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14/10/2007 | Jornal O Globo

Saneamento básico, o sonho

Seis meses após inauguração de emissário, praia e lagoas da Barra não têm melhorias

Seis meses depois da inauguração do emissário submarino da Barra, o sonho de ver o mar e as lagoas limpos ainda pode ter de esperar muitos verões. Análises da Feema revelam que não houve melhorias na qualidade da água no Quebra-Mar — trecho mais poluído da praia — e nas lagoas de Camorim, da Tijuca, Jacarepaguá e Marapendi depois que o sistema entrou em operação. Segundo a Cedae, o emissário lança hoje, a cinco quilômetros da costa, de 600 a 800 litros por segundo de esgoto sem tratamento, o que corresponde a até 25% da carga orgânica gerada na região. Atualmente o estado não dispõe de qualquer estudo científico que aponte quando a obra, que levou quase 30 anos para sair do papel e já consumiu R$324 milhões, conseguirá melhorar os indicadores ambientais.

Para o presidente da Cedae, Wagner Victer, os resultados apresentados até agora são normais, uma vez que as lagoas ficaram décadas recebendo esgoto in natura — o emissário foi inaugurado em 10 de abril:

— Não é nossa competência o processo de despoluição — diz Victer. — Mas esse resultado é natural. Mesmo tirando toda aquela carga orgânica das lagoas, ela ainda ficaria vazando na mudança das marés.

Coppe: água deveria ter melhorado

A Feema realizou apenas três análises nas lagoas da região desde a inauguração do emissário. Diante da falta de estudos sobre o assunto, o presidente do órgão, Axel Grael, estima que a praia e as lagoas apresentem melhorias em cerca de cinco anos:

— O período seria equivalente a cinco ciclos hidrológicos, que limpam a bacia. Mas isso só ocorrerá se a coleta de esgoto aumentar.

A Cedae ainda não tem uma estimativa de quando isso acontecerá. Para aumentar a vazão do emissário, Victer espera concluir a elevatória de Marapendi até fevereiro. Com ela, será possível lançar no emissário o esgoto dos 50 maiores condomínios da Barra, mas a captação não será imediata, já que as ligações à rede ficarão a cargo dos moradores.

Já o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, aposta que até o fim do verão o trecho da praia entre o Quebra-Mar e o Pepê — o mais influenciado pela poluição das lagoas — apresentará melhorias:

— Com a conclusão das obras da estação de tratamento do Arroio Fundo pela prefeitura e o aumento da carga do emissário para 1.400 litros por segundo, a praia vai melhorar.

Para a professora Márcia Dezotti, do Laboratório de Controle de Poluição das Águas da Coppe/UFRJ, esses resultados já deveriam estar aparecendo. Segundo ela, especialista em tratamento de efluentes, é preciso buscar explicações:

- Seis meses não são tão pouco tempo assim. Se não melhorou, ou é porque a carga lançada no emissário é menor que a informada ou porque o esgoto despejado nas lagoas é muito maior do que o calculado, talvez devido a ligações clandestinas.

O advogado Rogério Zouein, especialista em direito ambiental e morador da Barra, vai mais longe. Para ele, a Cedae subestima o tamanho da população informal, que lança esgoto nas lagoas, rios e canais da região.

— O crescimento é tão vertiginoso que qualquer estatística já estaria defasada. Toda semana vejo dezenas de casas sendo construídas em comunidades como Muzema e Tijuquinha. Assim, o emissário não terá efeito.

A ocupação irregular das margens das lagoas tem se intensificado nas últimas décadas. Segundo um estudo do Instituto Pereira Passos (IPP), na Área de Planejamento 4 (Jacarepaguá, Barra da Tijuca e Cidade de Deus), a população de favelas dobrou entre 1991 e 2000. Na Barra, o crescimento foi de 10% ao ano. Em relação à população total, a região também crescerá bastante. Segundo projeções do IPP, o número de moradores da Barra deve duplicar até 2020.

Custo já é 4 vezes maior que o previsto

A pesquisadora do Instituto de Biofísica da UFRJ Sandra Azevedo sustenta que a concentração de esgoto é tão alta nas lagoas que, para alguns parâmetros, os resultados demorarão a aparecer:

— Análises que estão sendo feitas pelo laboratório indicam o predomínio da Microcystis aeruginosa, a já conhecida cianobactéria tóxica. Teremos problemas no próximo verão, mas isso não é novidade, né?

Uma visita às lagoas quinta-feira confirmou o diagnóstico. Elas estavam tomadas por um caldo verde característico da presença das cianobactérias. A microcistina (toxina liberada pela Microcystis) tem gerado alertas da Organização Mundial de Saúde. Ela se prolifera em ambientes com alta concentração de esgoto.

O programa de saneamento da região está orçado hoje em R$518 milhões, quatro vezes mais do que o previsto (R$118 milhões). Para terminá-lo, ainda faltam R$194 milhões. Por enquanto, não há previsão de quando as obras serão concluídas. Em 25 de setembro, o Tribunal de Contas do Estado solicitou ao presidente da Cedae que informe, em 30 dias, as providências para concluir as obras e apresente o cronograma físico-financeiro.

— O cidadão tem o direito de saber como os recursos públicos estão sendo empregados. Logo, o cronograma físico-financeiro não pode ser sonegado à população — afirma o deputado federal Otavio Leite (PSDB), ex-integrante da Comissão Pró-Emissário.