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27/07/2011 | Portal Terra

É preciso radicalizar, começar do zero', diz Otavio Leite

Por Paula Bianchi

Sergipano de Aracaju, Otavio Leite, 51 anos, é o primeiro candidato do PSDB a concorrer à prefeitura do Rio de Janeiro em 12 anos. Deputado federal em segundo mandato, Leite faz questão de usar o verbo 'radicalizar' quando se refere aos problemas e prioridades da cidade. "É preciso radicalizar, começar do zero em diversos setores", repete.

Parodiando o ex-presidente Juscelino Kubitschek, Leite promete fazer 40 anos em quatro e critica a falta de envolvimento do atual prefeito Eduardo Paes com as questões macro do Rio e a centralização da cidade. Indo contra o slogan principal do atual prefeito, para Leite, "nós não somos um Rio. Somos vários Rios".

O Terra abriu essa semana a série de entrevistas com os candidatos a prefeito do Rio de Janeiro. Foram convidados os pretendentes ao cargo que obtiveram pelo menos 1% na pesquisa Datafolha, divulgada no dia 21 de julho. O candidato Marcelo Freixo (Psol) teve a entrevista publicada na última quarta-feira, sendo seguido por Aspásia Camargo (PV) na quinta-feira. Na segunda-feira, será a vez do candidato do DEM, Rodrigo Maia.

A seguir, confira os principais trechos da entrevista com Leite:

Terra - Há 12 anos o PSDB não lança nenhum candidato à prefeitura do Rio. Por que participar da eleição agora?

Otavio Leite - Ficar 12 anos sem lançar candidato foi um equívoco. Ficou mais do que provado que está na hora de reerguer o partido e uma candidatura é indispensável para isso.

Terra - Vocês trabalhavam com uma aliança com o PV que acabou não acontecendo. Por quê?

Leite - Nós tentamos essa aproximação com o PV, dialogamos muito. Apoiamos o partido em duas ocasiões, com o Fernando Gabeira para prefeito e para governador. No entanto, o PV resolveu seguir outra estrada. Não há problema. Tentamos, não conseguimos, vamos seguir em frente.

Terra - Como é participar de uma candidatura puro sangue em uma eleição em que o prefeito tem uma coligação de 19 partidos?

Leite - É bom. Temos três minutos e meio de televisão, vamos mostrar nossa identidade. Será uma plataforma social democrata. Nós queremos ideologizar esse debate, inclusive questionando a miscelânea contraditória que se constitui uma aliança de quase 20 partidos ao lado do prefeito da cidade, com contradições ideológicas muito nítidas.

Terra - O que o carioca pode esperar de um governo Otavio Leite?

Leite - Um prefeito extremamente democrata, com uma visão ampla da cidade e um profundo engajamento social. Que vai decidir as prioridades ouvindo as pessoas, e sempre pensando que cada real investido tem que se traduzir em algum dividendo social alcançável.

Terra - Quais as prioridades do governo?

Leite - Há determinados temas que têm que ser trabalhados. Temos cinco propostas imediatas relacionadas à saúde, educação, transporte, pessoa com deficiência e empreendedorismo e desenvolvimento econômico que são as molas mestras do nosso governo.

Terra - O senhor pode detalhar essas propostas?

Leite - Na saúde, qual o problema mais grave? Faltam médicos. Para combater esta questão vamos declarar o sistema público de saúde e ensino. Queremos integrar as seis faculdades de medicina da cidade à rede municipal, seja no internato ou na residência. Ampliar as vagas de residência e dobrar o valor do salário para atrair mais residentes e suprir a demanda imediata. Também vamos instituir a figura do orientador, preceptor, entre os médicos da rede municipal. Eles irão ganhar gratificações para ajudar na formação dos médicos. Ao mesmo tempo vamos instituir o cartão saúde. Cada criança que nascer na cidade - nascem 75 mil por ano - vai receber, ao lado da certidão de nascimento, o seu cartão saúde. Começamos com os recém-nascidos e vamos aos poucos aumentando para as faixas mais jovens. Com o cartão, o cidadão terá sempre a mão o seu histórico e o médico poderá avaliar melhor o paciente.

Terra - A zona oeste, como o senhor abordou em seu twitter, é uma região que demanda de mais ações na saúde. Quais os projetos diretos para a saúde nesta região?

Leite - Vamos criar e implantar por chamamento público a primeira faculdade de medicina da zona oeste da cidade. Eu falo numa região com 1,4 milhão de habitantes que não tem uma faculdade de medicina, o que é um crime. Não existe nenhuma cidade desse porte sem uma faculdade de medicina. Ainda na saúde queremos transparência total no setor. Cada unidade hospitalar terá um portal específico no qual o cidadão poderá identificar o que foi gasto, o que tem de recursos humanos e materiais e qual é a performance de atuação daquela área.

Terra - O senhor pretende manter as Organizações Sociais (OSs)?

