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17/01/2005 | Jornal CINFORM

Entrevista - Otavio Leite

Sergipano, Otavio Leite, PSDB, é o atual vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, onde mora desde os três anos e onde já foi vereador por três mandatos, além de deputado estadual.

Quem conversa hoje com o atual vice-prefeito do Rio de Janeiro, Otávio Santos Silva Leite, dificilmente conseguirá detectar nele um filho de Sergipe. Mas ele o é, e ‘com muito orgulho’, como se apressa em dizer. O sotaque característico da terra ele já perdeu, na verdade, trocou-o pelo indefectível sotaque das gentes cariocas. Não por menos. Vive lá desde os três anos de idade, quando contraiu esquistossomose e a família foi aconselhada pelos médicos a fazer o tratamento do garoto na cidade do Rio de Janeiro. O pai, o engenheiro agrônomo e ex-deputado estadual Fernando Prado Leite, não pensou duas vezes e mandou-o para capital do Rio, onde o avô, o industrial e senador da República, Júlio Leite, residia.

Curada a esquistossomose, Otávio, com a concessão dos pais, permaneceu no Rio. ‘Eles queriam que eu tivesse uma formação intelectual e cultural melhor morando fora. Isso era comum entre as famílias tradicionais sergipanas’, lembra Otávio. No Rio, foi criado pelo avô e pelas quatro tias – Loila, Aida, Marieta e Cili –, num amplo apartamento na Hilário de Gouveia, em Copacabana. Mas nunca voltou às costas para sua terra natal, Sergipe. Sempre que podia, vinha passar as férias em Aracaju, onde nasceu.

Mas foi mesmo no Rio que Otavio Leite construiu sua vida, intelectual, profissional e política. Em 89, foi coordenador das Regiões Administrativas, onde implementou a descentralização de diversas atividades da prefeitura do Rio, e cujo resultado alcançado o levou a secretário municipal do Governo Marcelo Alencar. Em seguida, em 92, elegeu-se vereador. Daí não parou mais. Carismático, trabalhador e competente no trato com os cidadãos cariocas, nas duas eleições municipais seguintes obteve sucesso nas urnas. Em 2002, outra vitória considerável: foi eleito para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, com 66.178 votos.

Aos 42 anos, Otávio Santos Silva Leite é advogado e professor universitário, pós-graduado em Políticas Governamentais pela UFRJ. É casado com Ângela Mendes Leite e pai de dois filhos, Fernando e Otavio Leite Filho. É autor de mais de 70 leis em vigor na capital carioca e já aprovou 20 no Estado. Como vice eleito de César Maia, pode chegar a prefeito, caso Maia se desincompatibilize para disputar a presidência da República, que é seu atual projeto político. Antes de tomar posse como vice-prefeito do Rio de Janeiro, em 1° de janeiro passado, Otavio Leite esteve em Aracaju para rever familiares e amigos e recebeu o CINFORM, no hotel Parque dos Coqueiros, onde esteve hospedado, e concedeu a seguinte entrevista:

CINFORM – Qual é o papel que o senhor espera que lhe seja reservado como vice-prefeito do Rio de Janeiro?

OTÁVIO LEITE – Serei um vice ativo, participativo, propositivo, solidário e amigo em todos os momentos. Não serei aquele clássico vice que foi objeto de uma máxima de Jânio Quadros, quando, eleito prefeito de São Paulo, em 1985, disse sobre o papel do seu vice-prefeito: ‘ao vice, uma mesa e uma cadeira, quiçá, uma linha telefônica’. Então, desde o início do processo político que nos permitiu esse entendimento com o PFL no Rio, construindo uma aliança política, eu já havia dado o tom de como será a minha atuação: alguém permanentemente atuante e, ao mesmo tempo, consciente dos limites de um vice-prefeito. Não sou o prefeito da cidade, mas o vice.

CINFORM - Como é que foi o processo de escolha do seu nome para vice?

OL – Até fevereiro, o partido viveu uma dicotomia entre os nomes da juíza Denise Frossard e de Otavio Leite para disputar a prefeitura. Em fins de fevereiro, para manter a unidade do partido, resolvi abrir mão do meu nome e topei que fosse indicado o nome dela. Eu seria o seu vice. Tempos depois, saiu uma matéria especulando sobre uma suposta articulação do partido com o César Maia, o que não existia. Em face dessa controvérsia, a Denise, de súbito, resolveu abrir mão da sua candidatura. Aí o partido só teve dois caminhos: ou prosseguir numa candidatura própria ou um entendimento com o César Maia. Optamos pelo último e esse entendimento passou a ser construído. Eu mesmo participei intimamente nessa construção. Então, ficou acertado que entraríamos como o vice de Maia e ganharíamos três secretarias – duas ordinárias e uma extraordinária. Fui indicado à vice, entre três nomes, porque trabalhei as bases e tornei meu nome palatável aos segmentos políticos aos quais nos unimos. Na convenção, ganhei com 70%.

CINFORM – O senhor acha que o seu partido teve papel importante para que o César Maia se elegesse tão bem no primeiro turno?

