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11/07/2010 | Jornal O Globo

Em terras fluminenses, o PMDB reina

Por Fábio Vasconcellos e Marcelo Remígio

Uma conhecida anedota do mundo político diz que o PMDB é um partido que estará no governo, seja quem for o chefe do Executivo. Demorou algum tempo para que a realidade no Rio desse um novo sentido à frase. Trinta e cinco anos após a fusão com o Estado da Guanabara, o PMDB é hoje o poder em torno do qual orbitam as forças políticas nestas eleições. A hegemonia da legenda não é à toa. O PMDB controla o caixa do Palácio Guanabara e da prefeitura da capital — onde estão 40% dos eleitores —, administra outros 34 municípios — 38% do total —, a Assembleia Legislativa (Alerj) e a Câmara de Vereadores do Rio.

A máquina peemedebista seduziu outros partidos: 38 prefeitos aliados farão campanha para os peemedebistas; outros 19 ligados à oposição, e que integram a aliança que apoia a candidatura de Fernando Gabeira (PV), também admitem apoio formal ou informal à reeleição do governador Sérgio Cabral. O resultado é que há 91 prefeitos dispostos a estar no poder ao lado do PMDB. A dúvida, por enquanto, é apenas o prefeito de Campos, Nelson Nahim (PR), irmão do ex-governador Anthony Garotinho (PR).

Ele já foi procurado por peemedebistas dispostos a convencêlo a mudar de posição.

Nahim, que andou brigado com o irmão, figura na lista de amigos de Cabral.

Principal articulador do governo no inte rior, o vice-governador e candidato à reeleição, Luiz Fernando Pezão (PMDB), justifica a hegemonia no interior como uma forma de “retribuição” dos prefeitos às obras realizadas pelo governo. Nos últimos três anos e meio, o governo repassou cerca de R$ 250 milhões para obras, e abriu o caminho para o apoio dos prefeitos. O líder do governo na Alerj, deputado Paulo Melo (PMDB), vai além: — Repassamos verbas, fizemos obras e ainda pagamos dívidas deixadas pelos dois governos da família Garotinho.

Eleição de Paes ampliou domínio

O presidente regional do PMDB, deputado Jorge Picciani, aponta, além das obras, outros motivos para a força do partido nestas eleições: a vitória na capital em 2008: — Com a eleição do Eduardo Paes, tivemos a oportunidade de não só compor com partidos com o PCdoB e o PDT, como também de ampliar a nossa relação com o PT. Isso ajudou a consolidar o nosso arco de alianças — diz Picciani.

Gabeira, candidato pela coligação PV-PSDB-DEM-PPS, não deverá esbarrar em campanhas contra seu nome por parte dos prefeitos da sua aliança. No entanto, não deixará de sentir o gosto da traição.

O líder do DEM na Assembleia, deputado Rodrigo Dantas, diz que os cinco prefeitos da legenda se renderam à injeção de verbas e obras, intensificada desde novembro. O prefeito de Resende, José Rechuam (DEM), confirma: — A campanha eleitoral não terá três meses. Ela começou há um ano e meio, com os investimentos do governo do estado — observa Rechuam, que apoiará Sérgio Cabral.

Os tucanos também admitem que a fidelidade passará longe do ninho. O próprio presidente da executiva regional do PSDB, José Camilo Zito, prefeito de Caxias, não pedirá votos para Gabeira: — Meu compromisso é com o candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Respeito o Gabeira, mas não farei campanha para ele. Não fecharei as portas de Caxias para os governos federal e estadual. Se tem algo que também não farei nestas eleições é dizer que o governo de Sérgio Cabral não fez nada por minha cidade, porque ele fez.

Integrantes do PSDB confirmam que o apoio de Zito a Cabral será pesado. Embora o prefeito não suba no palanque do governador, eles garantem que Zito porá toda a sua estrutura eleitoral a favor do candidato do PMDB. Membro da executiva nacional do PSDB, o deputado federal Otavio Leite diz que o comportamento dos prefeitos reflete o dos governadores: — O governo federal alicia governadores com verbas, obras e programas e eles fazem o mesmo com os prefeitos.

É o reflexo de uma política pequena, antiga — critica.

Sem medo de críticas ou reações de seu partido, o PR, o prefeito Sandro Matos, de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, engrossa o coro dos aliados do PMDB e não se compromete a pedir votos para o candidato a governador Fernando Peregrino.

Sandro diz que, desde a entrada de Garotinho no partido, afastou-se das ações partidárias e deixou claro seu voto de confiança em Cabral: — Não estou traindo o partido e muito menos Garotinho.

Assim que ele apresentou sua candidatura, antes de se tornar inelegível, conversei com ele e disse que não poderia abrir mão da ajuda que o estado deu a Meriti.

Hegemonia inédita na História recente

Especialistas traçam paralelo com o chaguismo; até PT foi neutralizado

A hegemonia política do PMDB no Rio não tem precedentes na História recente do estado. Mas as estratégias que levaram o governador Sérgio Cabral a expandir o poder do seu partido lembram, segundo especialistas, a forma de atuação do ex-governador Chagas Freitas. Com uma máquina administrativa azeitada e controle sobre o Legislativo estadual, Chagas manteve o apoio da maioria dos prefeitos e deputados quando governou o antigo Estado da Guanabara (1971-1975) e depois o Estado do Rio, entre 1979 e 1983.

Historiadora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marly Motta ressalta que Chagas governou num período de exceção, onde havia outros instrumentos de pressão, mas não abriu mão de trabalhar para conquistar politicamente os municípios a partir da máquina estadual, e isso passava necessariamente pelo controle da Alerj. Segundo ela, todos os governadores, já no período democrático, conviveram com essa estrutura de poder, mas nunca conseguiram controlalá como a atual gestão.

— Um governador que presidiu por tanto tempo a Assembleia Legislativa, como o Sérgio Cabral, tem mais facilidade de lidar com esse estilo de fazer política. Ao contrário de outros governadores que apenas conviveram com essas estruturas, Cabral soube se relacionar com os deputados e os prefeitos — diz Marly.

O cientista político da UFRJ Paulo Baía faz uma análise semelhante.

Para ele, Cabral conseguiu reproduzir as bases institucionais e políticas que ajudaram Chagas Freitas a conquistar maiorias.

— Esse estilo de atuação pressupõe um questão institucional e outra política. Primeiro, ao manter a máquina operando e dando respostas rápidas às demandas de vários atores e, por outro lado, buscando manter relações políticas com setores da esquerda, da direita, grupos empresariais e movimentos sociais — ressalta Baía.

Para o cientista político, a recente aproximação do PMDB com o PT permitiu ampliar a hegemonia dos peemedebistas nestas eleições. Isso porque, segundo Baía, conseguiu neutralizar a legenda.

— Essa intensificação da relação com o PT permitiu não apenas neutralizar forças estaduais do partido que pudessem se contrapor ao governador como também ajudou a melhorar o diálogo com Brasília — observa Baía.