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10/03/2008 | O Globo Online

PSDB aposta em Gabeira e inicia nova aliança visando a 2010

A sete meses das eleições municipais, o cenário no Rio de Janeiro ainda é um complicado jogo de xadrez que ganha mais uma peça importante a partir desta terça-feira, quando será lançada a pré-candidatura do deputado federal Fernando Gabeira (PV) pela Frente Rio, que reunirá, além dos verdes, o PSDB e o PPS. Diante do baixo desempenho nas pesquisas dos seus três pré-candidatos - a vereadora Andréa Gouvêa Vieira, o deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha e o deputado federal Otavio Leite - os tucanos dessa vez optaram por abrir mão de um candidato próprio e lançar outro nome com o apoio de dois partidos diferentes do seu tradicional aliado, o DEM.

Os tucanos não têm um candidato viável para a prefeitura ou o governo do estado desde 1994, quando Marcello Alencar derrotou Garotinho na disputa pelo governo do estado. Nas últimas eleições, o então candidato Eduardo Paes, hoje secretário de Turismo, Esporte e Lazer e aposta de Sérgio Cabral como candidato pelo PMDB, não conseguiu chegar ao segundo turno contra o próprio governador, que enfrentou a ex-juíza Denise Frossard (PPS).

Segundo a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), Gabeira tem 5,5% das intenções de votos, já num cenário que leva em conta a desistência do apresentador Wagner Montes (PDT), que liderava todas as pesquisas até então. O índice é quatro vezes maior do que o de Otavio Leite, o mais bem colocado entre os tucanos, com 1,4% das intenções de voto e que desistiu da disputa no domingo.

Geraldo Tadeu: PSDB já pensa nas próximas eleições

Para o diretor-presidente do IBPS, o sociólogo Geraldo Tadeu Monteiro, a opção por Gabeira representa uma perspectiva de poder mais certa do que os seus pré-candidatos atualmente e um movimento do PSDB visando às eleições de 2010, quando sonha em retomar o controle do governo federal. É isso que justifica o apoio dos governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, além do presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE) e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

- Não existe político que não pense na próxima eleição. Há um óbvio interesse em ter a prefeitura da segunda maior cidade do Brasil como aliada e o prefeito terá um peso na convenção nacional que escolherá o presidente. O envolvimento de tantos caciques do PSDB sinaliza, e eu concordo com o Cesar Maia, um posicionamento para 2010. E nesse sentido, vai acabar rompendo a aliança com o DEM - analisa Geraldo Tadeu, lembrando as dificuldades da coligação se manter em São Paulo , onde Serra quer apoiar a reeleição de Gilberto Kassab (DEM) e Alckmin almeja a sua candidatura.

Ao desistir de sua candidatura, Otavio Leite resumiu, em entrevista ao ´Globo´, que este era realmente o espírito do partido:

- Decidi em nome da unidade partidária, e atendendo ponderações de várias lideranças tucanas nacionais, diante da importância que o pleito tem esse ano para as eleições de 2010. E o PV é importante nesses projetos.

Ricardo Ismael, professor de sociologia e política da PUC-Rio, no entanto, não acredita que a aliança com o PPS e o PV possa significar um rompimento definitivo com o DEM.

- Acho que o DEM continua sendo um partido em que o PSDB vai procurar para fazer alianças. Seria uma aliança mais à direita, enquanto a união com o PPS e o PV seria mais à esquerda, dentro de uma disputa para 2010 - analisou.

Pensando em 2010, no entanto, os tucanos acabam por se enfraquecer ainda mais do ponto de vista regional.

- Em termos gerais, sempre que o partido lança um candidato próprio, cresce. Existe uma relação positiva. Portanto, quando você não tem candidato, ele enfraquece - afirma Geraldo Tadeu.

Desafio de Gabeira é superar a rejeição

Apesar do aparente sopro de novidade que surge com a pré-candidatura de Gabeira, numa futura coligação entre PSDB, PPS e PV, e na promessa do político de uma campanha limpa, sem ataques e propositiva, Geraldo Tadeu não acredita que isso vá angariar muitos votos além dos que o fizeram o deputado federal mais votado do estado.

