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11/09/2012 | Jornal O Globo

Otavio Leite é entrevistado pelo O Globo

RIO — O tucano Otavio Leite abriu, na tarde desta segunda-feira, a série de entrevistas com os candidatos a prefeito do Rio organizada pelo jornal O GLOBO com críticas ao prefeito Eduardo Paes (PMDB) a quem chamou de autoritário. Ele também justificou os recentes ataques ao deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) como estratégia para contrapor as ideias da “esquerda” representada por Freixo. Para o candidato do PSDB, a eleição tem que servir para definir campos ideológicos dos candidatos.

Divisão no PSDB

O senhor é candidato pelo PSDB, mas não conseguiu o apoio integral do seu partido. Um nome importante do PSDB no Rio, a vereadora Andrea Gouvêa Vieira, não está com o senhor e faz campanha para o deputado estadual Marcelo Freixo? Como o senhor vai governar se não conseguiu unidade nem partidária?

Qualquer partido tem disputas, mas no PSDB houve disputa em todas as instâncias. A (executiva) municipal, a estadual e a nacional entenderam que meu nome era o melhor para o Rio de Janeiro. Então, tentamos de todas as formas trazê-la para o processo. Infelizmente, ela não entendeu assim. Ela talvez tivesse imaginando uma solução absolutista ou coisa do gênero. O problema não é mais meu. Aliás, foi um alívio! Quem tem que explicar agora a questão da vereadora é o candidato a quem ela empresta o apoio. Porque as formulações, doutrinas ideológicas do PSOL são completamente antagônicas aos princípios que o PSDB defende. Então, esse problema não está na nossa esfera. Esse problema é agora do candidato do PSOL, ponto.

Mas ela insistiu na realização de prévias lá atrás entre o nome dela e o do senhor...

Ao contrário, quem pediu prévias fui eu. Eu tinha toda a base do partido da cidade trabalhada não é de hoje. Não foi num toque de mágica que construí isso. O partido tem uma história de muita dificuldade na cidade nos últimos tempos, mas eu sempre procurei dar atenção aos diretórios de base. Eu tinha apoio da maioria.

Ela afirma que o senhor é que não queria prévias...

Pelo contrário. Ela que não quis. Porque, se tivesse prévias, perderia do mesmo jeito. Eu lamento. Isso é uma página virada. As pessoas têm que respeitar as instâncias democráticas do partido. Há uma questão nesse aspecto muito relevante. O diretório nacional, por influência dela, avocou esse assunto, ignorando as instâncias que já eram explicitamente Otavio Leite. E impôs aos membros do diretório nacional a reflexão. E houve uma reunião da Executiva nacional, depois de um processo interno, onde fui homologado por unanimidade. Então, o que eu vou discutir quanto a isso?

Cesar e eu

A que o senhor atribui seu mau desempenho nas últimas pesquisas?

Gozado, né? Eu sou um parlamentar com 20 anos de mandatos consecutivos na cidade...

Foi vice-prefeito...

Fui vice-prefeito, certo. Um vice-prefeito sem força política, sem qualquer primazia ou qualquer prestígio. Um vice-prefeito de fazer inveja ao Marco Maciel. Se bem que ele teve muito mais prestígio com o FH do que eu.

Mas isso foi um problema do partido ou do senhor?

Essa pergunta tem que ser dirigida ao ex-prefeito Cesar Maia. Porque, quando se entra na prefeitura, você recebe uma caneta. A minha veio completamente sem tinta. Houve apenas um projeto que eu postulei e foi de fato aproveitado, que foi a implantação da primeira secretaria do país em prol das pessoas com deficiência. Ele topou, mas não deu recurso. Supunha eu que o atual prefeito pudesse melhorar esse apoio. Pelo contrário, só piorou. Esse é um setor na cidade que vai muito mal. Mas quero voltar à pergunta (sobre as pesquisas). A rigor, o fato é que Otavio Leite não é conhecido. Mas, se você pega o PSDB, que também é um partido que não tem grandes forças no Estado do Rio, e identifica que minha rejeição é ínfima, significa dizer que há um campo muito fértil para crescer.

O senhor disse que era um vice-prefeito sem tinta na caneta, mas essa não seria uma posição muito cômoda? No fim do mandato, com a cidade cheia de lixo, a questão da Cidade da Música... o senhor continuou com Cesar Maia até o fim. O senhor foi partícipe dessa gestão.

Não cheguei até o fim do mandato. Com um ano e três meses, me desincompatibilizei e anunciei que concorreria a deputado federal. Tivemos um entendimento, dentro do partido, de que a aliança não funcionou como deveria e segui a estrada. Não vejo nenhum tipo de possibilidade de associar a mim a gestão do prefeito Cesar Maia. Tive uma relação protocolar com ele. Não passou disso.

