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07/09/2013 | Portal UOL

Governo ameaçou expulsar senador boliviano caso ele falasse em comissão do Congresso

Na última terça-feira, 3 de setembro, o secretário-geral do Itamaraty, embaixador Eduardo dos Santos, tornou-se personagem de uma cena inusitada. Na narrativa de um diplomata, o segundo na hierarquia da pasta das Relações Exteriores tocou o telefone para Fernando Tibúrcio Peña, advogado do senador boliviano Roger Pinto Molina. Seguiu-se um barraco telefônico.

O embaixador disse ao advogado que o cliente dele deveria se abster de prestar depoimento à Comissão de Segurança Pública da Câmara. Fernando Tibúrcio estranhou o rumo da prosa. E Eduardo dos Santos, arregaçando os punhos de renda, foi ao ponto: se Molina comparecesse ao Congresso, seria expulso do Brasil no dia seguinte.

O advogado pediu ao interlocutor que informasse ao emissário do recado, fosse quem fosse, que não aceita ameaças. Recomendou, de resto, uma reflexão sobre os limites do Estado. Ao saber da arenga telefônica, o senador Roger Molina achou melhor não dar as caras na Comissão de Segurança Pública. No seu lugar, apareceu o advogado, que leu para os jornalistas uma nota de timbre enigmático:

“Fatores de ordem conjuntural que serão oportunamente esclarecidos levaram o meu cliente, o senador da República da Bolívia Roger Pinto Molina, a solicitar o adiamento ao deputado Otavio Leite, presidente da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados, da audiência pública marcada para a tarde de hoje.”

O doutor assumiu um compromisso por escrito: “Nos próximos dias concederei entrevista coletiva, a ser realizada na sede do Conselho Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal ou na de seu congênere em Goiás.” Procurado pelo blog, Fernando Tibúrcio confirmou ter recebido uma ligação telefônica do secretario-geral do Itamaraty:

“Considerei ultrajante o telefonema”, disse o advogado na noite passada. “Como afirmei na minha nota, pretendia tratar disso numa entrevista na OAB, na próxima semana. Mas já que vazou, não tenho razões para negar o ocorrido.” Segundo Fernando Tibúrcio, o senador Molina, à espera da decisão sobre seu pedido de refúgio no Brasil, preferiu não comparecer à Câmara. “Não me coube senão respeitar a decisão do meu cliente”, disse o advogado.

Presidente da Comissão de Segurança Pública, o deputado Otavio Leite (PSDB-RJ) adiou a inquirição de Molina em vez de cancelá-la. Na semana anterior, o senador boliviano já havia desmarcado um compromisso análogo: daria uma entrevista coletiva na sala de sessões da Comissão de Relações Exteriores, presidida pelo senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES). Na última hora, desistiu.

Um dia depois do cancelamento, o advogado Fernando Tibúrcio foi convidado a comparecer no Itamaraty. Reuniu-se com o mesmo secretário-geral Eduardo dos Santos. Noutra narrativa repassada ao repórter por diplomata, esse encontro teve muitas testemunhas. Afora os dois protagonistas, havia na sala outras cinco pessoas, entre diplomatas e servidores da Advocacia da União.

Como parafuso espanado, a conversa rodopiou em torno do mesmo tema que seria retomado no telefonema da semana seguinte: o governo da presidente Dilma Rousseff deseja passar um zíper nos lábios do senador Roger Molina, líder da oposição na Bolívia e desafeto do companheiro Evo Morales. Ouvido, Fernando Tibúrcio confirmou também a realização dessa reunião.

Pelo ritmo da carruagem, algo de muito estranho sucede em Brasília. Por 452 dias, o senador Molina ostentou na embaixada brasileira em La Paz a condição de asilado diplomático. Desembarcado no Brasil pelo diplomata Eduardo Saboia, ex-encarregado de Negócios na capital boliviana, o rival de Evo ouviu o advogado-geral da União Luís Adams declarar que seus papeis não valiam mais nada.

Convidado a comparecer a duas comissões do Congresso Brasileiro, o ex-hóspede de La Paz descobriu que o Executivo brasileiro deseja tão ardentemente o seu silêncio que é capaz de recorrer à ameaça para obtê-lo. Entre surpresas e espantos, Dilma Rousseff reuniu-se dias atrás, no Suriname, com Evo Morales.

Nesta sexta, desembarcaram em Brasília três ministros bolivianos. Desovaram sobre a mesa do colega brasileiro José Eduardo Cardozo (Justiça) um farto papelório anti-Molina. Fizeram isso no instante em que o Conare, conselho que pende do organograma da pasta da Justiça, analisa o pedido de refúgio do inimigo de Evo Morales.

Simultaneamente, uma investigação interna do Itamaraty tritura Eduardo Saboia, o diplomata que trouxe Molina para o Brasil. Não é à toa, como se vê, que as vozes da corporação começam a transbordar contrariedade.