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01/08/2011 | Jornal O Globo

Dirigentes da Força Sindical trocam seus partidos pelo PSDB em Minas e reforçam estratégia tucana

Por Pedro Mansur

RIO - A Força Sindical de Minas Gerais prepara uma ação de filiação em massa ao PSDB no estado, como parte de uma estratégia nacional de aproximação do partido com os sindicalistas. O evento, marcado para o dia 20 de agosto, contará com a participação de lideranças tucanas, como o governador Antonio Anastasia e o senador Aécio Neves, apontado pelo presidente da entidade como o principal responsável pela aproximação com a legenda.

Líder e organizador do ingresso dos sindicalistas no PSDB mineiro, Rogério Fernandes, presidente da Força Sindical no estado, é um dos que sairão de seu partido, em sua maioria da base aliada, e entrarão para a oposição. Atualmente ele é filiado ao PDT, mesmo partido do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva e do secretário-geral João Carlos Gonçalves.

- Esse gesto do Aécio de aproximação com a Força aqui do estado foi muito positivo, conversamos, principalmente sobre a pauta trabalhista no Congresso, e ele foi muito receptivo, ajudou a abrir o espaço para discutir questões trabalhistas no PSDB - afirma ele.

- São pessoas saindo do PMDB, do PTB, do PV e do PDT - diz o dirigente mineiro, para quem a questão não seria de abandonar a base aliada do governo, mas de "ir aonde há espaço para avançar a agenda trabalhista".

- Com os oito anos de governo Lula nós avançamos em várias partes, como o aumento real do salário mínimo, a aproximação com as centrais sindicais, mas ainda falta muita coisa. O fator previdenciário, por exemplo, é uma dívida com o trabalhador que não foi paga. Faz parte de uma dívida histórica. Estamos indo para o PSDB porque achamos que lá podemos ajudar a avançar e aprovar essas medidas e que teremos o apoio para lutar por isso. Não vamos abandonar nossas bandeiras, eles é que abriram espaço para recebê-las - declara o futuro tucano.

Perguntado se a articulação com Aécio levaria a um apoio à candidatura do senador mineiro à Presidência em 2014, Fernandes desconversou.

- Nosso foco no momento é a filiação. Candidatura em 2014 é uma questão para o futuro, é muito cedo pra falar. Até porque o partido tem outras lideranças possíveis além do Aécio, como o governador (Geraldo) Alckmin e o próprio (José) Serra - diz o dirigente

Deputados afirmam que ações devem acontecer em todo o país

Fernandes afirma também que a aproximação do partido com os movimentos sindicais faz parte de uma estratégia nacional dos tucanos.

- Essa iniciativa já esta acontecendo, faz parte de uma estratégia do partido, de se aproximar dos sindicatos e das Centrais. O PSDB sindical já existe no Amazonas, em Goiás, São Paulo e agora Minas. O partido está investindo muito nessa aproximação - declara ele.

Segundo o deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ), Aécio estaria participando de negociações com sindicalistas cariocas.

- Estamos nos articulando no Rio também. Tenho conversado com sindicalistas. Fui com o Alckmin no Congresso Nacional da União Geral dos Trabalhadores (UGT). Setores da UGT já convidaram o Aécio para uma troca de ideias no Rio - afirma o deputado, para quem essas ações são apenas o começo.

- Sou a favor de intensificarmos essa aproximação em todos os estados. Essa filiação em MG é apenas o primeiro passo. Sólido e amplo - diz ele.

Já Antonio de Sousa Ramalho, vice-presidente da Força Sindical e membro do PSDB, vai além. Ele, que é presidente do Sindicato da Construção Civil de São Paulo, afirma que o partido quer atrair todos os movimento sociais.

- Queremos nos associar a todos movimentos sociais. Começamos agora com as Centrais, mas no ramo do PSDB Sindical que dirijo, em São Paulo, já temos um grupo da diversidade, ligado aos movimentos pelos direitos dos homossexuais - conta ele, que afirma que a iniciativa deve continuar.

