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19/06/2005 | Jornal O Globo

Pensão completa

Moradores de todo o Rio poderão se cadastrar no programa para hospedagem de turistas durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. É fato que será dada prioridade aos imóveis localizados nos bairros mais próximos às áreas de competição, como Barra, Recreio e Jacarepaguá, além de Zona Sul e Grande Méier. Mas, sem quartos de hotéis suficientes para abrigar os dois milhões de visitantes esperados para os 17 dias do evento, o governo está aberto a diferentes opções. O programa é da prefeitura e do Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos (CO-Rio).

Pelo sistema bed and breakfast (cama e café, em bom português) — alternativa comum em vários países — gente comum hospeda turistas, engordando o orçamento doméstico. No caso carioca, o serviço poderá representar um ganho, na média, de US$ 50 (R$ 125), a diária de casal. Ou, considerando-se o período dos Jogos, US$ 850 (R$ 2.125). O valor vai variar de acordo com o conforto oferecido (entre os parâmetros, ar-condicionado e banheiro exclusivo). Uma tabela por faixa e valores será divulgada futuramente pela prefeitura.

Morador de um apartamento de quarto e sala em Copacabana, o consultor de inglês Alex Rasan está entre os cariocas simpáticos à idéia. Ele pensa em se mudar para a casa do vizinho de porta, durante os Jogos. Cederia o imóvel, mas estaria ali para servir o café da manhã:

— Ficarei a três passos de casa e vou liberar o apartamento que tem, além do quarto de casal, dois sofás-camas. Minha única preocupação é com a segurança, com o tipo de pessoa que vou receber.

Levado pelo GLOBO, o vice-prefeito do Rio, Otavio Leite, que coordena o programa, esteve na casa de Rasan e aproveitou para fazer uma vistoria — como a que será realizada em todas as residências que se cadastrarem. Ele garantiu ao anfitrião que serão tomadas providências quanto à segurança:

— Vamos criar uma retaguarda para o anfitrião. A idéia é fazer parceria com as polícias Civil e Federal.

Em estudo, um padrão de qualidade

A bicama da sala de TV do apartamento de dois quartos, da microempresária Silvia Tereza de Campos, em Jacarepaguá, a dez minutos da Vila do Pan-Americano, estará disponível para os turistas. Alegre e comunicativa, Silvia identifica na hospedagem uma oportunidade de participar do evento e, mais do que isso, ganhar um dinheirinho extra.

— Já que eu não sou atleta, essa será uma maneira de participar, como cidadã, do acontecimento da vez. Como moro sozinha, posso ceder um dos quartos, sem problema algum. Se puder escolher, vou preferir receber mulheres ou pessoas idosas na minha casa.

Projeto de Santa Teresa pode servir de modelo para o Pan

O modelo de hospedagem a ser oferecido aos turistas que vierem ainda não está definido. Mas a idéia é estabelecer como modelo para o projeto um padrão de conforto, ventilação e higiene, como foi feito pela Cama e Café, empresa pioneira nesse tipo de atividade no país, criada em 2003, que tem atualmente 120 casas cadastradas em Santa Teresa.

— De acordo com o perfil da casa, se o imóvel oferece piscina, internet, banheiro privativo ou vista panorâmica, classificamos as acomodações como econômica, standard e superior, com diárias que variam de R$ 70 a R$ 160, o casal, com café da manhã — explica Carlos Magno Cerqueira, um dos sócios da empresa que faz a ligação entre os hóspedes e os anfitriões do bairro.

Na avaliação de Cerqueira, para que o programa seja um sucesso, é preciso fazer um cadastro bem detalhado dos hóspedes e anfitriões:

— O casamento dessas duas pontas é o segredo. E, para garantir um bom casamento, na ficha da empresa há dados até sobre alergia a cães e gatos.

— Além disso, com o treinamento que os anfitriões receberão, serão criados padrões de hospedagem. E, passado o Pan-Americano, é possível que parte dessa rede se mantenha no sistema de hospedagem bed and breakfast , continuando a atender turistas que venham à cidade — acredita o empresário, que espera ter 200 casas de Santa Teresa cadastradas no programa para os Jogos.

O fato é que a prefeitura do Rio está trabalhando, em conjunto com o Ministério do Turismo, na formulação da central de cama e café para a cidade. A idéia, adianta o vice-prefeito Otavio Leite, que coordena o programa pelo município, é que o sistema permita cadastramento e qualificação de hospedagem online.

Moradores terão como fazer uma triagem pela internet

O monitoramento dos dados também será feito pela internet. E, no cadastro, entrarão informações sobre o imóvel e as aptidões do anfitrião, se ele fala inglês ou espanhol e se receberia crianças, por exemplo.

— Além disso, queremos incluir no programa fotos dos imóveis — acrescenta Leite.

Por outro lado, o anfitrião também terá uma ficha corrida de seu hóspede. A idéia, inclusive, é de firmar um convênio com a Secretaria de Segurança do Estado, informa o vice-prefeito. Desta forma, os dados passariam pelo crivo da Polícia Civil, no caso dos brasileiros, e da Polícia Federal, dos estrangeiros:

— A idéia é oferecer o e-mail do anfitrião para o primeiro contato com o hóspede. Assim, o morador poderá fazer uma primeira triagem.

Além do aluguel de quartos, a prefeitura, em parceria com o Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos (CO-Rio), vai lançar também uma campanha de voluntariado para quem quiser hospedar as famílias dos atletas, em áreas próximas às competições, a exemplo do que foi feito com sucesso nas Olimpíadas de Sidney, na Austrália. Neste caso, entretanto, os anfitriões não recebem pagamento pela hospedagem.

— São esperados cinco mil atletas para os Jogos. Entre eles, 600 a 700 brasileiros. Obviamente nem todas as famílias de atletas virão. Mas a idéia é que, com a oferta de acomodação gratuita, aumentemos essa possibilidade de participação das famílias — diz Carlos Roberto Osório, secretário-geral do CO-Rio.

Segundo Osório, uma iniciativa semelhante foi executada, com sucesso, durante o “Encontro das Famílias” com Papa João Paulo II:

— Estou certo de que a população do Rio de Janeiro terá importância fundamental no sucesso do evento.

Cadastramento de moradia voluntária será em 2006

No caso dos voluntários, o cadastramento começará a ser feito apenas no ano que vem. Mas, se a demanda por informações no comitê organizador aumentar, diz Osório, é possível que se abra uma pré-inscrição, como foi feito para o trabalho voluntário, com posterior seleção:

— Para o trabalho voluntário, abrimos pré-inscrições e já chegamos à casa dos 30 mil, quando precisamos de 15 mil. Acredito também no sucesso da hospedagem voluntária.