais de 4 mil compras. O Brasil inteiro participa e é qualificado aquele que tem menor preço "

- Não saiu em lugar algum (a notícia) sobre esse inquérito. Desafio o governador a dizer onde falou, onde está esse inquérito.

Fernando Peregrino disse que Cabral está deixando o Rio de Janeiro com graves problemas na área de infraestrutura de transportes, como trens que não andam, ou andam sem maquinistas, metrô com problemas.

- Foram muitos anos de abandono, mas nós estamos recomeçando um trabalho de investimento para que, nos Jogos Olímpicos, tenhamos transporte de qualidade - disse Cabral.

Na réplica, Peregrino disse que a mulher de Cabral é advogada de uma concessionária do estado.

- Os problemas que nós estamos vivendo nos transportes são operacionais. Falta fiscalização do poder público. As barcas estão se chocando. Os trens estão com graves problemas operacionais, e o Metrô também. O poder público não está fiscalizando essas concessionárias - atacou Peregrino, que também questionou Cabral sobre a casa do governador em Mangaratiba. O candidato de Garotinho disse que a casa vale muito mais do que o valor declarado ao TRE. Cabral respondeu que a casa foi comprada há 12 anos e que, por lei, não pode atualizar o valor no Imposto de Renda.

Ânimos acirrados na plateia

Os ânimos também se acirraram na plateia presente ao estúdio da TV Globo. Nos intervalos entre os blocos, as comitivas de Cabral e Peregrino trocaram vaias. Ao lado dos aliados do governador, a primeira-dama, Adriana Ancelmo também reagiu. Na passagem do primeiro para o segundo bloco, depois que seu escritório de advocacia foi citado por Peregrino, Adriana desabafou com alguns integrantes da campanha do governador.

- Eu sou a maior vítima - afirmou ela, que estava sentada ao lado do vice-governador Luiz Fernando Pezão e de Régis Fichtner, um dos coordenadores da campanha do peemedebista.

Ao longo do debate, ela se comunicou por gestos com Cabral, e chegou a mandar um beijo para o marido depois que ele a defendeu em sua resposta. Cabral, aliás, era o único que se comunicava com seus assessores e aliados durante o programa. Por vezes, enquanto os outros candidatos falavam, ele conversava com os assessores e comemorava o desempenho nas respostas. Outras vezes, ele fazia alongamentos, demonstrando dores no joelho direito, operado recentemente.

Na comitiva de Cabral também estavam os dois candidatos ao Senado de sua chapa, Lindberg Farias (PT) e Jorge Picciani (PMDB), que se sentaram lado a lado. Já no grupo de convidados de Peregrino, estava Clarissa Garotinho (PR), candidata a deputada estadual. Ela, porém, não estava acompanhada de seu pai, o ex-governador Anthony Garotinho (PR), candidato a deputado federal.

Clarissa, aliás, diversas vezes fez intervenções em voz alta com ataques a Cabral, recebendo aplausos dos aliados e vaias dos peemedebistas.

Os ataques da plateia nos intervalos se repetiram também no final do debate. Logo após as considerações finais de Cabral, ele recebeu vaias dos colaboradores do candidato do PR. Convidados de Peregrino também chegaram a chamar Cabral de "ladrão", enquanto o mediador, Márcio Gomes, continuava ao vivo. Nesse momento, os convidados de Gabeira se manifestaram, em apoio ao candidato. O grupo do verde, no entanto, foi o mais comedido. Estavam entre eles candidatos a deputados aliados, como Luiz Paulo (PSDB), Paulo Pinheiro (PPS), Alfredo Sirkis (PV) e Otavio Leite (PSDB).

Ao fim do debate, Gabeira e Peregrino deixaram o estúdio rapidamente. Enquanto Cabral permaneceu por mais tempo, num clima de comemoração, embora ainda faltem cinco dias para as eleições.

Na saída, Peregrino disse que dará apoio a Gabeira no caso de um eventual segundo turno , mas com "qualquer ressalva", como em relação à opinião do verde sobre o aborto.