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02/07/2004 | Jornal do Brasil

No primeiro debate, todos contra Cesar

Atacado pelos adversários, candidato do PFL absorve as críticas e reconhece: ´´Sou prefeito, mas não sou perfeito´´

Há quase quatro anos ocupando o Palácio da Cidade, o prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL), foi o principal alvo dos candidatos adversários no primeiro debate da campanha eleitoral, promovido ontem pela Rede Globo. Líder nas pesquisas, Cesar sofreu ataques de todos os lados, principalmente nas áreas de saúde e transportes.

Apesar da bateria de críticas, o clima no estúdio não esquentou, a exemplo do momento político a três meses da eleição, quando o corpo-a-corpo nas ruas sequer começou. Habilidoso, o prefeito surpreendeu os concorrentes e os jornalistas ao fazer um mea-culpa no fim do debate:

- As críticas podem ter sido um pouco exageradas, mas tinham uma base de verdade. Sou prefeito, mas não sou perfeito. A campanha nos ajuda a identificar melhor os erros e corrigi-los. Cabe ao público escolher a melhor alternativa - avaliou Cesar, sempre às voltas com os óculos finos que tirou e colocou no rosto inúmeras vezes durante as discussões.

Com uma hora e meia de duração, dividido em cinco blocos, o debate girou em torno de quatro temas principais: segurança, saúde, transporte e obras públicas. A rigidez das regras e o pouco tempo para argumentações não permitiram o aprofundamento dos temas e mantiveram o equilíbrio entre Cesar, Marcelo Crivella (PL), Luiz Paulo Conde (PMDB), Jandira Feghali (PCdoB) e Jorge Bittar (PT).

Na primeira chance que teve para se dirigir ao prefeito, Jandira levantou o tema no qual se sente mais à vontade: a saúde. Médica de formação, afirmou que o Rio é campeão em tuberculose e sífilis congênita, além de ter elevado o índice de mulheres com câncer de mama. Cobrou ainda explicações sobre a grave crise dos hospitais municipais.

Na defesa, Cesar Maia admitiu que o problema existe e citou a fraude descoberta no Ministério da Saúde como exemplo de como o mau uso do dinheiro público prejudica os investimentos nos hospitais. Conciliador, pediu a colaboração dos governos estadual e federal. Jandira retrucou dizendo que o problema não é falta de verba, mas gestão ineficiente.

- Pessoas não são números - lembrou a deputada federal.

Tema caro na eleição deste ano, a segurança pública inspirou a pergunta do senador Marcelo Crivella ao prefeito, que enumerou suas ações preventivas - papel que cabe aos prefeitos segundo a Constituição. Ao comentar a resposta, o bispo da Igreja Universal pediu mais fiscalização nos ônibus urbanos.

Durante todo o debate, os adversários de Cesar trocaram perguntas sobre a administração do prefeito, abrindo espaço para críticas severas. Respondendo a Jandira, Crivella criticou a Prefeitura por transferir a responsabilidade pela segurança em vez de enfrentá-la. Na réplica, Jandira reafirmou que o assunto cabe ao plano municipal e acusou Cesar de omissão.

A municipalização da segurança, bandeira do prefeito na apresentação de seu candidato a vice, mês passado, foi esquecida pelos debatedores.

O petista Jorge Bittar também embarcou nas críticas e condenou o que chama de omissão da prefeitura ao falar do programa Favela-Bairro:

- Aqui temos o Bairro-Favela - ironizou o deputado federal, sobre suposto aumento das moradias informais na cidade.

O vice-governador Luiz Paulo Conde usou o termo ´´escândalo´´ para qualificar o trabalho de Cesar Maia em relação aos ônibus urbanos. Assumiu como sua bandeira a sugestão do secretário de Segurança, Anthony Garotinho, de fixar o valor da passagem em R$ 1. Conde promete ir ao governo federal pedir redução de impostos para subvencionar as gratuidades e espera contar com o apoio dos empresários na empreitada.

Marcello Crivella propôs o Cimento Social, projeto que consiste em colocar portas e janelas padronizadas nas casas das favelas e dotá-las de telhados.

Após o debate, os candidatos participaram de uma entrevista coletiva. Cesar Maia disse confiar no julgamento do público sobre sua gestão. O prefeito se surpreendeu com a ´´suavidade´´ das perguntas sobre a saúde e se declarou preparado para responder a perguntas mais duras, considerando ´´primários´´ os argumentos dos adversários. Afirmou que Jandira usou tom mais alto, ´´o que não significa dar mais credibilidade a ela no debate´´.

Jandira lamentou o pouco tempo para expor as idéias e acusou Cesar Maia de não responder sobre a crise na saúde e a fiscalização das empresas de ônibus.

Crivella afirmou que quem investir em religião não vai obter êxito, ´´porque o carioca não se importa com isso´´. Conde garantiu que a chapa ecumênica composta com o pastor Manoel Ferreira não é uma provocação ao concorrente evangélico, mas demonstra o espírito de quem mora na cidade. Bittar voltou a defender o governo federal, convicto de que o apoio do presidente Lula vai fortalecer sua candidatura.

Bom humor nos bastidores

Mal teve início o debate, antes de responder à primeira pergunta, o prefeito Cesar Maia (PFL) surpreendeu ao pedir 10 segundos de silêncio. O ato era uma homenagem ao ex-governador Leonel Brizola, morto há duas semanas.

No aquecimento para as discussões, cada candidato se concentrava a seu modo. O prefeito, irrequieto, abria e fechava a mão continuamente. Em seguida, mantinha as mãos acima da bancada, viradas para baixo, e assim permanecia por vários segundos. Em outro momento, abria os braços e fechava os olhos.

O petista Jorge Bittar preferia alongar os músculos do braço e se movimentar lentamente. Séria, vez por outra a candidata do PCdoB, Jandira Feghali, soltava um riso tímido, como se espantasse o nervosismo. Luiz Paulo Conde (PMDB) - que retocava a maquiagem a cada bloco - e Marcelo Crivella (PL) se mantinham impassíveis, até que o senador resolveu alongar as costas.

Menos de um minuto antes do debate, Crivella, fiel à religião, juntou as mãos, fechou os olhos e fez uma pequena oração. Durante a discussão com os adversários, admitiu que surfava na juventude. A confissão foi alvo de um comentário bem-humorado de Cesar Maia, a caminho da entrevista coletiva:

- O debate foi bom porque ficamos sabendo que o senador Crivella já foi surfista.

O prefeito repetiu pelo menos três vezes que poderia ter pedido direito de resposta, mas não faria isso por respeito ao debate de idéias.

- O direito de resposta cabe à população - justificou.

Conde e Bittar chegaram a invocar o direito ao moderador, uma vez cada, mas tiveram os pedidos negados.

Os relevos do estúdio quase levaram ao chão o candidato a vice de Cesar Maia, Otavio Leite (PSDB), que tropeçou num degrau e quase caiu quando voltava da posição em que estava o prefeito.

A conclusão do segundo bloco marcou os momentos mais tensos entre os candidatos. Cesar e Bittar trocaram algumas palavras à distância e o candidato petista bateu continência para o prefeito. Logo depois, Jandira discutiu com Cesar em tom baixo.

Após responder a uma pergunta de Cesar sobre transportes, Jandira teve de escolher um candidato a quem dirigir sua pergunta. As regras do debate excluíam o prefeito, que já havia respondido no bloco. A candidata do PCdoB riu e interpelou Cesar, arrancando risos:

- Não posso perguntar ao prefeito - lamentou.

Cesar Maia não se fez de rogado e devolveu a gentileza:

- Que pena! (R.S.)