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25/07/2010 | Jornal O Globo

Onde quem busca votos deve pedir licença

Por Laura Antunes e Marcelo Remígio

Pedir votos, dar apertos de mão e abraçar criancinhas no corpo a corpo com eleitores pode ser, dependendo do local da Região Metropolitana do Rio escolhido pelo candidato, uma operação de alto risco. Isso porque, distante da paz que parece imperar nas favelas ocupadas pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), um número considerável de comunidades ainda vive sob o domínio do tráfico ou de milícias que ditam a lei local, restringindo e até mesmo proibindo a entrada de candidatos.

Assessores de aspirantes aos cargos de governador, senador e deputado confirmam que é preciso autorização prévia das “autoridades” para entrar.

Na longa lista de regiões sob a tutela do poder do tráfico, por exemplo, estão as comunidades de Vila Cruzeiro (Penha), Morro dos Prazeres (Santa Teresa), Morro da Pedreira (Costa Barros), Barros Filho, Acari, Favela do Aço (Santa Cruz), Coelho Neto e Rocinha. Na Região Metropolitana e no interior do Estado, o tráfico impõe regras nos morros do Salgueiro e Martins (São Gonçalo), Mangueirinha e Jardim Ana Clara (Duque de Caxias) e nas favelas de Macaé. Já milicianos dariam sinal verde para a entrada de candidatos em comunidades de Campo Grande, Gardênia Azul (Jacarepaguá), Bangu, Honório Gurgel e Santa Cruz.

Traficantes podem cobrar até R$ 100 mil de candidatos Para entrar em áreas dominadas pelo tráfico, alguns coordenadores de campanha recorrem a lideranças comunitárias, que nem sempre presidem as associações de moradores. As regras dos traficantes são praticamente as mesmas: campanha só até 17h, nunca em dias de chegada de drogas. Já em áreas de milícia, os grupos definem candidatos.

Quem desrespeita as ordens é intimidado a sair. Em favelas de pequeno porte, traficantes cobram dos candidatos. A tabela iria de R$ 30 mil a R$ 60 mil. O pacote inclui o apoio de lideranças comunitárias.

Quem pagar mais terá como bônus a exclusividade na área, conta o assessor de um candidato do PMDB a deputado federal, como reduto eleitoral na Zona Oeste. O valor chegaria a R$ 70 mil para deputados estaduais e R$ 100 mil para deputados federais, dependendo do número de eleitores na região.

Há cerca de três semanas, ocorreu um fato emblemático no Morro dos Prazeres, durante visita da candidata à Presidência Marina Silva. A comitiva entrou por uma rua, mas uma equipe de reportagem entrou por outro acesso, foi cercada por traficantes e teve que se retirar.

A Linha Amarela e a Avenida Brasil delimitam o território para a campanha do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

Com atuação no combate às milícias, ele tem nas vias expressas um limite e evita a passagem por bairros das zonas Oeste e Norte.

Segundo ele, o cuidado é seguido por sua militância.

— A campanha do PSOL é nas ruas, mas temos o agravante da violência e de áreas em que não podemos entrar. Não sou irresponsável e prezo pela minha vida e pelas dos militantes.

Candidato à reeleição, o deputado estadual André Lazaroni (PMDB) evita áreas de risco: — Já passei por constrangimentos.

Mandaram recado para que nossa equipe deixasse o local.

Também já tive que sair do Piscinão de Ramos por causa de uma operação policial. Só vamos em comunidades onde conhecemos lideranças comunitárias.

Com três passagens pela Câmara Municipal e uma na Alerj, o deputado federal Otavio Leite (PSDB) diz que, a cada eleição, diminui o número de locais com livre acesso: — Vou durante o dia, mesmo assim em eventos pontuais, onde sou convidado — diz Otávio.

Líder do PSC na Câmara dos Deputados, Hugo Leal, já passou por constrangimentos: — Hoje, vou em locais onde já atuo com algum tipo de trabalho.

Para quem não tem, a dificuldade é ainda maior.

Embora a prática mostre que os candidatos não têm livre acesso em várias áreas, associações de moradores garantem que suas comunidades estão de portas abertas e negam a necessidade de consentimento de traficantes ou milicianos. Marco Antonio Gomes, presidente da Associação de Moradores da Vila do João (uma das 16 comunidades do Complexo da Maré) afirma desconhecer a restrição: — Moro aqui há 30 anos e nunca soube de proibição. Aqui é democracia total. Pena que, após eleito, o candidato some.

Membro da diretoria da Associação de Moradores do Morro do Alemão, Genilson dos Santos faz coro: — Em geral, o candidato vem com alguém da comunidade para facilitar a circulação, mas qualquer um pode entrar. O tráfico não se mete nesse assunto.