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15/11/2012 | Jornal O Globo

Parlamentares querem esclarecimentos sobre novo píer em Y

RIO - Diante da falta de informações sobre projeto da Companhia Docas que prevê a construção de um píer em Y entre os armazéns 2 e 3, nas proximidades do Píer Mauá, comissões da Câmara dos Deputados, da Assembleia Legislativa do estado e da Câmara dos Vereadores do Rio também entrarão no caso. A expectativa é que, na semana que vem, sejam votados requerimentos para convocar os envolvidos no projeto a prestarem esclarecimentos. O deputado federal Otavio Leite (PSDB), da Comissão de Turismo, vai propor a convocação do presidente de Docas e da presidente do Iphan, Jurema de Souza Machado, para prestarem esclarecimentos. O presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Área do Porto (Cdurp), Jorge Arraes, também será convidado para explicar os impactos sobre projetos de revitalização da região, tais como o Porto Maravilha e o Museu do Amanhã, que ficaria a cerca de 500 metros do novo atracadouro.

— Não há alternativa de fato? Alega-se que não seria possível entre os píeres 5 e 6. Pensou-se em negociar uma parceria com a Marinha para fazer atracações próximas ao Arsenal? Poderia até ser fonte de receita para os militares — opina Otavio Leite.

O deputado estadual André Lazzaroni (PMDB), da Comissão de Meio Ambiente, também vai sugerir a realização de audiência pública para discutir o tema, proposta que o colega Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) apoia.

— Por que em Puerto Madero (Buenos Aires) as atracações são feitas em paralelo e não em Y? Qual seria a melhor solução para o Rio? — indaga Lazzaroni.

Para Luiz Paulo, demolir a Perimetral e liberar um paredão de navios é algo incoerente.

A vereadora Sônia Rabello (PV) também defende uma discussão aprofundada em audiência pública, seja pela Comissão de Turismo ou pela de Meio Ambiente. Segundo ela, é preciso estudar o impacto do projeto em toda a região. Carlo Caiado (DEM) disse ontem que também vai propor que autoridades esclareçam melhor o projeto. Para ele, o ideal é que isso aconteça antes que as obras tenham início.

Nesta quarta-feira, a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Cristina Lodi, determinou que técnicos do órgão estudem em detalhes o projeto. Em até 30 dias, o Iphan pretende concluir um diagnóstico sobre o impacto que a concentração de navios turísticos poderá provocar na Zona Portuária, região que abriga bens tombados, como o Mosteiro de São Bento, e passa por obras de reurbanização. A decisão foi tomada após uma reunião entre Cristina Lodi e representantes da Companhia Docas. Cristina e o presidente de Docas, Jorge Luiz de Mello, não quiseram dar entrevistas. Em nota, Docas informou que, apesar da decisão do Iphan, a contratação do consórcio vencedor da concorrência e o início das obras não serão interrompidos e seguem os trâmites normais até segunda ordem.

Os novos ‘prédios flutuantes’

Especialistas voltaram a reclamar do projeto. Eles alegam que as informações divulgadas até agora são insuficientes. A concorrência foi feita apenas com o projeto básico, sem detalhes técnicos completos. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) concedeu a licença sem estudo de Impacto Ambiental (Eia/Rima), que, segundo o órgão, não seria exigido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) para projetos dessa natureza.

Orçado em R$ 250 milhões, o novo píer em Y permitirá que até seis navios atraquem simultaneamente na Zona Portuária. Com a obra, o tráfego anual de passageiros passaria de 600 mil para 1,5 milhão. Segundo o edital de concorrência, o novo píer teria a estrutura reforçada para receber alguns dos maiores transatlânticos do mundo, como o Queen Mary II, que tem 72 metros de altura. Segundo o Iphan, o gabarito permitido no entorno é de apenas 15 metros. Isso significa que os navios poderão formar um paredão que encobriria não só prédios históricos, mas também o futuro Museu do Amanhã, projeto do arquiteto Santiago Calatrava.

— Ao ampliar a capacidade de atracação, a tendência é termos mais navios de turismo na cidade. Mais turistas no Rio é desejável. O problema é a escolha da área. Na prática, se passarmos a receber navios o ano inteiro, o que se torna possível com a ampliação do píer, teremos verdadeiros prédios flutuantes o tempo todo. Como esses “prédios” vão dialogar com a arquitetura tradicional da Zona Portuária? Não é só o impacto no mosteiro que tem que ser avaliado — disse o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Sérgio Magalhães.

Ele acrescentou que o novo píer deveria ter sido projetado prevendo o planejamento do entorno, o que aparentemente não foi levado em conta no projeto básico.

— Teremos um vaivém permanente de pessoas numa rua entre dois paredões de navios. Qual o nível de conforto que terão os usuários? Era preciso prever isso — disse Magalhães.

Para o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti, o píer em Y seria mais uma demonstração de de falta de transparência de projetos que mudam o dia a dia da população:

— Estamos diante de uma caixa-preta. Não sabemos se foram estudadas de fato todas as alternativas, e se essa era a melhor solução.