O diretor-presidente do IBPS diz que Gabeira tem um difícil problema a superar: a rejeição. Geraldo Tadeu afirma que o deputado é rejeitado por 6,9%, sendo a terceira pior taxa, atrás apenas do senador Marcelo Crivella (PRB), que tem 17,6% e de Benedita da Silva (PT), com índice de 10,4%. O índice, ele explica, é fruto de suas propostas polêmicas como a regulamentação da prostituição, a legalização do aborto e a liberalização de drogas leves, que certamente serão explorados na campanha.

Gabeira tem uma rejeição relativamente alta e muito localizada na zona norte do Rio e na classe média-baixa

- Gabeira tem uma rejeição relativamente alta e muito localizada na zona norte do Rio e na classe média-baixa. Entre os evangélicos, 35% o rejeitam - explica. - Naturalmente que no marketing político você tem que trabalhar seus pontos positivos como querer aparecer como novidade no cenário, propor temáticas diferentes, mas esse discurso vale muito para a classe média e a intelectualidade, um público que já é dele.

Segundo Geraldo Tadeu, o eleitorado que ganha até cinco salários mínimos, que representa 67% da população, principalmente o de comunidades carentes, tem outra preocupações:

- Ele está preocupado com a violência, se o posto de saúde está funcionando, se tem professor na escola, iluminação, coleta de lixo. O eleitor pobre quer melhorias imediatas. Isso conta mais do que a abordagem.

Geraldo Tadeu diz que na zona sul, Gabeira é proporcionalmente o mais votado em todas as pesquisas, com 13,6% das intenções. Na zona norte, no entanto, o índice cai para 2,8%.

- Entre os que têm curso superior, o eleitorado dele duplica e triplica entre os que tem pós-graduação ou ganha mais de dez salários mínimos - comenta.

Apoio de Cabral será importante

O diretor-presidente do IBPS diz ainda que o apoio do governador Sérgio Cabral será muito importante nas eleições municipais. Cabral sonha em lançar Eduardo Paes, mas antes precisa convencer o PMDB, que cogita uma aliança com o DEM de Cesar Maia.

- O Cabral é a rainha neste jogo de xadrez. Ele é o grande eleitor na cidade do Rio e o único no momento que influencia positivamente o processo eleitoral. Se ele conseguir emplacar o Paes, pode fazê-lo subir nas pesquisas.

A última pesquisa do IBPS aponta Eduardo Paes na quarta posição com 11,3%. O líder Marcelo Crivella (PRB), com 18%, ganhou a maioria dos votos de Wagner Montes, segundo Geraldo Tadeu. Denise Frossard (PPS), que tem 14%, mas não deve ser candidata, e Jandira Feghali (PCdoB), com 11,9%, ocupam a segunda e a terceira colocações. Solange Amaral (DEM) vem logo atrás do secretário de Esportes e Cesar Maia, diz Tadeu, tenta formar a aliança com o PMDB e fazer a candidatura da deputada crescer na cidade para que ele possa pavimentar uma disputa pelo Senado em 2010.

- A estratégia de Cesar é de contenção. Ele usa a Solange Amaral como escudo e tenta a aliança com o PMDB para evitar que Cabral assuma um controle amplo, reduzindo seu espaço. Além disso, ele precisa deixar alguém que seja dele na prefeitura pensando que em 2010 são duas vagas no Senado. Ele tem capital suficiente para se eleger, pois apesar do desgaste, ainda tem 30% de aprovação na prefeitura.

Já Ricardo Ismael não despreza a capacidade de Cesar Maia também ser um peça influente nas eleições.

- Ele é bom de campanha. Ganhou três. O problema do prefeito é a candidata que ele escolheu. A Solange Amaral não se mostrou ser competitiva na eleição anterior e até agora também não. Já o Cabral continua sendo bem avaliado e seu apoio, unido às obras do PAC, se elas deslancharem, pode favorecer Eduardo Paes, que poderia se apresentar como o parceiro do governador - finaliza.