Seu browser não suporta JavaScript!

24/02/2013 | Jornal O Globo on line

No Rio, Yoani Sánchez comenta eleições em Cuba

Por Flávio Tabak

RIO - Três policiais militares à paisana, dois homens e uma mulher não desgrudaram os olhos da escritora e blogueira cubana Yoani Sánchez durante o passeio turístico feito na manhã deste domingo (24) no Rio Depois de enfrentar protestos raivosos na Bahia, em Brasília e São Paulo, a opositora dos regime dos irmãos Castro fez, finalmente, aparições públicas tranquilas no Forte de Copacabana, no calçadão da mesma praia e depois no Pão de Açúcar.

Não houve protesto orquestrado, apenas algumas pessoas fizeram críticas comedidas durante seu passeio. Um homem gritou, na praia, "Viva Fidel!". A maioria dos que a abordaram, porém, queria fotos, autógrafos ou um simples aperto de mão. Outros berravam: "Cuba livre!". Muitos também sequer sabiam quem era aquela mulher de cabelos longos cercada por jornalistas. Perguntavam e comentavam: "Quem é? Ah, essa que é a tal cubana".

O dia começou cedo. Às 9h, Yoani apareceu no lobby do hotel Windsor Barra, sempre ciceroneada pelo deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ), que a convidou para ir a Brasília na quarta-feira (20) e pediu à Secretaria de Segurança Pública a presença dos policiais.

O quarto foi cedido pelo hotel a pedido do deputado, que entrou em contato com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio (ABIH) para viabilizar a estadia de dois dias. A assessoria de imprensa da entidade confirmou que o quarto foi cedido sem custo.

Descansada, Yoani embarcou num carro da equipe do deputado e saiu em comboio, como se fosse candidata a prefeita em dia de campanha, rumo ao Forte. Lá era esperada por Maria Estela Kubitschek, filha de Juscelino e ligada PSDB, partido de Otavio Leite. Também apareceram políticos como os deputados estaduais Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) e Aspásia Camargo (PV). Os três políticos posaram, sorridentes, para fotos com a cubana. Maria Estela lhe entregou livros de sua autoria e trocou algumas palavras. Sobrou tempo para comentar sobre a escolha dos integrantes do Conselho de Estado cubano, feita neste domingo pela Assembleia Nacional:

— Hoje é um dia muito intenso. Em Cuba, na teoria, será nomeado um novo presidente, mas sobre isso não há surpresa (Raúl Castro deverá ser reconduzido ao poder). Pela propaganda oficial dos últimos meses ao redor de Miguel Díaz-Canel, poderia dizer que ele será, talvez, o vice-presidente. Ele tem apresentado uma postura muito fiel ao governo, foi ministro da Educação Superior. Chegamos a uma situação política tão lamentável em meu país que nos alegramos não pela tendência política do candidato, mas pela quantidade de anos que ele tem. A que ponto chegamos? — provocou Yoani, em referência a uma possível renovação por caus ados 52 anos de Díaz-Canel, comparados com os 82 de José Ramón Machado Ventura, atual primeiro vice-presidente do Conselho de Estado.

Depois de fazer seus comentários políticos, com cada vez mais gente seguindo, a cubana entrou de novo no carro de Otavio em direção à Rua Santa Clara. Antes, foram cerca de 15 minutos no Forte apreciando a bela vista. Ao atravessar a ciclovia, um atleta reclamou da confusão na pista. Não queria, naquela manhã de sol intenso, saber de Cuba, Yoani e tampouco de Fidel.

A cubana chegou a um quiosque e tomou água de coco. Os deputados, sorridentes, posavam para fotos com ela e explicavam um pouco da geografia e história da cidade. A quem perguntasse, Yoani dizia que queria ser a mensageira da Cuba real e, na volta, traria para casa muitos conhecimentos de jornalismo e tecnologia.

Chegando ao Pão de Açúcar, Yoani olhou para cima e disse entusiasmada: "Ai, que lindo!". Parecia estar à vontade na cidade. Sobre a montanha, continuavam os pedidos de autógrafo e fotos. Yoani sempre respondia com simpatia e posava sem problemas. Quando era possível, sacava seu telefone celular para registrar imagens da vista. Alguns turistas reclamaram da confusão, queriam descer mais rapidamente pelo bondinho:

— Ela é uma oportunista, quer se promover — reclamou o jornalista Pedro Paulo de Oliveira, de Salvador, que esperava a fila.

Mas a recepção no passeio foi positiva. A cada momento, Yoani interrompia seus passos para posar com turistas. Questionada se não se importava em ter a imagem vinculada a políticos brasileiros, a blogueira respondeu que não pensa nas correntes políticas de quem a cerca:

— Pessoas de muitas tendências têm sido solidárias comigo. Ontem tomei café com o Eduardo Suplicy (PT-SP). Aqui não me falaram de política. Recebi muito afeto, ajuda para conhecer o Rio. Não há político de esquerda e direita. Há pessoas boas e ruins. Gente com vontade de te ajudar e outros que querem boicotar. (A condição) é não falar de política — afirmou Yoani. — O Rio é maravilhoso, fiquei muito bem aqui. Obrigado e descansem! — disse a blogueira, depois, por volta das 12h30, antes de se despedir para almoçar com um amigo jornalista que vive no Rio.