OL – O meu partido, sem dúvida, foi imprescindível. O Maia sempre trabalhava com os seguintes dados: 28% dos votos ele possuía, 13% era a performance do governo dele, que foi muito bom. Então ele tinha 41%. Como é que ele chegou aos 50,11%? De onde vieram os outros 10%? Claro que teve o voto útil, tipo 3%, o qual ele também trabalhou nos seus cálculos. Mas, no final, tivemos a participação efetiva do PSDB em 7%.

CINFORM – O senhor não acha paradoxal a candidatura do César Maia a presidente da República diante da criação de uma aliança entre PSDB e PFL?

OL – Não. Acho que o César Maia sempre foi incompreendido e acredito que injustamente. Ele não tem culpa do êxito da sua trajetória política. Os homens estão na vida pública para ascenderem ou para caírem. É um processo da dialética complexa da atividade política. Então, o que ocorre é que ele obteve uma vitória formidável no Rio de Janeiro e, em nível de PFL, não apareceu ninguém com essa performance. Por outro lado, o Bornhausen e ACM estão numa trajetória decadente. Mas o PFL não brinca em serviço. Como diz Arthur da Távola, ‘eles estão no poder há 500 anos’, chegaram juntos com os portugueses. São jogadores, e César Maia é um que joga ‘à vera’, leva a coisa a sério. O PSDB que não dê bobeira.

CINFORM – O senhor se sente preparado para assumir o cargo de prefeito, caso César sai para concorrer à presidência?

OL – Para mim, já é uma grande honra figurar como vice-prefeito do César Maia nos próximos quatro anos. Mas se for preciso, estarei preparado para assumir o papel de prefeito do Rio quando for necessário. Foi para isso que compus chapa com ele.

CINFORM – Qual é a visão interna dos políticos do Rio sobre a violência urbana da capital?

OL – Sem dúvida que, pelos aspectos geográficos da cidade e das disputas entre quadrilhas e, por conseguinte, a divulgação, muitas vezes teatralizada e exagerada disso, o drama da violência adquiri uma gravidade além da conta. Eu acho que as políticas estaduais de combate à criminalidade e à violência têm fracassado. O governo do Estado não deve se sentir diminuído por pedir qualquer apoio ao Governo Federal. Penso que o Exército poderia patrulhar as principais vias do Rio de Janeiro, como as linhas Amarela e Vermelha, o que já seria um grande apoio, e o governo estadual poderia se preocupar mais em patrulhar os pontos turísticos. O fato é que, ao contrário do que poderia se imaginar, o número de turistas tem aumentado no Rio.

CINFORM – É fato que, quem vê o Rio de dentro costuma ver muito menos a violência do que quem vê de fora?

OL – Não diria isso. As pessoas no Rio estão agoniadas, aflitas, porque a reverberação da violência pelo noticiário atinge diretamente os moradores locais, sem dúvida nenhuma. A imprensa não pode esconder os fatos, isso é claro. Mas diria, por exemplo, que se a Rede Globo exerce um papel, às vezes, de exacerbação da violência nos seus noticiários, por outro lado, as suas novelas, de forma impressionante, glamorizam o Rio. E as pessoas vêem muito bem isso porque a beleza da cidade é mesmo factível, visível.

CINFORM - O senhor acha que a história política do senador Júlio Leite, seu avô, lhe serviu de inspiração para a vida pública?

OL – Eu fui criado na casa do meu avô. Então, eu respirava política. Não acho que só a questão consangüínea tem a ver com a inclinação para a política, mas, como diria Durkheim, ‘o homem é fruto do seu ambiente’. E o meu ambiente foi impregnado de política. Mas o meu avô não me influenciou em nada. Ele foi do Partido Republicano, da Arena. Era um liberal. Eu, ainda estudante, participei muito das passeatas em favor da anistia. Fui, como 70% da população do Rio, brizolista. Então, meu avô nunca me influenciou.

CINFORM – Então, qual o intuito de o senhor ter sido criado com seu avô no Rio de Janeiro?

LO – Foi uma decisão do meu pai com minha mãe de permitir que eu fosse morar no Rio para ter um bom desenvolvimento educacional. Aliás, isso era muito comum na época, as famílias sergipanas mandarem seus filhos estudarem fora. Meu pai estudou fora, minha mãe também. Não era novidade.

CINFORM - O senhor acha que o ciclo populismo-religioso do casal Garotinho e Rosinha está se exaurindo?

OL – Tomara. Porque a política do ‘dar um peixe a um real’ é uma política que aliena e deixa as mentes aprisionadas. Viva à vara de pescar e abaixo a política do peixe a um real! As pessoas têm que ter autonomia. O poder público tem que atuar de alguma forma na vida das pessoas para tentar fortalecer nelas a capacidade de desenvolvimento individual, não a dependência, que gera alienação, o que é muito grave.

CINFORM – Nas suas andanças de férias por Aracaju, o senhor constatou alguma transformação na cidade?

OL – Aracaju está bem cuidada. Eu não observei nem um problema maior, nada de especial. Aracaju é uma cidade muito atrativa, tem uma boa área de expansão. Acho que a ponte também vai permitir um novo desenvolvimento para a cidade e para aquela parte ao norte da região. A cidade está num bom caminho. Isso tem que ser enaltecido. Aliás, tenho muito orgulho de ser sergipano e propago muito isso. Para mim é sempre uma fonte de inspiração. Tanto que fiz questão de vir passar uns dias aqui antes da minha posse, porque é um trabalho até de reconforto pra alma.