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14/01/2017 | Jornal Extra

Nova greve na Uerj já se desenha; atraso nos repasses supera os R$ 350 milhões

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) — berço de mentes notáveis como as do ministro do STF Luiz Fux e Luís Roberto Barroso — pede socorro: o atraso nos repasses do governo estadual já supera R$ 350 milhões, segundo o reitor Ruy Garcia Marques. Na segunda-feira (16), os servidores administrativos vão cruzar os braços. Na quarta-feira (18), é a vez de os professores se reunirem para debater sobre uma provável greve. O motivo: não recebem salários desde novembro. Numa penúria que se arrasta há meses, a instituição vê se distanciar cada vez mais a luz no fim do túnel. A volta às aulas, prevista para terça-feira (17), foi adiada para o dia 23.

— Não é apenas uma fase difícil. É a maior crise da história da Uerj. Funcionários estão sem salários, alunos, sem bolsa, e a universidade, sem manutenção básica — lamenta Ruy.

Os efeitos da crise se evidenciam na Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Experimentos com ratos foram reduzidos em 50% por falta de ração; Laboratórios sofrem com problemas estruturais; eo microscópio Auriga, um dos mais avançados da América Latina, que custou R$ 1,5 milhão, está sem manutenção.

— A gente vai assistindo ser tudo desestruturado — lamenta o nefrologista Walter Gouvêa, presidente da associação de ex-alunos da FCM.

SEM RAÇÃO

Por falta de pagamento, o fornecimento de ração animal foi suspenso em julho de 2016. Com isso, os experimentos com ratos foram reduzidos em 50%. Desde novembro não há novos projetos.

PROTESTOS

Cartazes com palavras de ordem foram espalhados por todos os andares e cantos dos prédios da Uerj. Também foram penduradas faixas na fachada e há até frases escritas a tinta nas paredes e escadas.

LIXO ACUMULADO

Com o fim do contrato com a empresa que recolhia o lixo, os sacos de descarte hospitalar se acumulam nos corredores da Faculdade de CIências Médicas, pondo em risco a saúde de alunos e professores.

Nas redes, protestos e críticas a Pezão: ‘Cadê o dinheiro?’

No território livre da internet, sobram iniciativas em defesa da Uerj e — em igual ou maior medida — críticas ao governador Luiz Fernando Pezão. No Facebook, foi criado o evento “Cadê o dinheiro da Uerj — Ato de recepção aos calouros”, marcado para o dia 17 de janeiro, na própria universidade.

“A crise do Pezão é uma crise de prioridades! Quem tem dinheiro para jatinho tem que ter para Educação! Quem tem dinheiro para as Olimpíadas não pode deixar a Uerj fechar!”, informa o texto que anuncia o evento.

Internautas também vêm utilizando a hashtag #SouUERJ para reunir histórias vividas na faculdade. Lançada pela ONG Meu Rio, a campanha já havia reunido centenas de adesões até o fim da noite de ontem.

“O possível fechamento da Uerj é uma afronta, um descalabro, um crime perverso cujo responsável se chama Sérgio Cabral”, escreveu um usuário, disparando também contra o antecessor e aliado de Pezão, preso em Bangu.

Solidários aos funcionários terceirizados que estão com os salários atrasados, professores decidiram criar um “trotão”. Eles querem arrecadar 700 quilos de alimentos e reunir, pelo menos, 300 pessoas para doar sangue no Hospital Pedro Ernesto, que é da universidade e fica em Vila Isabel.

Proposta de federalização divide opiniões

Diante da crise sem precedentes, o presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB), afirmou que pediu ao governador Luiz Fernando Pezão para tentar viabilizar em Brasília a federalização da universidade. A proposta divide opiniões.

— Não é simples, mas não é impossível. Já houve casos em São Paulo e no Paraná. Pode ser um caminho — defende o ex-aluno Otavio Leite, hoje deputado federal pelo PSDB.

Outro ex-aluno ilustre, o desembargador José Muiños Piñeiro Filho, discorda:

— Não se vislumbra já há algum tempo, nos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, a capacidade necessária, até mesmo por questões de prioridade política, para a melhora não só da Uerj, mas do próprio ensino universitário.

O Ministro da Educação, Mendonça Filho, prefere não opinar, mas deixa um recado:

— A competência de manutenção das universidades estaduais é dos estados da federação — avisa o ministro.

Já Picciani tenta contornar.

— Sempre fui um defensor da Uerj, mas acho que, agora, não é momento para ficar só politizando — afirma.