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07/07/2004 | Jornal do Brasil

Dia de bom humor e surpresas

Crivella e Otavio Leite trocam ironias e trocadilhos na largada da campanha eleitoral. Cesar descumpre promessa e vai à rua

Em meio ao vai-e-vem de passageiros, a Central do Brasil foi, ontem, palco de provocações na largada da campanha eleitoral, com direito a mistura de bandeiras, bandinha de música e troca de amistosas ironias. Em meio ao vai-e-vem de passageiros, confundiram-se as agendas do senador Marcelo Crivella (PL) e do candidato a vice de Cesar Maia (PFL), Otavio Leite (PSDB).

A presença do vice parecia ser a confirmação de uma estratégia do prefeito, que prometeu não ir às ruas antes de agosto, quando começa a propaganda na TV. A promessa, contudo, só durou até o início da noite, quando Cesar deixou o Palácio da Cidade e visitou a quadra da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

Depois da panfletagem explícita do vice pela manhã, o prefeito negou de forma veemente que estivesse em campanha à noite. Garantiu que foi a Padre Miguel apenas para receber uma homenagem pela construção da Cidade do Samba.

Por quase duas horas, Cesar cumprimentou passistas, beijou crianças, fez discurso de agradecimento e curtiu a festa, que teve até fogos de artifício. Ainda assim, deixou a quadra com o mesmo discurso da semana passada, quando anunciou ao JB que não faria corpo-a-corpo com os eleitores.

- Estou evitando ir para a rua. Só vou começar depois da propaganda de TV - insistiu.

O presidente da Mocidade, Paulo Vianna, concorre a uma cadeira na Câmara Municipal pelo PDT. Microfone em punho, não poupou elogios ao prefeito e chegou a prever uma vitória no primeiro turno, ignorando o candidato de seu partido, Nilo Batista.

Pela manhã, na Central, não havia motivos para disfarçar o clima de campanha. Cercado de militantes, Otavio Leite resolveu atravessar o corredor da estação até o local onde panfletava o concorrente Marcelo Crivella. Avançou em direção ao bispo e o deixou acuado. Correligionários do tucano levantaram bandeiras e, gritando o nome de Cesar Maia, se aproximaram de Crivella. Em tom pacífico, os dois candidatos trocaram breves palavras e não economizaram trocadilhos.

- Vim para tomar café e acabei tomando café com leite - brincou o bispo, que mudou a agenda e decidiu iniciar a campanha na mesma hora e no mesmo local do concorrente. Ainda assim, jura que foi tudo coincidência.

O tucano manteve os afagos no mesmo patamar de ironia:

- Fico feliz porque todos somos filhos de Deus, temos direito a um café da manhã e ao melhor alimento, que é o leite.

Eram 6h quando Otávio chegou à Central, orientando os militantes sobre o modo correto de abordar os eleitores. Pedia, ´´em primeiro lugar, educação´´. Em seguida, ´´alegria´´.

- Se sentir receptividade boa, me chama que eu chego junto. A abordagem tem de ser um a um, ´´com licença´´, ´´bom dia´´ - ensinou.

A agitação das bandeiras e a panfletagem do PSDB, que logo se somaram ao som de trompetes e tambores, contagiaram até cabos eleitorais do concorrente Luiz Paulo Conde (PMDB), que na mesma hora fazia campanha em Madureira. Representando o vice-governador, eles se embalaram na marchinha O teu cabelo não nega. A banda tucana havia se atrasado em mais de uma hora num engarrafamento na Avenida Brasil.

Os músicos chegaram quase juntos com Marcelo Crivella. Às 6h15, o senador estava aflito, procurando os militantes, que demoraram a chegar com panfletos e bandeiras.

- Cadê os santinhos para a gente distribuir? - perguntava aos assessores.

Em seguida, mais entrosado, o candidato do PL começou a cumprimentar, com palavras carinhosas, os trabalhadores que chegavam à estação e o recebiam com simpatia e promessas de voto. Pegou crianças no colo, protagonizando a clássica cena de campanha política, e autografou as bíblias que eleitores e fiéis da igreja carregavam.

O bispo passou quase três horas na Central e partiu em caminhada pelo camelódromo - onde quase se chocou novamente com Otavio Leite. A intenção era voar para Brasília, votar no Senado e retornar ao Rio, mas a viagem foi cancelada.

Tucano orienta militantes

Elétrico e determinado, o tucano Otavio Leite deu o tom de entusiasmo ao início da campanha eleitoral. Incialmente, estava previsto que o vice representaria nas ruas o candidato à reeleição Cesar Maia (PFL), mas o prefeito resolveu ir a campo no início da noite de ontem, com uma visita à quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Leite, no entanto, mostrou jogo de cintura para lidar com o eleitorado. Deu aulas de abordagem à militância antes da panfletagem e se mostrou atento a tudo. Não perdeu tempo com quem fazia cara feia para a oferta de santinhos e soube aproveitar a oportunidade de conversar com quem abria um sorriso.

Captado pelas câmeras da equipe de TV que gravava imagens para a propaganda eleitoral, o sorridente segurado do INSS Sebastião - que não quis dizer o sobrenome por medo de que a invalidez que justificou a aposentadoria fosse desmascarada - não teve dúvida em declarar seu voto:

- Vou votar no Cesar Maia porque ele vai ser melhor prefeito do que esse que está acabando agora - observou, confiante.

A militância fingiu que não notou e seguiu a festa, dando atenção a outros pedestres, também receptivos, que mostravam conhecer melhor o cenário político.

Ao saber, por um assessor, da reivindicação dos comerciantes do mercado adjacente à Central do Brasil, Otavio Leite não hesitou. Pediu para não ser seguido e foi, sem panfletos nem bandeiras, procurar José Pereira de Lima, 57 anos, presidente do comércio popular da Praça Procópio Ferreira.

No dia cinza e frio, por volta das 8h30, a chuva fina colaborou com os argumentos do comerciante, que pediu um toldo definitivo para o mercado. Segundo ele, a solicitação vem sendo feita há quatro anos, mas até hoje não houve resposta da prefeitura, chefiada pelo mesmo político em quem José Pereira promete votar.

- Venho pedindo há mais de quatro anos. Passamos o maior sufoco aqui quando chove - explicou.

Apesar do apoio e da declarada confiança em Cesar Maia e no vice, o presidente do mercado não quis arriscar:

- Queria que fosse o mais rápido possível. Imediato. Antes das eleições. (D.D.)