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24/03/2017 | Globoesporte.com

Golpe da direção da CBF mantém os clubes sem poder

Por Emerson Gonçalves

– Isso foi o que se pode chamar de um golpe de estado!

A expressão, que é forte e significativa e faz pleno sentido nessa situação, foi empregada pelo Deputado Federal Otavio Leite (PSDB-RJ) em relação à mudança no estatuto da CBF, durante conversa que tivemos na manhã de hoje.

A mudança proposta pela direção da CBF foi aprovada em assembleia administrativa com a participação somente das 27 federações estaduais, e deu a cada uma delas o peso 3 para seu voto, ou seja, cada federação passou a ter 3 votos. A mesma medida, numa maquiagem inócua, deu peso 2 aos votos dos clubes da Série A e, finalmente, aprovou a entrada dos clubes da Série B no colégio eleitoral da entidade com peso 1.

Resumo:

- 27 Federações = 81 votos

- 20 Clubes A = 40 votos

- 20 Clubes B = 20 votos

No mesmo pacote de medidas, foi mantida a necessidade de um candidato à presidência da entidade ter o apoio formal de 8 federações e 5 clubes, o que, em termos práticos, inviabiliza qualquer lançamento de um candidato de oposição.

Resumo do resumo: manutenção de tudo como está, com os clubes alijados do poder e sem possibilidade de alcança-lo de acordo com o estatuto da entidade, apesar de legalmente terem o direito de participar de tudo e votar em todas as situações.

Desprezo pela lei

A Lei 13.155, batizada como Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, entrou em vigor no dia 4 de agosto de 2015, já lá se vão, portanto, 598 dias corridos.

Durante esse período os clubes nada fizeram para coloca-la em vigor no tocante às suas participações na confederação maior dos assuntos do futebol. A bem da verdade houve sim uma ou outra tentativa tímida, como um pedido para a confederação deixar os clubes entrarem.

Como assim um pedido? Como pedir permissão para entrar no que é seu por direito?

Essa postura formalmente subserviente é uma comprovação, para todos os efeitos, da dominância da confederação, independentemente do texto legal.

Otavio Leite, que foi o relator da lei e seu virtual criador, disse estar perplexo com esse fato, que tenta jogar no lixo dois anos de trabalho duro na elaboração da lei. Ele lembra que ela criou mecanismos justos para os clubes, Estado e sociedade para a solução dos graves problemas financeiros que acabariam por inviabilizar os próprios clubes, e colocou como contrapartida a necessidade de gestões mais democráticas e transparentes nos clubes. Também a CBF seria beneficiada pelas mudanças e pela oxigenação que receberia.

Oxigenação, e com esse termo o deputado foi muito elegante, mais que necessária para a CBF entrar no Século XXI e seguir o que já é praxe na maioria de suas congêneres em todo o mundo, seja ou não pelo efeito dos eventos do histórico 27 de Março, quando dirigentes da FIFA foram presos na Suíça.

Para o deputado Otavio Leite, essa medida da confederação, tomada com o apoio das federações, é uma ofensa grave, um caso típico em que o mens legis, expressão latina usada pelo deputado e que significa ‘espírito da lei’, foi ignorado, foi ferido...

Perguntei ao deputado como mudar tudo isso e sua resposta foi simples e direta:

“Os clubes têm que se insurgir contra essa medida, que é um retrocesso, foi uma manobra de botequim, e exercerem seu direito garantido por lei de participar das assembleias e votações da entidade.”

Aqui voltamos à mesma questão: será que os clubes querem isso? Será que seus presidentes querem, realmente, mudar o status quo? Porque, apesar de muito reclamarem, até hoje nada de prático fizeram diminuir ou substituir o poder da CBF. A última e também única tentativa nesse sentido ocorreu no distante 1987, quando o finado Clube dos 13 foi fundado. Sua vida cheia de aspirações maiores, entretanto, foi muito breve, e em questão de meses o clube limitou-se a ser um órgão para discutir direitos de transmissão e nada mais.

598 dias e nada mudou

Durante esse período em que a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte está em vigor, como disse os clubes nada fizeram para faze-la valer no tocante às suas participações na confederação maior dos assuntos do futebol. A bem da verdade até houve uma tímida tentativa de alguns clubes, através de uma cartinha com um pedido para a confederação deixar os clubes entrarem.

Como assim um pedido?

Como pedir permissão para entrar no que é seu por direito?

Essa postura formalmente subserviente é uma comprovação, para todos os efeitos, da dominância da confederação, independentemente do texto legal.

Nesse ano e meio de subserviência dos clubes, muita coisa mudou no mundo, no Brasil e no futebol. Até na CBF ocorreram mudanças, como a eleição de um novo vice-presidente cuja característica única era a idade avançada o bastante para, num passe de mágica, receber a presidência da entidade durante um afastamento de seu afastado presidente (redundante, né?).

Afastado do mundo exterior, claro, ausente nas reuniões e eleições da FIFA, ausente nas reuniões e eleições da CONMEBOL, ausente nas disputas da Copa América, tanto no Chile como, principalmente, no temível Estados Unidos da América, onde seu antecessor está em prisão domiciliar em Manhattan. Confortável, claro, mas prisão. E onde o antecessor de Marin, o que está preso, também está denunciado, como podemos recordar por esse trecho de matéria do portal Globoesporte, de 3 de dezembro de 2015:

“Em pronunciamento realizado nesta quinta-feira, a procuradora-geral da Justiça dos Estados Unidos, Loretta Lynch, anunciou que Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira estão entre os nomes denunciados por corrupção na Fifa. ... Ricardo Teixeira foi acusado de receber suborno por contratos ligados a competições da Conmebol e da CBF. E também pelo contrato de patrocínio estabelecido pela entidade em 1996 com uma empresa americano de material esportivo (a Nike). No caso desse contrato, a acusação é que Teixeira recebeu cerca de 20 milhões de dólares de propina (metade da comissão que a Traffic, empresa de marketing, teria direito). Em valores atuais... São quase R$ 80 milhões. Marco Polo Del Nero, por sua vez, foi acusado de receber propinas por contratos ligados a Copa do Brasil e a competições da Conmebol. Os dois foram indiciados por conspiração para extorquir, fraude e lavagem de dinheiro.”

Fechando o post, reproduzo novamente parte do que disse-me o Deputado Otavio Leite nessa manhã:

“Os clubes têm que se insurgir contra essa medida, que é um retrocesso, foi uma manobra de botequim, e exercerem seu direito garantido por lei de participar das assembleias e votações da entidade.”