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19/08/2003 | Jornal O Globo

Manguezal ainda guarda marcas do vazamento

Três anos após desastre na Baía, manchas de óleo continuam poluindo área em Magé, afugentando siris e aves

Pelo menos na memória do pescador Marcos Paulo Carvalho, ainda estão vivos os caranguejos e siris do

manguezal da foz do Rio Suruí, na Baía de Guanabara. Hoje, mais de três anos e meio depois de um vazamento de óleo da Petrobras devastar a região, ele não sonha mais reavivar os 40 quilos de crustáceos pescados por dia no passado. Sua esperança se esgota nas manchas de óleo que ainda persistem nos galhos e nos sedimentos, na devastação de parte do manguezal e, sobretudo, na ausência quase completa de vida num local que um dia foi conhecido como berço da baía, à beira da Área de Proteção Ambiental de Guapimirim.

Na última sexta-feira, O GLOBO foi à foz do Rio Suruí, numa área conhecida como Praia do Remanso, em Magé, com a bióloga Bruna Emídio dos Santos, da ONG Mundo da Lama, para identificar os resquícios do vazamento de óleo de 2000, considerado o maior acidente ambiental da história do Rio.

— Tanto tempo depois, ainda há óleo impregnado nos sedimentos e ressecado em galhos de árvore. O manguezal sofre continuamente: não há siris à vista nem na maré seca, as aves desapareceram, as plantas estão necrosadas e há trechos enormes devastados — constatou a bióloga.

O pescador lembra que essas áreas, hoje apenas descampados de lama, eram cobertas por vegetação de mangue. Morador da Praia do Remanso com a mulher Flávia e o filho Marcos Felipe, de 9 anos, ele reclama também do prejuízo que teve no bar que o casal administra no local.

A Petrobras nega que as manchas de óleo ainda existentes no manguezal sejam do acidente de 2000 e diz que tomou todas as medidas possíveis para minimizar os danos e devolver a área atingida às condições anteriores. Um exemplo, segundo a empresa, é o repovoamento de caranguejos na região da Reduc e na própria APA de Guapimirim.

A gerente de meio ambiente da Petrobras, Elisabete Calazans, diz que os especialistas contratados recomendaram que os técnicos da empresa evitassem limpar o manguezal para não agravar o dano.

— As manchas não devem ser atribuídas ao acidente. Após o vazamento, mapeamos com uma equipe multidisciplinar a área impactada. Fizemos um intenso trabalho na baía desde então e nossos resultados mostram uma recuperação na baía. Não tocamos no manguezal por recomendação de especialistas — diz ela.

Especialista acusa falta de barreiras de contenção

Mário Soares, coordenador do Núcleo de Estudo de Manguezais da Uerj, confirma a necessidade de manter distância do ecossistema sensível:

— Recomenda-se não entrar nos manguezais, pois o pisoteio prejudicaria a lavagem pelas marés e a degradação biológica. No entanto, devido à sensibilidade dos manguezais ao óleo, é fundamental em vazamentos a proteção do local com barreiras de contenção. Isso evitaria que estivéssemos nesse momento discutindo a recuperação do ecossistema.

A Petrobras, multada na época em R$ 51 milhões, garante ter indenizado pescadores e comerciantes no valor de R$ 6,7 milhões. Marcos, no entanto, ainda não recebeu um tostão. Largou a vida de pescador para tentar sobreviver do bar. Agora, seu sonho é ser aprovado na seleção de garis da Comlurb.

Canteiro de obras do emissário da Barra da Tijuca é retrato do abandono

Nenhum sinal de retomada das obras do emissário da Barra. A imagem do canteiro de obras na Avenida Sernambetiba é de abandono. Sem operários nem máquina. Um dos pilares do píer desabou no início do ano com o impacto das ondas durante uma ressaca. Nas margens da avenida, estão os tubos do emissário que deverão ficar dentro do mar. Obras, como a do emissário da Barra da Tijuca, a despoluição de São Conrado e o Programa de Despoluição da Baía da Guanabara (PDBG) podem sofrer com a redução das verbas destinadas ao Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam).

A arrecadação prevista de royalties para 2003 é de R$ 2 bilhões. De acordo com levantamento atualizado no Sistema de Acompanhamento Financeiro do estado (Siafen), há hoje um saldo de R$ 319 milhões no Fecam. Destes, foram efetivamente gastos, até a última quinta-feira, R$ 263.454,55. Isto corresponde a 0,08% do total disponível no fundo.

O deputado estadual Otavio Leite (PSDB) disse que pretende recorrer à Justiça para garantir o término das obras. O deputado Carlos Minc (PT) pediu ao Ministério Público estadual abertura de inquérito para apurar o uso indevido dos recursos do Fecam. Segundo levantamento feito pelo parlamentar, o governo do estado gastou R$ 948 mil com asfalto, dinheiro pago ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER).

O secretário de Integração Governamental, Luiz Rogério Magalhães, disse que a denúncia de Minc não tem fundamento. De acordo com o secretário, os recursos pagos ao DER foram usados para obras de saneamento, que constam da lista de 30 itens de obras que podem usar dinheiro do Fecam.

O presidente da Câmara Comunitária da Barra, Delair Dumbrosck, contesta a informação e reclama de que sequer o pilar danificado foi recolocado.

O levantamento feito pelo deputado Otavio Leite (PSDB), presidente da comissão especial criada para acompanhar as execução das obras do emissário, revela que a previsão de término simultâneo dos três lotes da obra é inviável.

Segundo o secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, em todo o ano de 2003 o estado deverá gastar R$ 80 milhões. Em média, são gastos R$ 12 milhões por mês. Em setembro, Conde planeja instalar o interceptor no emissário. Até o final do ano, será feita a licitação final de Jacarepaguá. As obras, segundo ele, não estão paradas e serão concluídas em dois anos.