O que o senhor achou do custo final da Cidade da Música?

Evidente que é um custo muito elevado. Jamais tomaria a decisão de gastar R$ 600 milhões, que era quase tudo o que a prefeitura tinha de poupança para investir, em um projeto. A minha proposta para a Cidade da Música é de uma licitação internacional para desonerar a prefeitura dos R$ 35 milhões ou R$ 40 milhões da manutenção do espaço. Esse dinheiro, nós vamos colocar em centros de cultura. Acho que a concessão permitiria ter uma gestão que proporcionasse uma programação intensa, sem ônus para o Tesouro municipal. Não há mais que se discutir se vai derrubar ou não, tem que colocar para funcionar.

Visão “dinossáurica”

O senhor tem voltado seus ataques ao deputado Marcelo Freixo. Por que essa mudança de postura? Inclusive, no último debate, o senhor o atacou logo na primeira pergunta.

Isso porque eu quis ponderar o seguinte. Nós temos uma planta de IPTU. O valor do metro quadrado está desvalorizado. Para qualquer correção nessa planta, nós teremos inexoravelmente um aumento do IPTU. Em um capítulo do plano de governo do candidato Freixo, no setor de desenvolvimento econômico, o primeiro ponto que ele fala é do IPTU, da revisão da planta. Isso significa dizer, e essa foi minha intenção, que qualquer que seja o movimento dele nessa direção — porque imaginar que ele vai diminuir o IPTU, não suponho — vai gerar aumento de IPTU na cidade.

O senhor também polemizou com ele em debate na PUC...

Ali é um ambiente em que todo mundo está mobilizado em torno da campanha dele. Mas fiz questão de ir para debater e mostrar alguns aspectos que nos diferenciam. Nós temos algumas convergências, mas temos diferenças nítidas. Ele tem uma visão de Estado, no meu entendimento, dinossáurica, estatizante plenamente, de certos dirigismos, de visões muito atrasadas ao meu juízo. Quando ele trata, por exemplo, do carnaval, ele fala que tem de ser submetido a um conselho. Que conselho? Que dirigismo cultural é esse? Concordo com ele quando diz que tem que estabelecer rigores maiores em relação a aferir os gastos do patrocínio. Mas, agora, do ponto de vista da liberdade de comunicação, opinião, expressão na cultura, a prefeitura intervir no tema de uma escola de samba é um absurdo. Quem tem que julgar é a população, é o público, os julgadores etc. Então eu discordo disso e também de várias outras questões.

“Império do pragmatismo”

E quanto ao prefeito Eduardo Paes, quais suas críticas?

O prefeito é uma miscelânea. Inclusive do ponto de vista ideológico, esta aliança de 20 partidos traduz exatamente a incongruência e as contradições de posturas ideológicas tão antagônicas aglutinadas em torno da boquinha, do espaço, do que eu poderia dizer que é o império do pragmatismo. O que ofende o nosso modelo político, no qual, no primeiro estágio do processo, todos deveriam apresentar suas propostas. Num segundo momento, aí, sim, as alianças se formatariam. No governo atual não há identidade ideológica. Nós apresentamos uma candidatura social-democrática. Quero ideologizar um pouco a campanha para trazer algo que tem sido muito esquecido: os parâmetros ideológicos. Que sociedade queremos construir? É uma sociedade totalitária? Quando o próprio prefeito advoga que a aliança União, estado e prefeitura tem permitido à prefeitura avançar e que só através desse caminho é que se possibilita um lugar ao sol, ele está tendo uma posição autoritária que afronta qualquer princípio republicano, pelo qual você tem que ter, entre entes diferentes, quando os partidos forem diferentes, a relação democrática, transparente.

Que outras diferenças o senhor teria em relação ao prefeito?

O prefeito vive sob a égide da trilogia asfalto, tijolo e cimento. E, para mim, as pessoas estão em primeiro lugar. Ele está preocupado com o asfalto liso, em fazer UPAs e clínicas da família, sem a responsabilidade de ter a segurança de que os equipamentos vão funcionar para valer. É impressionante, aonde eu vou, as pessoas dizem: “É de fachada.” Da Rocinha à Zona Oeste, faltam médicos. E isso é resultado de uma visão equivocada. Quando temos o desafio do crack, que exige recursos, constata-se que o prefeito já gastou R$ 171 milhões em propaganda. Com R$ 20 milhões ou R$ 30 milhões a mais, teríamos feito muito em relação às pessoas com deficiência e avançado no combate ao crack. O Rio, nesse ponto, comeu muita mosca, porque o problema já estava em outros estados e havia sinalização de que poderia chegar aqui. A prefeitura, depois de muita pressão, acordou agora no final, nesse oba-oba com o Ministério da Justiça de anunciar que vão gastar R$ 400 milhões com o crack.