Leite - As OSs vão funcionar naquilo que for complemento, não no que for próprio dos servidores públicos. A OS foi implantada em São Paulo com outra retaguarda. Lá elas são apoiadas pela Santa Casa, pelo Sírio Libanês. No Rio, organizaram OSs em botequim para poder atender a um chamamento da prefeitura. Muitos são médicos sem maturidade para ganhar R$ 8 mil, R$ 10 mil, enquanto um médico da cidade ganha R$ 2,5 mil. O que a prefeitura criou na saúde do ponto de vista dos recursos humanos foi um tremendo nó que nós temos que desatar. Na educação vamos dar um basta na política de remendos e do eterno tapar buracos. Vamos começar do zero universalizando a educação infantil. Apenas 28% das crianças até três anos tem acesso às creches. No pré-escolar, de quatro a cinco anos, vamos introduzir um rigoroso conteúdo pedagógico para que a criança chegue à alfabetização com mais musculatura acadêmica. Mas é na alfabetização que a prefeitura não pode falhar. Vamos colocar dois professores em cada sala de alfabetização e contratar dois mil novos professores no primeiro ano.

Terra - A prefeitura tem verba para isso?

Leite - Tem. A cidade, como qualquer outra, tem que gastar 25% da sua receita em educação. A prefeitura utiliza uma alquimia contável que faz com que R$ 500 milhões deixem de ser gastos. Nós vamos recuperar esse dinheiro para educação. Radicalizando na educação infantil a criança segue o seu curso regular sendo uma criança solução, não uma criança problema. Nem tão pouco o poder público teve que gastar com aulas de apoio, reforço e por aí vai. A reprodução desse modelo que está aí é a reprodução de mais gastos. No que tange ao transporte nós queremos ter uma postura pró ativa que o prefeito da cidade não tem. A solução está sobre trilhos. Vamos manter os BRTs (sistema de faixas seletivas para ônibus implantado pelo governo Paes), mas oferecer uma parceria a Super Via para aumentar o número de composições que atendem a principal artéria sobre trilhos da cidade que é a rede que vai da Central do Brasil (centro) a Santa Cruz (zona oeste). Semana passada, eu senti isso na pele. Sai de madrugada da Central do Brasil e demorei 2h para chegar a Santa Cruz. O trabalhador não pode gastar 4h para ir e voltar do trabalho. É desumano. É preciso uma engenharia de trafego. A engenharia de trafego hoje só serve da Tijuca (zona norte) à zona sul e ela tem que estar em toda área da cidade. Vale um debate: transporte é uma questão metropolitana.

Terra - Mas esse tipo de ação não precisa ser conjunta entre prefeitura, Estado e União?

Leite - A prefeitura sozinha não resolve. Tem que ter o governador e o governo federal junto. E os prefeitos dos municípios vizinhos juntos. O primeiro ponto será conclamar a todos para sentarmos e reorganizamos as linhas, as competências e as responsabilidades. E como quarto eixo temos a pessoa com deficiência. Nessa área nós vamos revolucionar. Parodiando o meu padrinho Juscelino Kubitschek, a cidade vai crescer 40 anos em quatro. A pessoa com deficiência é a vanguarda de um novo momento. Em Copacabana (zona sul) será construído um mole no qual a balneabilidade será sempre de 100% em qualquer época de ano a fim de permitir que uma rampa entre mar adentro e o deficiente cadeirante possa entrar no mar e dar o seu mergulho. E como quinto eixo, não temos outra saída que não seja através do desenvolvimento econômico. Desenvolvimento econômico e educação são a química que leva para uma sociedade melhor. E isso não pode ser meramente pensado dentro de uma ótica dos mega eventos.

Terra - Tem algum projeto específico quem envolva essas duas áreas?

Leite - Cada região administrativa da cidade terá uma unidade para incubar, acelerar e estimular a criação de novas empresas. Vamos criar o programa Primeira Empresa para jovens de todas as gerações. E a primeira empresa para economia verde. Nos núcleos mais periféricos da cidade, com menor IDH, há muitas vocações que não têm tido vazão. Vamos chegar a um ponto em que não abre uma empresa quem não quer. Radicalizar. Jogar a burocracia no valão.

Terra - Quais seriam as suas primeiras ações no governo?

Leite - No primeiro dia alterar o contrato do Porto Maravilha. O elevado da perimetral não vai ser destruído, mas incorporado ao projeto. Vamos fazer um concurso chamando arquitetos e carnavalescos para um tratamento artístico àquele bem.

Terra - O senhor já foi vice-prefeito no governo César Maia e antes trabalhou com as regiões administrativas da cidade. Como o senhor avalia o governo Paes?

Leite - É um governo intrépido e regular. O prefeito vem de um trabalho de base, numa ação descentralizada, na subprefeitura de Jacarepaguá (zona oeste). Quando virou prefeito ao invés de avançar na descentralização ele fez o caminho inverno e recentralizou. Ele tem essa avidez de estar em todo o lugar ao mesmo tempo. É um governo regular porque não dá solução a questões básicas. A tão badalada aliança governo estadual, federal e municipal não resolveu isso. Há uma retórica autoritária, vende-se um peixe de que só é possível realizar alguma coisa se forem todos do mesmo partido. Cadê a postura republicana?

