Seu browser não suporta JavaScript!

10/10/2014 | Jornal O Globo/ Globo a Mais

Ferrolho político: mesmo com Bancada da Bola enfraquecida, projetos do futebol enfrentarão barreiras

POR MATEUS CAMPOS E NELSON LIMA NETO*

Quinta reportagem da série ‘Gol da Alemanha’ sai de campo e entra na política para analisar o que muda com a eleição

RIO - Personagens que eram decisivos dentro de campo, os ex-jogadores de futebol que adentram o carpete e os corredores do Congresso Nacional costumam ficar longe dos principais lances políticos. Desde domingo, este será o desafio de um time pouco renovado, mas que viveu algumas trocas impostas pelas urnas. Eleito para o Senado com votação expressiva, Romário (PSB-RJ) terá a companhia dos veteranos Danrlei (PSD-RS) e Deley (PTB), reeleitos para a Câmara. O ex-árbitro Evandro Rogério Roman (PSD-PR) também é outro profissional do futebol que frequentará o plenário nos próximos quatro anos.

No caso dos ex-jogadores, a desenvoltura apresentada nos gramados demora a se repetir nos corredores e sessões da Câmara dos Deputados. São raros os casos de ex-atletas que tiveram sucesso rapidamente na política. Assim como aconteceu com Romário no começo do mandato, é comum os neófitos terem dificuldade em apresentar propostas e entender os trâmites do legislativo. Deley, por exemplo, só conseguiu aprovar uma proposição em três mandatos: a que institui o Dia Nacional do Jogo Limpo (fair play) contra o Doping nos Esportes. Para o ex-goleiro Danrlei, os primeiros quatro anos em Brasília foram de aprendizado.

— Por mais que eu achasse que entendia, foi preciso apagar tudo e começar do zero. — conta ele, que compara o cargo a um clássico entre Grêmio e Internacional. — As duas coisas são tarefas ingratas. E tudo depende de nossa preparação. São disputas diferentes: dentro de campo, temos 90 minutos para fazer o melhor. Aqui, temos que ter paciência, ter estratégia. Não é uma corrida de 100 metros, e sim uma maratona.

Com pouca representatividade, projetos para modificar questões importantes do nosso futebol param nas barreiras criadas pela política. Danrlei, por exemplo, propôs uma alteração na Lei Pelé proibindo a transferência ou cessão de jogadores menores de 18 anos para o exterior sem que eles tenham concluído o ensino médio. Também propôs incentivos fiscais para clubes que mantenham equipes de futebol feminino. As propostas foram anexadas a outras semelhantes e ainda esperam a escalação de um relator para entrar em pauta.

— Tem gente do meio jogando contra. A mobilização na Cultura é muito grande. Agora, no Esporte, existe uma grande divisão. Não sabemos qual é a nossa real força. O que mais me irrita é a mediocridade de mobilização — afirma Deley, ex-meia do Fluminense.

Ex-secretário de Esporte e Lazer de Volta Redonda, ele entra no seu quarto mandato. Apesar de criticar a desunião, o político é conhecido por votar de acordo com os interesses dos clubes e da entidade máxima do futebol brasileiro.

Nos assuntos relacionados ao esporte quem costumava prevalecer até hoje é uma defesa sólida formada por dirigentes e políticos ligados a cartolas e federações: a Bancada da Bola. Mas o bloco começará 2015 mais enfraquecido do que nunca. Uma tremenda chance para a virada.

— A CBF tem um lobby que outras entidades também têm. Mas era mais forte do que é hoje. A própria queda do Ricardo Teixeira a desmobilizou um pouco. Não é possível continuar o futebol brasileiro da forma que a CBF queria no passado — pondera Sílvio Torres (PSDB-SP), relator da CPI do Futebol em 2001, que retorna ao Congresso a partir de 2015, após mandatos marcados por embates políticos contra a corrupção no futebol.