O senhor o coloca então à direita do seu espectro?

Muito à direita. Eu sou centro-esquerda nesse processo.

Como será seu relacionamento com o governador Sérgio Cabral e a presidente Dilma Rousseff?

Não teria nenhum tipo de dificuldade com ambos. É óbvio que com o governador nosso contato tem que se cingir especificamente aos temas do interesse recíproco dos entes, do governo do estado e da prefeitura. É uma relação político-administrativa. Sem convescote. Com a presidenta Dilma, não teria qualquer dificuldade. Aliás, recentemente, nestes momentos difíceis que o Rio andou passando por conta da iminente votação dos royalties do petróleo, eu fui à presidenta. Eu não teria qualquer dificuldade de advogar as causas do Rio de Janeiro de maneira muito transparente. O que não terá de minha parte é uma postura gratuitamente beligerante, como foi muito comum no passado. Cesar Maia era muito beligerante, diretamente beligerante. Garotinho era muito beligerante. Não é assim. Tem que ter diálogo. Tem que conversar, transparentemente.

Trânsito “apaulistizou-se”

Quais suas propostas para o transporte público e para o tráfego na cidade? (pergunta do internauta Dudu França, pelo Facebook)

O trânsito no Rio “apaulistizou-se” muito. Seria um absurdo advogar neste momento o rodízio, para ser São Paulo plenamente. A saída está no transporte de massa, de trilho. Em vez do BRT, em que se pretende gastar R$ 1,2 bilhão segregando pista na Avenida Brasil e fortunas em desapropriação, eu gastaria em aquisição de trens em parceria com a SuperVia, em parceria com o Metrô, para permitir uma mobilidade urbana muito melhor. Acho que as vans têm que ser incorporadas, mediante um processo licitatório individual, cada uma com seu roteiro, de fácil fiscalização por conta do GPS, e incorporadas ao Bilhete Único.

Na Zona Oeste, o transporte por vans é dominado pelas milícias. Como pretende lidar com isso?

É preciso trabalhar de maneira administrativa e penal ao mesmo tempo. Todo o apoio ao governo do estado e à Polícia Federal no enfrentamento da questão. Há uma rede econômica que oferece retaguarda às milícias, e uma delas, que nós sabemos, é a das maquininhas (caça-níqueis). Acho que a prefeitura tem que editar um decreto dizendo que será cassado o alvará do estabelecimento que tiver maquininha. Sei das dificuldades que isso traz, mas acho que seria uma contribuição importante. Para mexer realmente com essa questão, tem que fazer a licitação individualizada (das vans). É preciso identificar os trajetos não explorados, que devem ser alimentadores dos eixos troncais, que são executados pelo trem, pelo metrô, pelo BRT e pelo ônibus.

Gastos olímpicos

O prefeito tem falado sobre a continuidade administrativa para as Olimpíadas. O senhor mudaria alguma coisa no projeto? Muitos recursos das federações estão sendo passados para a prefeitura administrar...

O evento olímpico será na cidade, mas, para efeito de compreensão dos órgãos internacionais, é um evento brasileiro. Mais importante que a presença do presidente Lula na assembleia do Comitê Olímpico Internacional (COI) que elegeu o Rio foi a presença do presidente do Banco Central, que securitizou os investimentos para o evento, orçados em R$ 26 bilhões, enquanto as Olimpíadas de Londres custaram R$ 29 bilhões. A se levar pelo histórico brasileiro de gastos públicos, é preciso dar uma olhada, fazer uma auditagem desses gastos.

Mas como a prefeitura pode auditar recursos do governo federal?

Uma parte é da prefeitura, outra é federal. Tem o Congresso, que pode ser importante para isso, assim como os tribunais de contas. Agora, os desenhos dos equipamentos já estão definidos. Há a dúvida do velódromo. O velódromo que aí está não teve a pretensão, nem podia, por causa das exigências do COI, de ser definitivo. A solução é que ou se reformaria ou se construiria outro. É curioso observar que a reforma não utiliza praticamente nada do atual, a projeção aponta um custo similar ao do novo. Eles estariam na órbita de R$ 100 milhões, R$ 110 milhões. Não vamos mudar, do ponto de vista dos equipamentos esportivos, a linha traçada, mas, em relação à infraestrutura urbana, alguns pontos merecem alguma alteração. No bojo desse processo, também tem a recuperação da Zona Portuária, de que sou completamente a favor, mas, do ponto de vista de preocupação com o trânsito, sou completamente contra a derrubada da Perimetral. A solução viária proposta é inconsistente do ponto de vista da demanda presente e da demanda futura. Vai se construir muito e adensar aquela região, o que gera um trânsito permamente e regular que vai diminuir a velocidade média. Enfim, acho uma insensatez, até porque isso implica em R$ 1,5 bilhão que poderiam ser aplicados de outra forma na cidade.

