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27/04/2004 | Jornal O Globo

Sai Frossard, entra Maia

O PSDB do Rio está caminhando para acertar uma aliança com o PFL para apoiar a candidatura do prefeito Cesar Maia à reeleição, desistindo da tese da candidatura própria, que já tinha até nome escolhido, a deputada federal Denise Frossard. O primeiro passo para a aliança foi dado neste fim de semana, quando o ex-governador Marcello Alencar, presidente estadual do PSDB, teve um encontro com o prefeito Cesar Maia, o favorito disparado nas pesquisas eleitorais.

Antes, Alencar já comunicara formalmente ao presidente nacional do PSDB, José Serra, que o partido caminhava para uma mudança de planos. E reunira, no feriado da semana passada, seus principais quadros políticos para acertar a estratégia.

A alegação oficial é a ampliação da aliança nacional com o PFL, diante da federalização das eleições municipais. A razão para que essa “visão nacional” tenha prevalecido, no entanto, nada tem a ver com mudanças do quadro político, mas com divergências pessoais e políticas.

Entre a candidata em potencial, deputada federal Denise Frossard, e a cúpula tucana no Rio, notadamente o ex-governador Marcello Alencar e o presidente do diretório municipal, o deputado estadual Otavio Leite, que chegou a disputar com Denise a indicação e acabou figurando como vice na chapa que teoricamente seria referendada na convenção de junho próximo.

Leite, no entanto, nunca se conformou em ter sido preterido por Frossard e, no final do ano passado, a pretexto de mensagem de fim de ano, enviou a todos os filiados ao partido uma carta na qual lembrava que a decisão final sobre a candidatura do PSDB à prefeitura só seria tomada na convenção do partido, sob seu comando.

Era um recado de que a disputa estava em andamento nos bastidores, e a reação do grupo da deputada federal Denise Frossard foi radical. Seu principal assessor, Jackson Vasconcelos, enviou uma violenta carta a Otavio Leite, desqualificando sua pretensão de ser o comandante do processo eleitoral, e com ataques à sua atuação como parlamentar.

Cópias da carta foram enviadas a todos os convencionais e distribuídas pela internet, o que provocou uma crise interna séria no diretório estadual. Jackson Vasconcelos, que era membro do diretório, foi destituído do cargo de primeiro vogal, e o ex-governador Marcello Alencar pressionou Frossard a retirá-lo da campanha. Também surgiram no partido dossiês contra Jackson Vasconcelos, com acusações de supostas falcatruas no INSS.

Na conversa que teve com a deputada Denise Frossard, o ex-governador Marcello Alencar disse que ela seria “muito cobrada” durante a campanha caso mantivesse Jackson Vasconcelos no comando de sua campanha. Existem pelo menos duas versões para esse diálogo, mas a conclusão é sempre uma: Denise Frossard, em defesa de seu assessor, fez referências aos filhos do governador Marcello Alencar.

Numa das versões, Frossard teria dito que já era muito cobrada por causa dos filhos de Alencar. Na outra versão, o ex-governador teria insinuado que estariam ocorrendo “maledicências” sobre o assessor de Frossard que, em resposta, disse que também já ouvira muitas “maledicências” sobre os seus filhos.

O fato é que, a partir dos desdobramentos da disputa interna do PSDB, e do agravamento da crise política nacional, abriu-se espaço para os que sempre defenderam uma aliança com o PFL para a reeleição do prefeito Cesar Maia. Um defensor de primeira hora dessa união, o deputado federal Ronaldo Cezar Coelho, participou do governo Cesar Maia como secretário de saúde e desincompatibilizou-se no aguardo de vir a ser o vice-prefeito numa chapa de coalizão.

Mais uma vez, porém, as disputas internas devem levar a outra escolha. Depois de ter rejeitado a aliança com o PFL — que era um desejo do comando nacional do partido — e lançado a candidatura de Denise Frossard, o ex-governador Marcello Alencar agora quer apontar um candidato a vice de sua confiança: o deputado estadual Luiz Paulo.

Escolher Ronaldo Cezar Coelho, como seria natural diante de sua posição pioneira dentro do partido a favor da aliança, e do prestígio que tem junto ao diretório nacional, seria colocar na chapa um candidato da confiança de Cesar Maia, e não de Alencar.

Mas será preciso também superar a resistência do deputado Otavio Leite, que tem grande influência na convenção e já é o vice , embora a contragosto, de Denise Frossard. E será preciso, acima de tudo, superar a resistência da própria juíza Frossard, que não está disposta a abrir mão de sua indicação, embora ainda seja preciso que a convenção estadual a confirme.

A candidatura de Denise Frossard, embora não apareça com grandes chances nas pesquisas de opinião, tem um potencial que cresce à medida que os problemas de segurança no Rio de Janeiro se agravam.

A direção nacional do PSDB não interferiu quando o partido decidiu partir para uma candidatura própria, mesmo sendo favorável à aliança com o PFL. E não interferirá agora, que a situação está mudando.

Fortalecer uma aliança com o PFL onde for possível parece ser a estratégia mais acertada, no momento em que as eleições municipais caminham para se transformar em um plebiscito sobre o governo federal, que terá o deputado federal Jorge Bittar como candidato.

Ao mesmo tempo, derrotar o candidato do grupo de Garotinho é também preocupação do PSDB. Esse entroncamento de interesses parece indicar que, embora a aliança seja a melhor solução, ela deverá ser costurada com delicadeza.

Ninguém no PSDB quer criar atritos com uma deputada de 400 mil votos. E também ninguém quer parecer que está abrindo mão do combate à violência e à corrupção, num Estado onde esses problemas ganham dimensões alarmantes. Uma mudança de planos que jogue a juíza Frossard no colo do PT, por exemplo, seria desastroso para os planos do PSDB.