Em Brasília, jogadores são 'reservas'

Caso estejam dispostos a mudar algo, os ex-boleiros vão ter vencer um time que perdeu influência, mas ainda assim é forte. Jogam nele deputados como Sarney Filho (PV/MA) e Vicente Candido (PT-SP), conhecidos pelas relações com a CBF e com os clubes. O petista é vice da Federação Paulista de Futebol e sócio do escritório de advocacia de Marco Polo Del Nero, presidente eleito da CBF, do qual recebeu doação de R$ 100 mil para sua campanha.

O principal embate no Fla-Flu do Congresso é a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE), que substitui o antigo Programa de Fortalecimento dos Esportes Olímpicos (Proforte). A LRFE recebeu um novo texto, redigido por Otavio Leite (PSDB-RJ), com sugestões de Romário e do Bom Senso FC, grupo de jogadores que luta por melhorias no futebol. A nova proposta prevê a renegociação das dívidas dos clubes e substitui a proposta de Vicente Cândido, que pleiteava anistia de 90% das dívidas. A proposta de Leite quer que as entidades esportivas sejam obrigadas a pagar todo o montante devido em até 25 anos.

— Vamos conseguir, ao mesmo tempo, tornar os clubes adimplentes sem dar anistia a eles. Daremos, sim, tempo maior para que eles se programem. O esporte ficará mais sério. Se conseguirmos, depois de três anos de trabalho, estaremos fazendo um bem a nosso esporte — projeta Danrlei.

O projeto sofreu resistência da Bancada da Bola, que conseguiu retirar itens que previam a cobrança de um novo imposto sobre a CBF. Após sucessivos adiamentos, não há previsão para a votação.

— Fui além da questão das dívidas. Propus uma tributação sobre a CBF e foi uma correria. O presidente da Câmara (Henrique Eduardo Alves, do PMDB-RN) disse que não iria pautar o projeto se tivesse essas questões. Então, tive que fazer uns ajustes. Senão, nem passaria pela comissão. A CBF tem muitas articulações aqui dentro. Não vou ficar carimbando ninguém, mas esperava um maior apoio — explica Otavio Leite.

Mas a Bancada da Bola não gosta de jogar para a torcida em Brasília. São poucos os que ainda admitem defender os interesses da CBF ou de determinados clubes. Anos atrás, durante a CPI do Futebol, deputados como o ex-presidente do Vasco Eurico Miranda não negavam o posto de defensor dos "cartolas".

— Nunca fui eleito pelo segmento do futebol. Minha passagem pela presidência do Vitória não influenciou em nada minha candidatura ao Congresso. Por eu gostar de futebol e estar envolvido em questões relacionadas a ele, fazem essa relação. Essa história da Bancada da Bola não existe — esquiva-se o deputado José Rocha (PR-BA), ex-presidente do Vitória e atual conselheiro do clube, conhecido também pela amizade que sustentava com o ex-presidente da CBF Ricado Teixeira (hoje, os dois estaram brigados).

Além dos atuais cartolas e dos ex-jogadores reeleitos, os corredores do Congresso ganharão, em 2015, mais alguns personagens. Ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, no momento inimigo dos atuais mandatários da CBF, elegeu-se deputado federal pelo PT paulista com 169.834 votos. Ainda não é possível dizer que lado ele tomará nessa disputa (o cartola não respondeu os pedidos de entrevista). De seu lado, o Bom Senso FC garante que vai suar a camisa nos bastidores da política nacional.

— O Romário esteve junto do Bom Senso. Defendeu nossas ideias na Câmara e ouviu nossas opiniões. Tem posições superpositivas em relação ao Bom Senso. Espero que os ex-atletas eleitos tenham um carinho especial conosco. Que eles não deixem de olhar para as necessidades do nosso esporte. O Brasil precisa de pessoas realmente interessadas no assunto — diz o ex-volante Gilberto Silva, pentacampeão do mundo e um dos representantes do grupo.

*A série de reportagens “Gol da Alemanha” vem sendo publicada semanalmente pelo “Globo a Mais”