- Teve início em São Paulo e como o Fernandes disse, já há em Goiás e no Amazonas, mas essa iniciativa em Minas é mais importante, porque é o segundo maior colégio eleitoral do país - diz o sindicalista, para quem a estratégia traz benefícios tanto para os trabalhadores quanto para o partido.

- A questão para o partido é que, como as últimas três eleições mostraram, ninguém se elege em nível nacional sem o apoio dos trabalhadores. Mesmo nos estados, nossa influência em qualquer eleição é grande. Já para os movimentos, entendo que tem que haver consciência que só vamos avançar as questões dos trabalhadores através da política. O melhor jeito de fazer isso é com participações em vários partidos - analisa Ramalho.

O deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ utiliza os mesmos argumentos para falar sobre as intenções do partido ao se aproximar das Centrais no Rio.

- Partido sem inserção no movimento sindical, não tem perspectivas de chegar ao poder. A social democracia, defendida pelo PSDB, ideologicamente pressupõe uma ação sindical lúcida, não demagógica, mas progressista. O Brasil tem condições de avançar e oferecer ganhos nas relações trabalhistas, inclusive modernizando regras.

Abandono da base governista não é problema, diz Força

Para o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o abandono da base do governo não é um problema.

- Nossa central não tem partido, somos pluripartidários. Para nós não cabe à central decidir nada da filiação política dos sindicalistas, é uma questão pessoal, puramente pessoal - afirma Gonçalves, que considera isso uma vantagem.

- Como temos militantes e líderes em muitos partidos, temos apoios à causa sindical de todos os lados. Essa iniciativa do PSDB é boa porque é mais uma ramificação para nos apoiar. Essa pluralidade é positiva - diz ele.

- Falando como membro do PDT, é uma pena. Como dirigente sindical, não só não tem problema, como acho positivo.

Aproximação do PSDB com Centrais pode pode quebrar monopólio eleitoral do PT, dizem especialistas

RIO - Apesar de surpresos com a estratégia nacional do PSDB de se aproximar dos movimentos sindicais, analistas políticos afirmam que a ação pode atingir a "reserva de mercado eleitoral" do PT.

- Fiquei surpreso ao ouvir sobre essas ações. Por enquanto não há nada consolidado, é um projeto novo. Se tiver sucesso, pode significar a perda de um monopólio do PT no mundo sindical, coisa que o partido tem quase desde a sua criação - analisa o cientista político Luís Werneck Vianna.

Segundo ele, que é professor da PUC-RJ e especialista em questões sindicais, ainda é muito cedo para saber se a aproximação dará frutos.

- Está no começo ainda, mas se der certo pode mudar a face eleitoral brasileira. Tudo isso depende da movimentação se espalhar, refletir nos outros estados. São cinco ou seis centrais relevantes participando, e essa alteração de filiação muda um esquema estabelecido, de apoio ao PT e outros partidos de esquerda. Essa mudança na vida sindical afeta a eleição porque essas centrais representam muita gente - afirma Vianna.

Já Fábio Wanderley Reis, cientista político e professor da UFMG, analisa que a nova estratégia vai contra a visão defendida pelo ex-presidente Fernando Henrique em seu artigo "O papel da oposição", publicado em abril.

- FHC defende que os sindicatos pertencem de forma sólida à base do PT e que o PSDB deveria se concentrar em conquistar a nova classe média, que saiu da pobreza nos anos do governo Lula. Essa ação do partido vai contra essa visão, ao disputar dentro do "curral eleitoral" do PT - diz Reis, para quem a estratégia é uma nova forma de tentar fazer algo que o PSDB já fez.

- É uma nova tentativa de enfrentar o PT em um campo onde ele é forte, os movimentos sindicais. Resta saber se isso vai funcionar melhor que as tentativas anteriores - analisa ele.