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28/05/2011 | Jornal O Globo

Obra de ciclovia na Zona Oeste com preço de rodovia vai ser alvo de MP e pode gerar CPI

Por João Paulo Gondim, Selma Schmidt e Vinícius Lisboa

RIO - A ciclovia de R$ 19.733.162,40 inaugurada pelo prefeito Eduardo Paes no último domingo, na Zona Oeste, vai ser investigada pelo Ministério Público estadual e pode gerar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara dos Vereadores, onde assinaturas começarão a ser recolhidas com este objetivo na próxima segunda-feira. Como O GLOBO mostrou nesta sexta, a ciclovia de 22km construída entre Campo Grande e a divisa com Itaguaí (CSA/ Companhia Siderúrgica do Atlântico), em Santa Cruz, já apresenta problemas como obstáculos e rachaduras na pista, apesar de cada quilômetro ter custado mais que o de uma estrada, segundo a Associação das Empresas de Engenharia do Estado do Rio (Aeerj). O MP abriu nesta sexta-feira um procedimento sobre o caso. De acordo com o MP, a equivalência do valor da ciclovia da Zona Oeste ao preço médio de uma estrada é suficiente para investigar a possibilidade de superfaturamento. O Tribunal de Contas do Município (TCM) também acolheu, segundo o deputado federal Otavio Leite (PSDB), representação para que seja feita uma inspeção especial na ciclovia a fim de verificar a qualidade da obra e a compatibilidade dos custos.

Nesta sexta, no primeiro dia de chuva desde a inauguração, uma equipe do GLOBO voltou a percorrer a ciclovia e pôde constatar mais problemas além de postes e orelhões no meio da pista e rachaduras, como a formação de poças d’água. O problema era mais acentuado em Cosmos. No trecho próximo à estação ferroviária de Paciência, uma fenda cortava a pista de uma margem à outra.

O frentista Josias José de Lira, que trabalha em Santa Cruz, se queixou também da segurança:

— Perto do Hospital Pedro II, a pista é muito estreita. Uma bicicleta mal consegue ultrapassar a outra. O ciclista que perder o equilíbrio pode cair na rua.

A cabeleireira Ismênia Moreira, de 60 anos, mora perto da ciclo-rampa instalada nas proximidades da estação ferroviária de Santa Cruz. Segundo ela, o poste solar ao lado da rampa nunca funcionou:

— A área é cheia de assaltantes. De que adianta um poste sem luz?

Placas sem nome de construtora

A equipe constatou ainda que as placas que restavam no local com informações sobre a obra não exibiam o nome da construtora Andrade Gutierrez. A Secretaria municipal de Meio Ambiente, responsável pela fiscalização da obra, alegou que as placas já foram retiradas.

O prefeito Eduardo Paes, que chegou a pedalar num trecho de 5km para inaugurar a obra, disse nesta sexta que determinou à Secretaria de Meio Ambiente uma avaliação minuciosa da ciclovia. Ele afirmou ainda que os erros de projeto e de execução da obra sejam corrigidos imediatamente. Segundo ele, a Andrade Gutierrez foi advertida e terá que fazer os ajustes necessários, sem custo adicional para os cofres públicos. O prefeito, no entanto, só anunciará na próxima semana o que será feito e em que prazo.

Procurada pelo GLOBO, a construtora não se pronunciou sobre a ausência de seu nome nas placas nem se fará os ajustes necessários à obra, sem custos adicionais, como quer o prefeito. A Andrade Gutierrez também não informou se construiu ou está construindo outras ciclovias na cidade.

Vereador fala em ‘maior imoralidade’

Acompanhada do engenheiro Abílio Borges, assessor da presidência do Crea-RJ, os repórteres do GLOBO constataram na quinta-feira que a ciclovia passa a centímetros da porta de casas e lojas. O engenheiro classificou de “quebra-galho” o que viu e afirmou que os quase R$ 20 milhões foram mal empregados.

O procedimento aberto pelo MP está na fase de distribuição, na qual um promotor da área de Cidadania será incumbido de conduzir a investigação. A previsão é que, na segunda-feira, esse processo se inicie.

A Aeerj estimou que os cerca de R$ 900 mil gastos em cada quilômetro da via seriam o bastante para a construir uma estrada de mesma extensão. Já o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) calculou que o valor de um quilômetro da ciclovia seria suficiente para implantar 500 metros de uma rodovia de pista simples.

No Legislativo, o vereador Eliomar Coelho (PSOL) afirmou que, na segunda-feira, começará a coletar as 17 assinaturas de seus colegas para o pedido de abertura de CPI.

— É necessário ir a fundo em casos como esse, do contrário, uma sala vai ser construída com o preço de um edifício. O valor da obra foi um absurdo. É a maior imoralidade que já vi na minha vida — afirmou Eliomar, que é engenheiro civil.

A vereadora Teresa Bergher, líder do PSDB na Câmara, adiantou que vai assinar o pedido de abertura de CPI e anunciou outra iniciativa:

— Na semana que vem, vou entrar com um requerimento de informações junto à Câmara para pedir esclarecimentos à prefeitura.

Também do PSDB, Andrea Gouvêa Vieira, classificou o valor gasto na obra um absurdo:

— Quero saber qual é a prioridade da prefeitura. Será que era necessário gastar tanto assim em uma ciclovia, que, até onde eu sei, está com problemas estruturais.