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23/05/2004 | Jornal O Globo

População cai em 113 bairros do Rio até 2020

O Rio do futuro, projetado por estatísticas, terá daqui a 16 anos menos moradores em 22 das 32 Regiões Administrativas, que concentram 113 dos 157 bairros da cidade. Estudo encomendado pelo Instituto Pereira Passos (IPP) à Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), do IBGE, mostra que, à exceção da Rocinha, a Zona Sul chegará a 2020 com uma população quase um quarto menor que a de 2001. No mesmo período, o Centro perderá 47,6% de seus habitantes. As RAs da Tijuca e do Méier também minguarão 27,5% e 24,2%, respectivamente. A cidade como um todo crescerá 6,3%, passando de 5.885.191 para 6.234.509 moradores.

O ritmo frenético dos bate-estacas de hoje desenham o que será a RA da Barra. A previsão é que o número de habitantes de Barra, Recreio, Vargem Grande, Vargem Pequena, Camorim, Joá, Itanhangá e Grumari quase triplique, chegando a meio milhão em 2020. Serão 507.520 pessoas contra 185.403 em 2001 (173% a mais). Com isso, a Barra saltará do 13º para o 3º lugar no ranking das RAs mais populosas.

— Uma das razões que pode explicar o crescimento populacional dos bairros da RA da Barra é a existência de muitos espaços para ocupar. Além disso, a população tanto de classe média como de classe alta e favelada se move para locais onde há emprego e renda — diz Sérgio Besserman, diretor de Informações Geográficas do IPP.

Campo Grande continuará a região mais populosa

Mesmo com um crescimento menos acelerado, a RA de Campo Grande se mantém em primeiro lugar em número de habitantes, passando de 493.814 para 691.451 (40% a mais), de 2001 para 2020. A RA de Jacarepaguá também permanece em segundo lugar, aumentando de 475.854 para 599.016 moradores (25,9%) no mesmo período.

As projeções da Ence/IBGE têm por base os Censos de 1980, 1991 e 2000. Pelo estudo, os bairros das RAs de Botafogo, Lagoa e Copacabana terão juntos 439.404 moradores em 2020 ou 127.497 a menos que em 2001. Já a Rocinha passará de 57.678 para 87.277 habitantes (mais 51%).

— A redução da população não reflete necessariamente na melhoria da qualidade de vida. Copacabana é um bairro de passagem e de serviços, que tem uma população flutuante grande — observa o presidente da Sociedade de Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães.

Apesar das tentativas do poder público de atrair moradores para o Centro, caso se confirmem as projeções, a região chegará a 2020 com 19.836 moradores, contra 37.926 em 2001. A mesma tendência é medida para a área portuária. Mas o secretário municipal de Urbanismo e presidente do IPP, Alfredo Sirkis, está convicto de que o quadro vai mudar:

— Vamos atrair moradores para essa região. Temos três eixos com potencial: a área portuária; o corredor Lapa/Cruz Vermelha/Cidade Nova; e a Avenida Beira-Mar.

Embora o estudo não analise de onde virão as pessoas que seguirão para a região da Barra, Besserman tem uma hipótese:

— Uma das possibilidades é a de que os filhos de moradores da Zona Sul e de parte da Zona Norte optem por se mudar para esses bairros.

Para o presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Márcio Fortes, moradores da Baixada Fluminense também já têm migrado para a Barra:

— Com a Linha Amarela, ficou mais fácil para um comerciante da Baixada, por exemplo, morar na Barra.

Sirkis credita parte do crescimento da RA da Barra à expectativa gerada pelo Pan-Americano de 2007, que terá muitas quadras e a vila olímpica na região. O secretário lembra que, mesmo alcançando meio milhão, a população dessa RA continuará bem aquém daquela estimada pelo Plano Lúcio Costa, de 1967.

— Pelo Plano Lúcio Costa, a Barra chegaria ao ano 2000 com um dentre três cenários: 963 mil, 1,744 milhão ou 2,844 milhões de habitantes.

Ademi defende crescimento com infra-estrutura

Apesar de os números projetados pela Ence/IBGE estarem bem abaixo daqueles previstos por Lúcio Costa, Márcio Fortes destaca que o crescimento da região da Barra tem de ser acompanhado de infra-estrutura, especialmente de transporte e saneamento:

— Surgir uma nova Rio das Pedras é que não pode.

Consultor das associações comerciais de Recreio, Barra e Jacarepaguá, o engenheiro sanitarista Alaor Santiago lamenta que os problemas da região decorram de um equívoco:

— É que se optou primeiro por povoar e, depois, por implantar infra-estrutura.

Presidente da Comissão especial Pró-Emissário da Assembléia, o deputado Otavio Leite (PSDB) lembra que, com a conclusão das obras de saneamento da Baixada de Jacarepaguá (incluindo as complementações licitadas e em licitação), o sistema terá condições de tratar 2,8 metros cúbicos de esgoto por segundo, atendendo à população atual das RAs de Barra e Jacarepaguá (cerca de 600 mil pessoas):

— Será necessário ampliar a estação de tratamento e instalar outros cinco quilômetros de dutos até o emissário, para se tratar 5,3 metros cúbicos de esgoto por segundo e atender à população projetada para 2020.

No Recreio, a falta de pavimentação se soma à carência de transporte e saneamento. A prefeitura programou para este ano o asfaltamento de três avenidas e 23 ruas do bairro. A Associação de Moradores do Recreio entregou uma relação de mais 27 ruas e sete praças para pavimentar. Mas o número de vias com chão de terra é bem maior.

— Temos mais de 200 ruas para asfaltar. O bairro é um canteiro de obras e muitos prédios são construídos em ruas não pavimentadas — diz Cleomar Paredes, presidente da associação de moradores.

Barra (1.408 apartamentos), Jacarepaguá (880) e Recreio (874) ocupam os primeiros lugares no ranking de março de unidades imobiliárias novas disponíveis para a compra, segundo a Ademi. Só este ano foram lançadas na Barra e no Recreio 370 e 330 unidades.

Dados da Secretaria de Urbanismo também ratificam a tendência indicada pelas projeções da Ence/IBGE. Ano passado, do total de 2,3 milhões de metros quadrados licenciados para construção, 706 metros quadrados foram na região da Barra, 391 mil em Jacarepaguá e 330 mil no Recreio.