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30/07/2003 | Jornal O Globo

O Pan, o emissário e o ano 2012

A cidade e o Estado do Rio de Janeiro não podem perder aquela agradável e recente sensação de revigoramento de sua auto-estima. Afinal, a escolha do Rio para disputar a sede olímpica de 2012 trouxe em si muito mais do que o enaltecimento merecido, digno de repercussões internacionais. A rigor, verificou-se uma inédita unidade político-partidária pró-Rio. Circulando pelo BNDES, vestindo a mesma camisa, lá estavam as representações político-parlamentares de PSDB, PT, PMDB, PDT, PCdoB, sem falar dos anfitriões do PFL e do PSB, além de inúmeras personalidades cariocas, desportistas de hoje e outrora.

Este fato constitui um marco histórico. Pois se o Rio tivesse, ao longo das últimas décadas, manifestações de coesão política desta intensidade, sua realidade econômica seria outra. No entanto, é possível recuperar a unidade perdida: aí estão a reforma tributária (ICMS do petróleo na origem) e, sobretudo, a refinaria. Esta, na verdade, tem que ser uma idéia-força geral. Quem sabe um bom e transparente encontro suprapartidário para traçar uma estratégia comum...

Mas nem tudo são flores. As responsabilidades que se antepõem para que cheguemos lá, em 2012, são gigantescas e requerem providências imediatas. A começar pelo desafio dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Logo, será preciso cuidar da infra-estrutura desportiva, bem como da infra-estrutura urbana (implantação de sistema metroviário-VLT para a Barra da Tijuca, por exemplo), além do imperativo maior do nosso tempo que é a infra-estrutura ambiental — em especial o saneamento da bacia de Jacarepaguá/Barra/Recreio, local do certame.

Estas são questões que não surgiram agora. Uma ilustração é o caso das obras do Emissário Já! — expressão símbolo da luta pelo saneamento de uma das regiões mais belas do Brasil — tradução cruel de um verdadeiro drama ecológico que, lamentavelmente, se arrasta sem solução plena. Depois de um longo período de paralisação, foi anunciada a retomada das obras. Contudo, conforme verificamos in loco , nada além de simbolismos de ocasião, que não conferem qualquer perspectiva de resultados. Esta verdadeira saga só se supera diante de um desfecho: vontade política/recursos.

Para se ter uma idéia, estamos falando de um cronograma que, numa primeira fase, ainda necessita de cerca de R$ 70 milhões para sua conclusão e, numa segunda fase, que sequer foi licitada, outros R$ 190 milhões. Ressalte-se que uma se conjuga à outra, desde já. Isto é, de nada adianta concluir a primeira se a rede de captação dos esgotos não estiver interligada à estação de tratamento, que não poderá funcionar por ausência de equipamentos eletromecânicos, ainda não adquiridos. Isso sem falar dos tubos do emissário propriamente dito, cujo prazo de colocação termina no próximo verão, pois a estrutura metálica do píer tem vida útil limitada. Nesse ponto, um novo atraso poderá significar prejuízo da ordem de R$ 30 milhões.

Logo, trata-se de um tema urgente e grave. Neste sentido, muito nos preocupa a proposta do governo do estado, em tramitação na Alerj, de diminuir drasticamente as verbas carimbadas para investimentos em meio ambiente (de 20% para 5% dos royalties do petróleo). Hoje, nesta conta, estão contabilizados cerca de R$ 300 milhões. Ocorre que deles nem um real foi gasto até o momento.

Pensando um pouco mais adiante, é fundamental compreender que 2012 é agora! Inclusive porque a recuperação ambiental da região não se dá num passe de mágica. Importa sim, em tempo, e diz respeito a um dos importantes quesitos que o Comitê Olímpico Internacional leva em consideração.

O jogo é sério, mas a conclusão é simples. Basta que o saudável clima de entendimento do prefeito com a governadora prossiga naquela atmosfera que vivenciamos no Bndes. Não tenho dúvida de que assim alcançaremos as soluções de parceria. A vitória final depende, neste momento, do seguinte pensamento comum: o Pan, o emissário, o metrô, o ano 2012 são tão-somente o Rio, e “o Rio é de todo mundo e todo mundo lhe quer bem...”, como docemente canta Marisa Monte.

OTAVIO LEITE é deputado estadual pelo PSDB.