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11/08/2014 | Rádio Câmara

Problema do futebol brasileiro não é dinheiro, mas gestão, afirma especialista

Para especialistas, o Programa de Fortalecimento do Esporte (Proforte) pode ajudar os clubes de futebol brasileiros a resolver seu pior problema – a gestão antiga e ineficiente. Pelo projeto que institui o programa, aprovado em comissão especial e pronto para ser votado pelo Plenário da Câmara, para parcelar suas dívidas com o Governo Federal os times terão de modernizar seus sistemas de administração.

O texto proíbe, por exemplo, que os dirigentes recebam antecipadamente recursos previstos para períodos posteriores ao término de sua gestão. O descumprimento desta regra implicará responsabilização pessoal dos diretores.

Para o diretor da Associação Brasiliense de Cronistas Desportivos, Kleiber Beltrão, a medida é muito bem-vinda. O cronista reclama da gestão atual dos clubes e acredita que a medida irá coibir uma prática comum dos gestores:

“Os clubes de futebol não estão sendo bem geridos, são clubes que, irresponsavelmente, tiveram diretores com intuito político, quase a grande maioria se candidatou posteriormente a assumir a direção de um grande clube. Então, deixavam sempre o rombo para os que vinham a seguir.”

Além disso, o projeto torna obrigatória a publicação das demonstrações contábeis dos times de futebol na internet até o último dia de abril de cada ano. A publicação deverá seguir modelo padronizado, adotado por todas as entidades desportivas. Segundo o relator do projeto, deputado Otavio Leite (PSDB-RJ), essa medida vai dar transparência à situação financeira dos clubes:

“Vamos estabelecer um sistema único padronizado para todos com os registros contábeis e obrigar a publicação anual dessas demonstrações financeiras para que a sociedade enxergue. E uma vez padronizado, isso impedirá os escamoteamentos, as forma oblíquas contábeis que impedem enxergar a real situação financeira do clube.”

Para o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Pedro Trengrouse, essa mudança é necessária porque, não apenas a gestão dos clubes é ineficiente, como todo o modelo de organização do futebol no País é inadequado:

“O problema do futebol brasileiro não é dinheiro, o problema do futebol brasileiro é de gestão, e não é de gestão dos dirigentes, é de um modelo de gestão adequado pra essa atividade, que quando começou há cem anos atrás era uma atividade lúdica e amadora e hoje é um grande negócio.”

De acordo com o especialista da FGV, o ambiente de negócios do futebol brasileiro concentra riquezas. O professor afirma que essa concentração, além de beneficiar os clubes grandes, deixa a maior parte do dinheiro com as entidades de administração – a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e as federações estaduais.

Como exemplo dessa situação, Trengrouse cita o caso do Rio de Janeiro:

“Nós vivemos hoje um momento de CBF rica e clubes pobres, federações ricas e clubes pobres. No Rio de Janeiro, agora, no campeonato estadual, nos 120 jogos da primeira fase, os clubes tiveram um prejuízo acumulado de R$ 500 mil, enquanto a federação arrecadou, nesses mesmos jogos em que os clubes tiveram prejuízo, R$ 800 mil.’’

Como forma de obrigar as entidades desportivas a manter suas contas em ordem, a proposta também detalha as regras para a entidade manter o parcelamento das dívidas. Quem deixar de pagar até três mensalidades consecutivas será excluído do programa. Os clubes devem ainda manter em dia as dívidas correntes com tributos federais, e o pagamento de funcionários e atletas.

Entidades retiradas do programa não poderão receber benefício fiscal ou repasse de recursos públicos por dois anos.

Embora considere as medidas louváveis, o professor da FGV Pedro Trengrouse acredita que não serão suficientes para resolver o problema do futebol. O especialista sugere, por exemplo, a criação de fundações para viabilizar o financiamento das modalidades olímpicas.

“É preciso inovar, talvez criar fundações, que permitam que esses clubes busquem no poder público, através de convênios, emendas, contratos a independência necessária para que o esporte olímpico possa se viabilizar no modelo de financiamento brasileiro, que é público para o esporte olímpico e privado para o futebol.”

Uma vez que a maior parte do dinheiro do futebol fica com as confederações, Trengrouse defende também que essas entidades respondam solidariamente pelas dívidas dos clubes.

O professor da Fundação Getúlio Vargas reclama, ainda, que a CBF, que organiza os campeonatos das quatro divisões do futebol nacional, não conta com a participação de nenhum time no processo decisório. O especialista também ressalta que, hoje, a confederação nacional conta com apenas 20 clubes, do universo de 800 existentes no País.

Reportagem: Maria Neves
Edição: Mauro Ceccherini