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11/06/2012 | Jornal Metro RJ

Otavio Leite fala sobre a candidatura no RJ

O deputado federal Otavio Leite (PSDB) já foi vice-prefeito do Rio de Janeiro – no mandato de Cesar Maia –, mas diz que de fato fez pouco pela cidade: tinha uma “caneta sem tinta”.

Defensor dos direitos das pessoas com deficiência, o sergipano de família de políticos criado em Copacabana acredita que irá ao 2º turno com o prefeito Eduardo Paes. E mais: afilhado do ex-presidente Juscelino Kubitschek, diz que fará 40 anos em quatro à frente da prefeitura.

Por que o senhor quer ser prefeito do Rio neste momento?

Porque eu amo esta cidade, tenho ideais e uma vez tendo a oportunidade de executar e usar a caneta com tinta quero mexer em várias estruturas do Rio de Janeiro. Quero ser candidato para cumprir conceitos que eu carrego, abrigo e que quero ver implantados.

Quais seriam esses conceitos?

Em primeiro lugar, trazer a pessoa com deficiência, seja auditiva, visual, intelectual ou física, a uma dimensão de importância jamais vista na nossa história. Oferecendo um conjunto de ações de reabilitação. Permitir que a gente faça em quatro anos o que não se fez em 40. Isso vai produzir não apenas justiça a milhares de brasileiros, mas será um fator básico de humanização da sociedade. A trilogia asfalto-tijolocimento não pode ser imperativa. Há dois eixos, que a gente vai focar.

Quais são eles?

Radicalizar na atenção básica à educação infantil para que o aluno entre no primeiro ano para a alfabetização bem estruturado e que não venha a ser um problema que necessite de outros apoios que acabam custando mais ao próprio município. E o desenvolvimento econômico: fortalecer as iniciativas de base empreendedoras dos jovens. Em cada região administrativa, um Sebrae e uma agência de desenvolvimento econômico, para estimular as pessoas a produzirem.

O senhor já foi vice-prefeito (2005/2006) no governo Cesar Maia. Em que isso traz vantagens e desvantagens?

Bom, ao vice-prefeito é dada uma caneta. A minha veio sem tinta. Mas foram experiências válidas. Dizem que na adversidade você aprende muito. E eu também, evidentemente, tive condição de mergulhar mais nos assuntos do Rio de Janeiro.

Se arrepende dessa aliança?

Não, eu amadureci.

Mas o senhor faria de novo, em eventual segundo turno?

Eu não tenho dúvida que eu vou acolher muito bem aqueles que queiram apoiar, sobretudo dessa aliança DEM-PR (Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho). Sua candidatura é solitária perante à do atual prefeito? Não, em absoluto. Eu tenho a solidariedade de muitos segmentos da sociedade, de muitos companheiros de partido. Isso já preenche aquilo que é básico em relação a se ter apoios mínimos. O que há do outro lado é uma espécie de oba-oba eleitoral, onde os antagonismos ideológicos são tão presentes, quanto tão unidos são os partidos. Esse gigantismo no fundo acabará por trazer problemas, uma espécie de dificuldade de gestão e de contradições que vão estar aí vivas.

O que mudaria na cidade hoje e o que manteria em um primeiro momento de governo?

Eu prosseguiria com o BRT, porque não tem retorno e seria uma irresponsabilidade não dar prosseguimento. Assim como a Cidade da Música deveria já ter sido inaugurada há muito tempo, através de uma parceira com a iniciativa privada e desonerando a própria administração pública. Esse tipo de picuinha política não é comigo. Mudaria por completo a política em relação a pessoas com deficiência. Não se trata nem de mudar, se trata de implantar.

O que acha do projeto Porto Maravilha?

Buscar-se o erguimento daquela área é válido, mas gastar R$ 1,5 bilhão com a derrubada da Perimetral é inaceitável. Esses recursos poderiam ser melhor aplicados num apoio à expansão do metrô. A prefeitura é acionista do metrô. As pessoas vão sair de um engarrafamento no qual respiram e olham um horizonte para o subterrâneo de um túnel, onde o gás carbônico vai imperar. A neurose vai aumentar e daqui a 60 anos, se nada for feito, a elevação do nível do mar vai colocar em risco a região. Vamos alterar o Porto Maravilha para permanecer o elevado, dando tratamento estético, paisagístico, que poderia ser feito chamando arquitetos, carnavalescos, para envelopar com plástico, luzes, cores e fazer dali uma obra de arte. O senhor já foi colega de partido do atual prefeito. Como era a relação de vocês? Pessoalmente, eu me dou bem com o prefeito. Politicamente, me dou mal com o prefeito. Ele não foi PSDB, ele esteve PSDB. Mas não hesitou em abandonar o partido, como abandonou outros. São perfis políticos. Eu gosto de coerência, mas é uma opção dele, é um estilo de fazer política diferente.

