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01/03/2006 | Jornal O Globo

O dia em que derrubei o PIB de um camarote

O carnaval tem dessas coisas - e desculpem a originalidade padrão escola do terceiro grupo. Domingo, cobrindo o desfile das escolas de samba no Sambódromo, eu me vi derrubando o PIB do camarote da revista ´Rio, Samba e Carnaval´. Entre um beijo de Luma de Oliveira no seu novo namorado e o relato de uma das quatro gaiatas histórias que Aldir Blanc criou, na hora, para a versão tupiniquim do bang-bangay ´O segredo de Brokeback Mountain´, adentra o gramado o governador de São Paulo. Não fosse por um pequeno detalhe - as eleições do segundo semestre - a presença de Geraldo Alckmin ali entre os foliões soaria tão coerente quanto os versos de um samba de condomínio.

O governador vai para uma saleta reservada, e, por obra do vice-prefeito Otavio Leite, que eu conheci cobrindo a Câmara como repórter, ele como vereador, acabo entrando no espaço vip. Lá dentro, caneta e papel na mão, sou um corpo estranho entre presidentes de federações de indústrias e comércio, empresários, milionários. Otavio conversa comigo, dizendo que quer me apresentar ao governador, e eu fico matutando sobre que interesse um pré-candidato a presidente, um grão-tucano como diria Elio Gaspari, teria em conversar com um anônimo repórter, que lhe roubarria preciosos minutos do beija-mão de uma parcela considerável do Produto Interno Bruto do País.

Apresentação feita, penso numa pergunta o menos imbecil possível. Não adianta. Acaba saindo a mais imbecil de todas - ´O senhor conhecia o carnaval do Rio?´. Pra minha sorte, ele não conhecia e, pra mais sorte ainda, a conversa engrena. Roubo dois minutos do seu tempo de presidenciável, o suficiente para Alckmin contar que já foi Nero no carnaval de Pindamonhagaba. Nada que mereça entrar para os anais do jornalismo, mas saio da sala com a glória possível para o momento: por dois longos minutos, eu e minha renda levamos para algo próximo de um traço o PIB do camarote da ´Rio Samba´.