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01/04/2006 | Jornal O Globo

Fogo amigo

O presidente da Câmara de Vereadores do Rio, Ivan Moreira (PFL), que passou o dia de ontem como prefeito em exercício enquanto Cesar Maia e o vice, Otavio Leite, viajavam, saiu espantado de uma vistoria realizada no Hospital Souza Aguiar, no Centro. Do mesmo partido de Cesar Maia, ele disse não imaginar que a situação era tão ruim. O objetivo da visita era verificar como estava a segurança da unidade, onde 46 porteiros que exerciam a função de vigilantes foram afastados por ordem da Polícia Federal na quarta-feira passada. No entanto, Moreira acabou sendo levado pelo vereador Carlos Eduardo (PPS), presidente da Comissão de Saúde da Câmara, para conhecer a superlotada emergência da unidade. No fim da tarde, Cesar Maia resolveu antecipar sua volta ao Rio de segunda-feira para hoje, às 13h. Ele estava em Quito, no Equador, num congresso de prefeitos.

Ivan, o prefeito em exercício, viu-se no meio de um cenário caótico ao entrar no quarto masculino da emergência, que estava superlotado. Pacientes usando apenas fraldões permaneciam deitados em macas sem colchão e lençol, muitos gemendo e gritando de dor. O cheiro de urina e fezes era forte. Nenhuma das macas que funcionavam como leitos tinha grade de proteção para evitar a queda dos pacientes. A vistoria foi acompanhada pela imprensa.

Nos últimos quatro anos, a entrada de fotógrafos não vinha sendo permitida em unidades municipais. Todos os pedidos eram negados pela Secretaria municipal de Saúde sob o pretexto de se preservar a intimidade dos pacientes. Uma das formas encontradas por parlamentares da Assembléia Legislativa (Alerj) e da Câmara de Vereadores para denunciar os problemas foi fazer pessoalmente fotos e gravações nos hospitais, fornecendo-as posteriormente para a imprensa e o Ministério Público.

O Acre como exemplo para uma comparação

Ivan Moreira disse ter ficado surpreso:

— Não imaginava que fosse tão ruim (o hospital). Não estamos falando de um município do Acre, com todo o respeito que tenho por aquele estado, mas do Rio de Janeiro. A situação é muito precária — admitiu.

O prefeito interino disse já ter sido internado em duas emergências, dos hospitais Lourenço Jorge, na Barra, e Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, e que em nenhuma delas viu situações como a do Souza Aguiar.

O Acre, objeto da comparação feita por Moreira, é o 21º entre os 26 estados e o Distrito Federal no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com índice de 0,697, segundo o Atlas do Desenvolvimento, de 2000. O Estado do Rio (0,807) é o quinto da lista, encabeçada pelo Distrito Federal (0,844). Nenhum município do Acre tem IDH superior ao do Rio de Janeiro (0,842).

O vereador Carlos Eduardo, responsável pelo convite para que o prefeito interino conhecesse a emergência junto com a imprensa, elogiou a postura de Moreira, mas disse que o prefeito Cesar Maia e o secretário de Saúde, Jacob Kligerman, é que deveriam vistoriar o hospital.

— Essa é a primeira vez que um prefeito visita um hospital de emergência. Mostrei a ele as condições desumanas a que essas pessoas estão submetidas, recebendo tratamento indigno — destacou.

O deputado estadual Paulo Pinheiro (PT), presidente da Comissão de Saúde Alerj, ao saber da vistoria, disse que Moreira teve a oportunidade de ver com os próprios olhos o resultado de uma política equivocada de saúde.

— Quando nós, parlamentares, vamos na porta dos hospitais denunciar as condições precárias, somos acusados pelas autoridades de fazer tumulto, de sermos politiqueiros. Hoje (ontem) ele pôde ver que o que dizemos é verdade. Espero agora que ele consiga sensibilizar o prefeito verdadeiro.

O presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremerj), Paulo Cesar Geraldes, também considerou válida a vistoria:

— É lamentável que ele, como presidente da Câmara de Vereadores, que tem uma Comissão de Saúde atuante, não soubesse da situação do Souza Aguiar. Mas é muito bom que tenha constatado. Agora, é torcer para que ele tome atitudes para reverter esse quadro.

Perguntado sobre o que faria quando reassumisse a presidência da Câmara, Ivan Moreira limitou-se a dizer que continuará dando apoio à Comissão de Saúde da Casa, que, segundo ele, vem fazendo um bom trabalho de fiscalização.

Já o secretário municipal de Saúde não quis comentar as declarações de Ivan Moreira.

No Hospital Miguel Couto, sete cirurgias eletivas e uma de emergência foram canceladas ontem, por falta de roupas cirúrgicas. No início da tarde, os médicos tiveram que optar entre operar um paciente com apendicite ou uma mulher baleada na perna.

— Não é a primeira vez que isso acontece. Nossa vida aqui dentro é fazer escolhas de Sofia. E, se o paciente que não foi operado tiver uma complicação, os médicos é que são processados — afirmou um profissional da unidade.

Segundo o vereador Carlos Eduardo, os oito pacientes ficaram até 18h em jejum à espera das cirurgias. Foi o caso da mulher baleada, que chegara de madrugada e, até o fim da tarde, ainda não havia comido nada. A Secretaria municipal de Saúde não quis falar sobre o assunto.

Em Buenos Aires, o vice-prefeito Otavio Leite (PSDB) fez longos passeios a pé e almoçou com a mulher num restaurante. Até o último minuto ele acalentou a esperança de se tornar prefeito, caso Cesar renunciasse para se candidatar ao governo do Estado. Ontem, telefonou para o colega paulista Gilberto Kassab (PFL). O objetivo era parabenizar Kassab, o novo prefeito de São Paulo, com a decisão de José Serra de deixar o cargo para se candidatar ao governo paulista. Em tom de brincadeira, disse:

— Quem sabe na próxima eleição eu mudo o endereço do título de eleitor e me candidato como vice em São Paulo.

Ele disse que cumpriu à risca o que Cesar poderia esperar de um vice: foi leal, correto e alguém com quem ele sempre pôde contar. Mas alertou que agora terá outra prioridade: coordenar no Rio a campanha de Geraldo Alckmin à Presidência. Já na Câmara de Vereadores, a presidente em exercício, Leila do Flamengo, não conseguiu realizar a sessão extraordinária que pretendia. Conformada, ela tem outro sonho:

— Quem sabe da próxima vez o Ivan também não viaja? Aí quem será prefeita sou eu.