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03/12/2001 | O Globo Online

Glória e polêmica de uma medalha

O que têm em comum Carlos Lacerda, Lech Walesa, Kanji Fukomoto e a ala das baianas da Escola de Samba Vila Isabel? Nada, a não ser o fato de que todos receberam a Medalha Pedro Ernesto, a mais alta condecoração do município do Rio de Janeiro.

Premiando famosos e desconhecidos, brasileiros e estrangeiros, a comenda, que completa 20 anos este ano, tem uma história de marcada por polêmicas e recusas.

A medalha foi criada em 1981 para ser dada, segundo o regimento da Câmara de Vereadores, ´a todos que se destacarem na comunidade brasileira´. Como as condições do texto são amplas e cada vereador pode indicar cinco nomes por ano, uma conta simples mostra que, todos os anos, até 210 medalhas podem ser concedidas pelos 42 vereadores da Câmara do Rio. Somando-se os últimos 20 anos, são mais de 4 mil medalhas.

Se ninguém contesta a importância de Albino Pinheiro, Zico, Leonel Brizola, Gustavo Küerten ou Aldir Blanc, todos comendadores, a avalanche de concessões da Pedro Ernesto a outras personalidades menos expressivas terminou transformando a medalha numa maldição.

- Houve uma época que muita gente recusou a comenda, porque a medalha era dada a qualquer um - lembra o vereador Edson Santos (PT). - O compositor Paulo César Pinheiro foi um dos que não aceitou a princípio.

Paulo César Pinheiro confirma a história.

- Quando soube que ia receber a medalha, meu primeiro impulso foi recusar. Pelos nomes que via no jornal, as pessoas que recebiam a comenda não eram dignas da homenagem. Muita gente estava sendo agraciada por politicagem, e a medalha estava perdendo sua importância - indigna-se ele.

Conversando depois com Edson Santos, o compositor acabou cedendo e aceitando a homenagem.

- Mas protestei, no dia do recebimento da medalha, contra a maneira como ela vinha sendo usada - frisa o compositor.

Segundo Santos, como a concessão da medalha é uma iniciativa individual, a não ser em casos considerados absurdos as propostas apresentadas por cada vereador são referendadas pelo plenário da Câmara.

Na maior parte das vezes, a votação em plenário é por aclamação, ou seja, os vereadores presentes não precisam fazer mais do que permanecerem como estão para aprovar a concessão da homenagem. Ele afirma, porém, que está acontecendo um movimento entre os vereadores para valorizar a medalha.

- Eu, por exemplo, procuro homenagear personalidades da música carioca. Para 2002, já está certa a concessão da Medalha Pedro Ernesto ao compositor e cantor Luiz Melodia e à Vó Maria, última companheira do compositor Donga - diz o vereador do PT.

O vereador Otavio Leite (PSDB) concorda com Santos.

- É uma medalha digna e tem que ser valorizada. A concessão da Pedro Ernesto deveria ser um ato de responsabilidade do vereador - afirma Leite.

Este ano, o número de medalhas deve chegar a cem, embora nem a própria Câmara tenha um levantamento das personalidades homenageadas. Se não tem pudores em conceder a comenda, a Casa tampouco tem problemas para retirá-la. Desde que o homenageado esteja longe.

Analisando os arquivos da biblioteca da Câmara de Vereadores, é possível encontrar registros de medalhas cassadas. Um dos casos mais interessantes é o de Mikhail Gorbachov, último presidente da extinta União Soviética. Concedida em 1988, antes da queda do Muro de Berlim, a comenda foi cancelada em 1992, quando a URSS acabou.

Para o vereador Rodrigo Bethlem (PV), seria interessante criar algum critério para evitar equívocos.

- A Medalha Pedro Ernesto é importante, é uma forma do Legislativo homenagear pessoas que tenha feito algo pelo Rio. Mas há alguns casos que são aberrações - afirma ele.

Na listagem dos homenageados também há algumas ironias do destino, como é o caso da presidente do Sindicato dos Taxistas do Rio, Adriana Iório. Condecorada em 1996, atualmente a sindicalista é investigada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da própria Câmara dos Vereadores por supostos desvios de verbas do sindicato. A comenda, porém, ainda não foi cassada.