Terra - Quais os pontos mais fortes e mais fracos da atual administração.

Leite - Os mais fracos eu já citei. A saúde, a omissão do prefeito de tratar de questões macro de transporte. Ele não discute o itinerário do metrô, que está equivocado, nem tão pouco toma iniciativa para ajudar no deslocamento das pessoas que moram na zona oeste em direção ao centro da cidade. Um ponto que está mais organizado é o carnaval, os blocos, etc. Dizem até que o camarote do prefeito na Sapucaí está bem melhor que o anterior.

O trânsito é uma questão central no Rio. Em relação à polêmica derrubada do viaduto da perimetral, o senhor é contra por quê?

Leite - Porque não se pode jogar fora R$ 1,5 bilhão diante de tantas outras prioridades que a cidade possui. Nem acho que a manutenção do elevado vai atrapalhar o soerguimento daquela região. Não sou contra o modelo que foi sugerido, mas sou absolutamente a favor de que os 100 mil veículos que precisam daquele elevado diariamente possam continuar ao menos engarrafados em cima, porque em engarrafados no subterrâneo de um 1,5 km é um convite a aumentar em tons patológicos as taxas de neurose dos cidadãos do Rio de Janeiro. É uma insensatez, um delírio completo do prefeito, além de ser ilegal. Entrei com representações no Tribunal de Contas da União, no Ministério Público Estadual, já abri um inquérito no Ministério Público Federal, uma ação popular.

Por que é ilegal?

Leite - Porque foi construído com dinheiro público da União e não houve a transferência do bem para o município do Rio de Janeiro. O prefeito não pode derrubar o que não é dele sem a autorização do dono. Eu enveloparia, encheria de cores, luzes, para aquilo sair em revista do exterior de tão psicodélico que vai ficar, mas funcionando como um eixo importante para o fluxo das pessoas.

Terra - A cidade passou por mais uma epidemia de dengue. Desta vez, com menos mortes. Por que o Rio é a cidade que mais sofre com a doença, ano após ano? Como diminuir este problema?

Leite - Todos nós sabemos que a solução definitiva depende do comportamento individual de cada cidadão. Ao invés de jogar recursos públicos em publicidade oficial para badalar obras do governo, gastaria em conscientização da população. Chegaram a morrer 180 pessoas no ano retrasado. Cabe ao poder público chamar atenção para isso e despertar a consciência cidadã da população para que participe do combate cotidiano à larva.

Terra - Essa eleição tem alguma característica marcante?

Leite - Uma grande novidade que ninguém falou é que todos os candidatos tiveram que registrar os seus projetos. Foi um projeto de lei que eu propus e que foi aprovado na última reforma eleitoral. No site dos tribunais a população terá acesso a plataforma dos candidatos para identificar o que eles sugerem durante a campanha e, sobretudo, para conferir durante o exercício do mandato se aquilo que eles proclamaram como proposta na prática está sendo feito. Se houver uma ofensa nítida ao que se propôs e ao que se fez a população passa a ter o direito de questionar judicialmente. É a introdução da matéria prima que pode gerar o recall, a perda do mandato por ilegitimidade. Exemplo concreto. O candidato escreve e registra que não vai criar nenhum novo imposto e vai lá e cria. Se essa lei estivesse em vigor o prefeito estaria em maus lençóis, já que, ao contrário do que prometeu, criou uma taxa de luz.

Terra - O senhor ainda é um candidato desconhecido, como lidar com isso?

Leite - São três minutos e meio contra 17 minutos, Davi contra Golias, mas estou muito animado. E acredito na força das boas ideias. O prefeito quer criar o fato consumado de uma vitória em primeiro turno, não quer campanha, mas a eleição vai aquecer a partir de agosto.

Terra - Qual é a sua previsão para o primeiro turno?

Leite - Eu chego pau a pau com o prefeito disputando o segundo turno, daí no mano a mano a gente ganha.

Terra - O seu partido é muito forte em São Paulo. O senhor pretende usar os bons exemplos paulistas? E como se livrar dos exemplos ruins?

Leite - Há muitos bons exemplos no PSDB, uma folha de serviços prestados em várias épocas. Tenho conversado com o governador Geraldo Alckmin (SP), com o senador Aécio Neves (MG), eles vêm na minha campanha. Toda cúpula tucana vai se manifestar no Rio de Janeiro. Acho que temos um grande percentual de eleitores tucanos. Vamos procurar carimbar mais a face social democrata do partido. O PSDB não é um partido qualquer. É um partido que pensa, que discute, que tem alternativa de poder.

Terra - O Rio está preparado para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas?

Leite - Ainda não. Os projetos de qualificação de mão de obra que o Ministério do Turismo implantou foram alvo de mil questionamentos, agora que estão recomeçando. Mas eu vou me empenhar para poder dinamizar essa qualificação de mão de obra.

Legenda da foto: Otavio Leite (PSDB) quer fazer quarenta anos em quatro à frente da prefeitura do Rio

Foto: Mauro Pimentel/Terra