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02/05/2012 | Jornal Valor Econômico

PSDB tenta levar Cabral à CPI para explicar relação com Cavendish

Por Marcelo Mota |

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), pode ser convocado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga supostas irregularidades envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira. O requerimento com a proposta deve ser apresentado hoje pelo deputado federal Fernando Francischini (PSDB-PR), representante tucano na comissão mista.

Os tucanos querem que Cabral explique sua relação com o empresário Fernando Cavendish, sócio da Construtora Delta, com quem aparece em imagens feitas em viagem à França, veiculadas pelo ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PR-RJ). Na expectativa do deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ), que não é membro da CPI mas articula junto à bancada carioca do partido o movimento para que Cabral preste esclarecimentos, o requerimento deve ser votado na semana que vem.

Os trabalhos da CPI já expõem o conflito de interesses partidários. O governo e o PT, de seu lado, procuram evitar que a construtora Delta, a maior empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), se transforme em alvo principal da apuração. Com interesses comuns, o PMDB tenta montar uma estratégia para proteger Cabral,

Para o PSDB, levar o governador do Rio a depor desviaria os holofotes do governador Marconi Perillo (GO). Para conseguir, depende da repercussão das imagens que sugerem envolvimento pessoal de Cabral com o empreiteiro, a fim de convencer a maioria simples dos 32 membros da comissão mista.

"As oposições têm menos do que o necessário, mas estamos diante de um interesse maior da nação", defende Otavio Leite. Mas a questão envolve também a corrida eleitoral no Rio, governado no Estado e no Município pelo PMDB. O próprio Otavio Leite é pré-candidato à Prefeitura. Assim como a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR-RJ), filha do ex-governador, vice na chapa montada com o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), filho do ex-prefeito do Rio César Maia.

A articulação ocorre no âmbito federal porque, se na comissão mista já não é fácil obter o voto da maioria em torno da convocação de Cabral, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) o domínio do governador prevalece.

O deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) lembra que há requerimentos de abertura de uma comissão parlamentar para investigar os contratos da Delta no Estado desde o trágico acidente com o helicóptero em que estavam familiares de Cabral que regressavam da festa de aniversário de Cavendish, no sul da Bahia, em junho de 2011.

Ele acredita que, a depender da repercussão das imagens veiculadas ao longo do feriado pelo blog do Garotinho e reproduzidas pelos jornais e televisão, talvez seja possível angariar as assinaturas necessárias, mas, por ora, de concreto somente a representação que fez ao Tribunal de Contas do Estado para que audite os contratos com a Delta, iniciativa tomada em nível federal pelo partidário Otavio Leite. As imagens do blog escancaram não apenas a intimidade entre Cabral e Cavendish, como também entre o empresário e os principais integrantes da comissão nomeada pelo governador para investigar os contratos da Delta com o governo.

Na opinião do deputado federal e ex-ministro Miro Teixeira (PDT-RJ), uma CPI em âmbito estadual, "se ocorrer, será surpreendente". Assim como Cesar Maia, ele acredita que o caminho é por Brasília. O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) frisa que São Paulo se movimenta em torno de uma CPI na Assembleia Legislativa sobre os contratos com a Delta, mas não crê em um inquérito na Alerj. No âmbito federal, ele acredita que a blindagem em torno do governador do Rio vale até a eleição deste ano, para a qual a aliança com o PMDB ainda é válida. "Por mais que o presidente (Luiz Inácio) Lula (da Silva) afirme que (a aliança) será duradoura, 2014 está em aberto." (Colaboraram Rafael Rosas e Heloísa Magalhães, do Rio, e Raquel Ulhôa, de Brasília).