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08/11/2002 | Jornal O Globo

Demolição de anexo recebe críticas

A decisão do prefeito Cesar Maia de pôr abaixo o prédio anexo ao Hospital Miguel Couto, na Rua Mário Ribeiro 193, na Gávea, já está provocando críticas daqueles que defendem a reforma e o aproveitamento do imóvel. Conforme informou Ancelmo Gois ontem, em sua coluna no GLOBO, Cesar quer demolir o edifício, de nove andares, principalmente para recuperar a vista da paisagem do Maciço da Tijuca.

— Além do mais, o imóvel não combina com a área, não há demanda para a sua ocupação e não se faz mais hospital vertical — disse o prefeito.

O vereador Eliomar Coelho (PT) chegou a classificar como uma brincadeira fora de propósito a idéia de Cesar:

— Isso é mais um factóide. Num momento em que o município passa por tantos problemas, inclusive na área de saúde, demolir um prédio que pode ser aproveitado é uma imoralidade — disse Eliomar.

Secretário quer derrubar imóvel até o fim do ano

Cesar formalizou sua decisão através de decreto, publicado ontem no Diário Oficial, que autoriza as secretarias de Saúde e Obras a fixar as condições de demolição do prédio conhecido como anexo E e a propor a ocupação do espaço remanescente, até 30 de novembro.

A intenção do secretário de Saúde, Ronaldo Cezar Coelho, é de demolir o edifício ainda este ano. Uma das idéias é construir no local um prédio de dois andares, que poderia ser um prolongamento do atual ambulatório do hospital.

Mas o secretário de Saúde informou que o novo Miguel Couto será projetado por uma comissão especial, a ser criada por decreto e presidida pelo médico Nova Monteiro, de 86 anos, que trabalhou 50 anos no hospital. Segundo Ronaldo, o Miguel Couto será transformado num complexo:

— Teremos dois complexos: o Miguel Couto e o Souza Aguiar — disse Ronaldo.

No terreno de 2.300 metros quadrados, na esquina das avenidas Bartolomeu Mitre e Mário Ribeiro — onde estava um galpão de um supermercado desapropriado, que foi demolido sábado — será erguida a nova emergência do Miguel Couto. O prédio deverá ter cinco andares e um heliponto.

— Será uma emergência do século XXI — afirmou Ronaldo.

Para o lugar em que hoje funciona a emergência deverá ser transferida a maternidade, explicou o secretário. As obras do complexo do Miguel Couto devem começar ano que vem.

Ex-diretor do Miguel Couto, o deputado Paulo Pinheiro (PT) não quis discutir o mérito da decisão do prefeito de demolir o anexo E. Ele contou, no entanto, que o prédio foi construído em 1960 e nunca foi usado efetivamente:

— Para ser aproveitado, ele teria que sofrer uma grande reforma interna. O edifício tem muitos banheiros porque foi construído para abrigar vestiários de médicos e residentes. Só que, como fica distante do hospital, acabou não sendo utilizado.

Pinheiro propôs criar centro administrativo no imóvel

No início da década de 90, Pinheiro propôs a transformação do imóvel em centro administrativo, mas a idéia não foi adiante. O prédio sofreu reforma só na parte de baixo, para que um andar fosse usado como arquivo de documentos; e o térreo pela Comlurb e como entrada do ambulatório.

Embora sem condenar ou defender a demolição, Pinheiro é irônico quando se refere à alegação de Cesar, que quer liberar a paisagem:

— Paisagem de quem? De quem está na Praça Nossa Senhora Auxiliadora ou jogando no Flamengo?

Já o presidente da Associação de Moradores do Leblon, João Fontes, critica:

— O prefeito fala em demolir para melhorar a vista, mas permite coberturas acima do gabarito no Leblon.

O vereador Argemiro Pimentel (PSB) engrossou o coro dos descontentes com a decisão de pôr abaixo o anexo E:

— A cidade está carente de serviços públicos de boa qualidade. Deveríamos recuperar o prédio e usá-lo para ampliar a oferta desses serviços.

O vereador Otavio Leite (PSDB) também pensa assim:

— Mesmo que não seja usado pelo Miguel Couto, o imóvel pode ter uma destinação social. A demolição só se justificaria se houvesse algum problema estrutural que pusesse o prédio em risco.

O vereador Rodrigo Bethlem (PV) sugere que no local seja criado um centro de referência odontológica ou uma creche 24 horas.

— Para construir o prédio, a prefeitura gastou dinheiro público. A demolição também terá um custo — acrescentou.