A não derrubada da Perimetral não compromete o projeto da revitalização da Zona Portuária? Com a manutenção do elevado, os armazéns poderiam ter alguma outra utilização?

Não compromete. Aquela área está destinada a ser revitalizada e não será a presença do viaduto que vai prejudicá-la. Se assim fosse, o prédio da antiga Bolsa de Valores, que é colado na Perimetral, não teria o preço do metro quadrado mais caro da cidade. Acho que ali se prestaria a ser um cluster, uma união de empresas na área de petróleo, para gerar muito emprego de altos salários. Só acho que é demasiado observar que esse dinheiro tem uma mecânica complexa, mas vem do Fundo de Garantia do Trabalhador, que deveria ser priorizado para projetos habitacionais. A Caixa tomou uma posição que eu diria ousada.

Sem OS na Saúde

O senhor vê necessidade de conceder algum setor à iniciativa privada para atrair investimentos?

O modelo de OS, me antecipando à pergunta que vocês vão fazer...

Por que o senhor diz que o modelo dá certo em São Paulo e não no Rio?

São circunstâncias completamente diferentes. São Paulo tem uma tradição de terceirização da saúde que vem da década de 80. Elas foram implantadas com outra metodologia e com uma retaguarda muito diferente — o Hospital Sírio-Libanês, o Einstein, faculdades de Medicina, enfim, com um lastro para fazer funcionar com mais segurança. No Rio, não, foi feito quase um ajuste de botequim: corre-corre, chama qualquer um para entrar, e vamos tentar lotar médicos aqui e acolá, até médicos que nem passaram pela residência. Essa tentativa de transferir uma responsabilidade é a afirmação de uma incompetência do prefeito.

Não é possível perseguir no Rio o mesmo nível de excelência de São Paulo?

O Rio de Janeiro tem uma tradição estatutária. São características regionalizadas. As organizações sociais (OS) no Rio já gastaram R$ 3 bilhões por ano. Não tem cabimento, e não vai funcionar em lugar nenhum do mundo, ter no mesmo ambiente de trabalho um médico ganhando R$ 8 mil e outro ganhando R$ 1,5 mil. O que há de novo na nossa campanha é a proposta de decretar que a rede municipal de saúde seja rede municipal de saúde e ensino. Vamos convocar as faculdades de Medicina, que são sete no Rio, e abrir a rede. Isso permite a vários médicos do município uma gratificação adicional. Também credencia o hospital de ensino a receber recursos dos ministérios da Saúde, da Educação e da Ciência e Tecnologia. Na Zona Oeste, onde há 1,7 milhão de cariocas, vamos implantar a primeira faculdade de Medicina da região. Ali do lado do Pedro II, a prefeitura vai construir uma bela faculdade, com R$ 30 milhões no máximo, e fazer um chamamento público: atenção, faculdades de Medicina, quem quer gerir essa faculdade e prestar o serviço de formação de futuros médicos? Todos disputam, as públicas, as privadas. À que ganhar, a prefeitura vai pagar a bolsa do aluno, que hoje é de R$ 4 mil, isso daria, com cem alunos, R$ 5 milhões por ano. Fácil de ser absorvido. O aluno, num vestibular próprio, teria a oportunidade de estudar numa faculdade vinculada ao hospital e aos postos de saúde da região. Isso é um símbolo importantíssimo para que os jovens da região possam ser os futuros médicos de lá. E aqueles que tiverem tido a oportunidade, em contrapartida, depois de formados, retribuiriam em horas de atendimento para a população.

O senhor realmente acha que dois professores por sala iriam solucionar problemas educacionais? (pergunta da internauta Gabriela Aymoré, pelo Facebook)

Dois professores por sala são uma novidade que vai ajudar a corrigir um problema estrutural. A solução, como um todo, depende de outras medidas. O que temos hoje? Na média do Rio, 33% alcançam o 5º ano compreendendo o conteúdo específico em português e matemática. A quantidade de analfabetos funcionais cada vez se reproduz mais. No terceiro ano do ensino médio, apenas 11% têm o domínio dos conteúdos compatíveis ao ano. É muito sério isso. Nesse ponto, sou radical, no sentido grego da palavra, de raiz do problema. É preciso corrigir do início, fazer a coisa certa do início..