O senhor disse que manteria o BRT. E os BRSs?

Isso é produto de engenharia de tráfego já utilizada outras vezes. Ela deve ser expandida. É questão de, inclusive, ampliar a qualidade e os quadros da engenharia de tráfego no Rio, para não ficarem apenas convergidas para o centro, mas também para as zonas norte e oeste. O senhor é autor de mais de 120 leis.

Qual das aplicadas à cidade se orgulha por estar bem implementada?

A que ofereceu desde 1995 vagas para pessoas com deficiência em concurso público. Tem uma lei muito importante, que é a que preservou os campos de futebol 11 contra 11. Essa evitou que o Flamengo virasse shopping; o Bonsucesso virasse supermercado; o Campo Grande tivesse vendido seu campo porque estava afundado em dívidas e evitou que o São Cristóvão, berço do Ronaldo Fenômeno, virasse prédios comerciais ou residenciais. A lei preserva áreas dos campos. Me orgulho de ser o autor. O Rio está sendo bem preparado para Copa e Olimpíada? Jamais teria gasto R$ 1 bilhão em reforma do Maracanã. Ali com certeza era para ter jogado a iniciativa privada. E esse dinheiro, melhor teria sido aplicado em expansão do metrô. Umas das reclamações é que o Rio está caro.

Cabe ao município intervir?

Esse episódio último, dos hotéis da Rio 20, eu acompanhei em Brasília: a empresa que ganhou a licitação para vender pacotes botava plus de 33% em cima do que os hotéis ofereciam e exigia um mínimo de sete noites, o que gerava um produto caríssimo. Mas o Rio é um sonho de consumo de todos os brasileiros. As pessoas querem visitar o Rio. Estão sendo construí- dos alguns hotéis, mas eram para ser muitos mais. Quanto mais hotel, mais concorrência e preço mais barato.

O senhor pretende estimular isso de alguma forma?

Total. Quanto mais hotel, melhor. Vamos chamar as bandeiras internacionais. Aprovou-se uma lei para facilitar a construção de hotel, mas é insuficiente. É preciso correr atrás.

O quanto a atual gestão está pertinente no combate às drogas na cidade?

Está atrasado em relação ao crack. Só no 4º ano de governo foi implantado um programa efetivo de combate ao crack, que ainda é provisório e insuficiente: 1% da população está no crack, o que indicaria, no Rio, 60 mil pessoas. É um número gigantesco diante dos 200 e poucos leitos que a prefeitura está abrindo. Ao invés de gastar R$ 160 milhões em publicidade para badalar o governo e fazer campanha antecipada, esses recursos deveriam ser gastos em campanhas propriamente e em iniciativas de conscientização em relação aos desvios que a droga provoca.

É favorável à internação compulsória?

Sou. Porque a internação é uma necessidade diante de uma flagrante incapacidade do cidadão que consumiu o crack. O que é necessário é que a relação entre poder público e seus agentes com esses seres humanos seja feita de maneira tranquila. As religiões podem ser utilizadas. Não são poucas as iniciativas que existem para trabalhar na recuperação de usuários de crack e de drogas que as igrejas, tanto católica como evangélicas e outras, desenvolvem. O poder público pode apoiar esse tipo de iniciativa. São pessoas que se dedicam ao próximo. E isso tem valor incomensurável na possibilidade de dar certo. E a descriminalização da maconha? É óbvio que o usuário da maconha não deve ser penalizado. Ele deve ser tratado. Mas a questão da maconha liberada tem consequência econômica devastadora. Porque muitos agricultores deixarão de produzir suas culturas para produzir maconha. Vai ter superprodução, o preço vai baratear, estimular o consumo. Acho isso perigoso. A questão é trabalhar o não consumo.

Quais são os seus planos para a segurança pública? E como seria esse relacionamento com o governo do Estado?

