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11/04/2004 | Jornal O Globo

Quase 70% dos policiais não fazem exercícios regulares, mostra pesquisa

Mais de um terço dos entrevistados não pratica qualquer atividade física

Apesar de estar na moda, o verbo malhar tem sido pouco conjugado por policiais, que cada vez mais ganham formas rechonchudas semelhantes a do Sargento Garcia, personagem das histórias de Zorro. Pesquisa revela que 69,91% dos policiais militares e civis do Rio não se exercitam ou praticam atividade física abaixo do mínimo recomendado por médicos. Um contraste com os guardas municipais, sobretudo os lotados no Grupo Especial de Praia.

Na pesquisa, feita pelo gabinete do deputado Otavio Leite (PSDB), foram ouvidos 329 policiais militares e civis. Do total, 36,17% não fazem qualquer exercício. Outros 33,74% se exercitam até duas vezes por semana. Só 30,09% malham três ou mais vezes na semana.

Um dos responsáveis pelo controle do trânsito no Castelo, o sargento Hélio Antônio Araújo está entre os que aboliram a malhação de sua rotina, por falta de tempo até para acompanhar o grupo do BPtran que às terças e quintas-feiras faz caminhada no Aterro.

Quando ingressou na PM, há 22 anos, Hélio pesava 78 quilos. Hoje tem 120 quilos, parte adquirida por conta de um distúrbio de tireóide. O sargento assegura, porém, que o excesso de gordura não atrapalha o seu trabalho:

— Não sou um gordo mole. Tenho elasticidade. No último ano, dei oito flagrantes.

Médico: policiais devem correr e fazer musculação

Também com 120 quilos, o delegado-adjunto da Divisão Anti-Seqüestros (DAS), José Augusto Pereira, diz que começou a engordar quando se casou, em 1982. Em abril do ano seguinte, entrou para a polícia.

— Em 94, estava com mais de cem quilos e consegui passar no teste físico para delegado, que teve corrida e salto a distância. Fiz um treinamento de três meses e meio — lembra.

Para o médico Cláudio Gil Araújo, especializado em medicina do exercício, o homem comum deve fazer atividade física pelo menos três vezes por semana. Os policiais, acrescenta ele, que muitas vezes dependem de destreza para o desempenho profissional, devem se exercitar diariamente:

— Correr todos os dias é excelente. Fazer musculação três vezes por semana também é fundamental.

Um projeto de lei apresentado por Otavio Leite considera de especial interesse para o estado a prática regular de atividades físicas e desportivas por policiais e bombeiros, e autoriza o estado a fazer convênios com academias e clubes. Segundo o diretor da Acadepol, Sergio Caldas, já existe uma proposta com o secretário de Segurança, Anthony Garotinho, para firmar convênios com academias:

— Creio que haveria interessados. Na Acadepol, temos cursos de investigação e operacionais. O de progressão em área de risco, que inclui aulas de educação física, tem mais de 700 pessoas esperando vaga.

Para entrar na polícia, é preciso passar em teste físico. Depois de seis meses de treinamento, o policial é efetivado e os exercícios deixam de ser obrigatórios, a exceção daqueles lotados em unidades especiais, como o Bope e a Core.

— Os batalhões oferecem educação física e eventos esportivos. Mas sentimos dificuldade para incentivar a tropa. O povo não tem a educação para a prática de exercícios — lamenta o coronel Adalberto de Souza Rabelo, subdiretor de Ensino da PM.

PM quer criar escola de educação física

Rabelo espera que o quadro melhore com a criação da Escola de Educação Física da PM, sugerida a Garotinho. A idéia é que os PMs, com um rodízio de batalhões, façam testes. Os reprovados passariam por recondicionamento físico.

Já o presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM, Vandelei Ribeiro, defende outras medidas:

— Os baixos salários levam o policial para o segundo emprego e ele não tem tempo para exercícios. A alimentação nos quartéis também é muito calórica. Além disso, o PM lida com violência e não tem acompanhamento psicológico. O estresse faz com que ele coma mais.