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07/05/2011 | Jornal O Dia

MP apura irregularidade em obra do Maracanã

Por Fernanda Alves

O Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito para investigar irregularidades na reforma do Maracanã. O que está em xeque é a decisão de demolir a cobertura do estádio, tombado desde 2000. A derrubada foi autorizada pela Superintendência Regional do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), mas, como noticiou ontem o ‘Informe do Dia’, é criticada por profissionais e conselheiros do próprio órgão.

Cariocas e turistas que quiserem guardar fotos de uma das paisagens mais tradicionais da cidade precisam correr, pois a obra para demolir a marquise está prevista para começar já na primeira semana de junho. A tradicional cobertura será substituída por um teto de lona.

O procedimento para apurar a legalidade da demolição da marquise do Maracanã foi instaurado pelo MPF em 16 de abril, após a divulgação da autorização da obra. O procurador do caso, Maurício Andreioulo, acaba de voltar de férias e quer apurar mais detalhes sobre a investigação. Ontem, o deputado federal Otavio Leite (PSDB) enviou ofícios ao Ministério da Cultura e ao Tribunal de Contas da União, questionando a reforma. Ele pergunta se o formato do estádio será preservado.

Segundo o superintendente do Iphan, Carlos Fernando de Souza Leão, a derrubada da cobertura não afeta o tombamento do imóvel. “Estou seguro da decisão. A principal característica do local é ser um estádio de futebol. Existem laudos do governo do estado afirmando que, com a cobertura, ele não estaria pronto para a Copa. É inadmissível pensar em Copa sem o Maracanã”, justifica.

Na tentativa de evitar polêmicas, ele afirma que a decisão não decreta o fim da estrutura: “Se a sociedade perceber que a cobertura atual é importante para a história do estádio nada impede que se reconstrua após a Copa”, sugere.

Os argumentos do superintendente são questionados por outros profissionais como o arquiteto Nestor Goulart Reis Filho, relator do processo de tombamento: “Só existem dois tipos de obras em bens tombados: de restauração e de conservação. De demolição, eu nunca vi”.

Os jogadores de futebol também dividem as opiniões. Romário, ex-jogador da Seleção Brasileira, lamentou a demolição: “Infelizmente, o Maracanã vai ser descaracterizado. É triste para quem viveu a história do estádio”. Por outros, a mudança foi elogiada. Mário Jorge Lobo Zagallo, técnico de futebol, aprovou: “Na vida, a gente vai evoluindo cada vez mais”, avalia.

Cobertura em estilo inglês e tecnologia da Alemanha

A nova cobertura do Maracanã vai ser parecida com a do estádio Wembley, em Londres. Mas a tecnologia de sustentação das lonas virá da Alemanha. O governo do Estado do Rio ainda não divulgou o desenho de como ficará o novo teto do estádio.

A cobertura será maior, mas a promessa é de que dentro do estádio os cariocas não fiquem longe dos dias de sol, já que a lona será translúcida. O material é altamente resistente e o vão sem cobertura será de 68 metros.

O Maracanã vai ganhar também mais lugares do que o previsto. A capacidade vai subir de 76 mil para 80 mil, em dias de grandes jogos. O aumento foi causado pelo redesenho dos corredores de circulação dos torcedores na parte interna do estádio. O projeto executivo das obras será entregue este mês ao Tribunal de Contas da União.

Para conselheiro, Maracanã representa todos os brasileiros

O tombamento do Maracanã foi proposto ao Iphan em 1983, pelo então secretário de Cultura do MEC, Marcos Vinicios Vilaça. Os trabalhos começaram em 1997, quando o estádio estava para ser reformado.

Em fevereiro daquele ano, Claudia Girão, então chefe da Divisão de Proteção Legal do Instituto, sugeriu que os responsáveis pelo Maracanã fossem alertados para o risco de descaracterização de um bem que estava para ser protegido. Em outro documento, frisou que o tombamento não impediria adaptações que pudessem “modernizar e aprimorar a qualidade dos serviços”. Mas destacou que as intervenções deveriam respeitar “a essência da obra”.

O tombamento foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Iphan em 2000. Na reunião, Nestor Goulart Reis Filho disse que o Maracanã representava “o povo brasileiro, não apenas os cariocas”.