O relacionamento com o governo do Estado será administrativo, sem qualquer dificuldade, sem festinha: republicano. Não apenas em relação ao governador, como também à presidenta. Recentemente, eu fui à presidenta trabalhar a questão do royalties do petróleo, em prol do Rio. A segurança é um problema da sociedade como um todo. Então, a iluminação tem a ver com segurança. A Guarda Municipal precisa ser prestigiada. Não sou a favor da guarda armada, o guarda municipal tem que ganhar mais. A médio e longo prazo, a semente que vai frutificar na sociedade menos insegura é a educação e a oportunidade de as pessoas terem acesso a trabalho digno. É a favor das atuais Unidades de Ordem Pública? Sou a favor. É preciso cuidar do dia a dia da cidade e evitar que as pessoas se excedam. É preciso trabalhar de maneira humana, democrática, conversando. A ótica do governo está voltada para a zona sul. Mas nós queremos fortalecer a figura dos administradores regionais, que estão esquecidos e podem ser úteis na questão das posturas municipais, naquilo que é a origem da desordem urbana. O SUS no Rio é o pior do Brasil.

Como inverter em quatro anos?

A atual gestão se preocupou mais com asfalto ou cimento do que com as pessoas. Ao lado de muitas UPAs e Clínicas da Família têm postos de saúde que ficaram abandonados. Antes de construir novos é preciso botar para funcionar o que existe. Essa é uma filosofia de trabalho que a gente quer deixar muito clara como uma ação de governo.

Quando vai estar pronto seu plano de governo?

Até 5 de julho por lei, minha própria lei. Eu acho que essa regra, que vai ser experimentada pela primeira vez no Brasil, será pedagógica na prática política como um todo. As pessoas, quando se candidatarem, vão raciocinar não apenas considerando a esperança no futuro, mas também o que é possível fazer. A esperança tem que caber no orçamento. As pessoas vão poder fiscalizar durante e, sobretudo, depois para conferir se o que foi proposto na prática está sendo executado.

Como será o seu financiamento de campanha?

De qualquer empresa ou indivíduo que tenha sido objeto de condenação por improbidade administrativa, nós não vamos aceitar qualquer tipo de apoio. Quem quiser me apoiar, pode apoiar sem toma lá dá cá.

Você tem um patamar do que precisa para a campanha?

Não tenho. O Rio tem uma oferta de profissionais de cine e vídeo muito grande. O que interessa nesse critério é ganhar no quesito originalidade, não no luxo. O luxo eu deixo para os atuais.

Qual vai ser a importância da internet?

Toda. A internet ajuda a democratizar o processo de campanha de debate sobre os problemas da cidade. A internet substitui as placas, uma porção de coisas. Não é dado ao homem público qualquer dúvida ou esconder qualquer coisa. Vivemos o tempo da hipertransparência. Isso é bom e democrático. O drama da internet serão jogos menores de ataques ou campanhas difamatórias. Mas a Justiça Eleitoral está se preparando.

Juscelino Kubitschek foi seu padrinho. Têm afinidades?

Ele foi tolerante, eu sou tolerante. Não se associa a mim a figura de alguém que possa ter qualquer postura autoritária. Juscelino era compreensivo, foi perseguido e incompreendido em muitos momentos, mas era acima de tudo um democrata.

O senhor fala que na prefeitura serão 40 anos em quatro. Como isso seria possível?

Dedicação total, priorização, alocação de recursos e convocação da sociedade às suas responsabilidades. A Convenção Geral da ONU, que o Brasil aprovou, estabelece que se deve oferecer os insumos de equipamentos e possibilidades para o deficiente viver bem na sociedade e ter os direitos de ir e vir e ter acesso aos bens civilizatórios. Ninguém está livre de se tornar deficiente: 23% da população tem algum tipo de deficiência. Atenção a esse núcleo e trazê-los para um movimento mais aberto e mais normal, mais humano possível vai ser muito útil para a sociedade.

E qual é a infuência do ex-prefeito e governador Marcello Alencar?

O Marcello, a quem eu me vinculo desde o movimento estudantil, Brizola e por aí vai, traduz a figura de um homem público que vê o povo em primeiro lugar, sensível às questões dos mais pobres. Preocupado que tenham voz e vez. Quando a gente organizava as 163 prefeituras itinerantes, e eu ficava à frente disso, sempre acabava em reuniões com associações de moradores. Mas ele praticava o que se chama de democracia direta: falava com as pessoas. Com a internet, vamos poder consultar mais a população. A questão da Perimetral, por exemplo, não houve debate. É produto de uma visão autoritária de governar. A PEC da música (proposta de emenda à constituição que vai baratear CDs e DVDs) pode acabar com a pirataria? Vai combater. Mas nós queremos fazer do Rio a cidade da música. Não apenas da música do grande show de Copacabana. Mas a cidade que proporciona aos valores esquecidos da zona oeste e do subúrbio a oportunidade de serem músicos. Como autor da PEC da música, quero expandir a atividade musical às áreas mais pobres.