Seu browser não suporta JavaScript!

03/12/2004 | Jornal O Globo

Lula e FH voltam a trocar ataques publicamente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Henrique continuaram ontem a troca de ataques. Em Brasília, onde discursou na abertura da Conferência Internacional Democracia, Participação Cidadã e Federalismo, Lula criticou os gestores que implantaram uma receita ortodoxa na América Latina, responsável, segundo ele, pelas mazelas nessas economias:

— Uma receita ortodoxa foi transplantada para nossos países, como se fosse possível realizar aqui a mesma trajetória conduzida pelas facilidades existentes nos países ricos. A começar pela inexistência e disponibilidade de moeda forte e, a partir dela, da permissão para negligenciar déficits na balança comercial e desequilíbrios nas contas correntes — disse Lula, afirmando que está começando um novo ciclo de prosperidade na América Latina em contraponto ao que chamou de infortúnio dos anos 90.

Lula: paridade com dólarfoi mentira de perna curta

Para o presidente, que não citou Fernando Henrique, essas políticas foram um corpo estranho implantado no país, deixando prevalecer o domínio das forças do mercado:

— É preciso reavivar a memória desse fato para que se possa avaliar exatamente o que entendem por eficiência aqueles que se arvoram sabedores do que fazer, mas que na verdade são responsáveis por esses equívocos do passado.

Lula disse que, devido a esse modelo, o Produto Interno Bruto per capita ainda não recuperou os níveis de 1997 e hoje, com uma dívida de US$ 744 bilhões, o país tem 40% da população abaixo da linha de pobreza:

— São sete anos de estagnação e retrocesso na renda. Os argentinos comemoravam que um peso valia um dólar; vocês se lembram do tempo glorioso em que no Brasil se comemorava que um real valia um dólar. Como mentira tem perna curta, nem um real valia um dólar, nem um peso valia um dólar — disse Lula, referindo-se ao governo Fernando Henrique.

O ex-presidente, por sua vez, minimizou as críticas ao governo de seu sucessor, sem dar nomes, em evento ontem no Rio de Janeiro. Fernando Henrique pediu medidas de combate à violência no Rio e se disse disposto a tomar parte, como cidadão, de qualquer movimento que se disponha a procurar resolver a questão:

— Este é um desafio (o combate à violência) que devemos enfrentar com a mesma convicção com que enfrentamos a ditadura.

Apesar de reconhecer melhoras na educação e na saúde no país, Fernando Henrique disse que não é mais possível que a sociedade viva aos sobressaltos, com medo permanente. E afirmou que a violência caminha junto com a corrupção.

Provocado pelo ex-governador Marcello Alencar, que disse querer voltar a vê-lo no comando do país, o ex-presidente afirmou que “há vários quadros no PSDB, gente boa para concorrer com o meu apoio”.

Ao discursar depois de receber a medalha Pedro Ernesto, dada pela Câmara de Vereadores por iniciativa do vice-prefeito eleito do Rio, Otavio Leite, ele disse que a questão social precisa de menos marketing e de mais eficiência:

— Estamos começando a enfrentar a questão social com um conjunto de políticas que precisam ser vistas com menos marketing, menos propaganda e mais eficiência — disse Fernando Henrique, que recebeu a medalha no Morro da Urca.

No discurso, embora tenha dito que não falaria mal “de governo nenhum”, afirmou:

— Nós precisamos ter convicções. Não me desfiz das minhas convicções. Muitos dos que diziam que eu não tinha convicções quando chegam ao poder, cadê as convicções? Evaporam.