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17/12/2013 | Jornal O Globo on line

Seis meses após o início dos protestos de rua, ainda há agendas por cumprir

Por Bárbara Marcolini

RIO - Há exatos seis meses, cerca de 240 mil pessoas tomaram as ruas do país, em um movimento que deixaria o mês de junho de 2013 marcado na História recente do Brasil. Só no Rio, 100 mil manifestantes coloriram a Avenida Rio Branco, da Candelária até a Cinelândia, com cartazes e palavras de ordem. Seis meses mais tarde, o país ainda vive reflexos da onda de protestos desencadeada a partir de então, e se pergunta a que mudanças concretas as jornadas de junho levaram. Políticos, pesquisadores e manifestantes concordam que a demonstração, nas ruas, das insatisfações populares ajudaram no amadurecimento da democracia brasileira, mas lembram que 2014 será o ano de oferecer soluções concretas.

Estopim para a onda de manifestações, as passagens de ônibus foram reduzidas, ou não tiveram os aumentos previstos, na maioria das capitais brasileiras. O transporte público, entretanto, continua devendo.

Para o urbanista Carlos Vainer, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), problemas crônicos do setor no Brasil continuam sem solução, e a falta de vontade política em realizar mudanças profundas pode levar a novas ondas de insatisfação. Vainer ressalta, ainda, que boa parte das obras de mobilidade urbana visando à Copa do Mundo e às Olimpíadas não trará benefícios reais para a maioria da população.

- No Rio, 80% da demanda por transporte público estão na Zona Norte, na Baixada e na Grande Niterói, mas os investimentos se concentram na Zona Oeste, onde há latifúndios urbanos vazios. Isso vai de encontro à lógica do investimento em transporte - alerta Vainer, que não concorda com a ideia de que a população que saiu às ruas tenha perdido o interesse na política. - No rastro das manifestações centenas de jovens despertaram para a vida política e pública, embora sem grandes esperanças nos partidos. São jovens fortemente políticos, mas ao mesmo tempo fortemente criticos à política.

Protagonista das primeiras demonstrações contra o aumento das passagens de ônibus, o Movimento Passe Livre (MPL) deixou as grandes manifestações para se concentrar em causas locais. Marcelo Hotimsky, integrante do movimento que reivindica o transporte público gratuito, explica que o grupo continua atuando junto às populações de bairros carentes e das periferias das grandes cidades, mas sem pretensões político-partidárias. Para o militante, além da revogação do aumento das passagens de ônibus, os protestos de junho serviram para reforçar o sentimento de cidadania.

- O maior saldo foi o empoderamento das pessoas em relação à cidade. Não que não existissem problemas antes de junho, mas o que a gente viu no país foi a construção de um clima em que as pessoas se sentem sujeitos da cidade. A partir daí, a gente viu uma série de manifestações com reivindicações diversas. Foram beneficiados desde grupos de sem-teto até a população do bairro de São Matheus, na Zona Leste de São Paulo, que conseguiu reverter o corte de linhas da região.

Autor do livro “As ruas e a democracia”, o professor de teoria política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Marco Aurélio Nogueira acredita que os protestos de junho serviram como uma preparação para mudanças maiores na sociedade brasileira. Nogueira afirma que ainda é cedo para afirmar quando essas mudanças ocorrerão e culpa a falta de organizações políticas capazes de absorver a população que foi às ruas pelo posterior recuo das manifestações.

- Faltaram pontes que levassem as vozes das ruas ao plano do Estado. Se essas pontes, que são basicamente organizações políticas, não aparecerem, as manifestações vão acontecer como espasmos, o que não é produtivo - aponta Nogueira, que classifica o silêncio do Congresso desde o recuo das manifestações como “escandaloso” - O processo legislativo é seguramente mais demorado, mas a classe política brasileira tem se mostrado muito inferior ao que a nossa sociedade merece. O Congresso demonstra falta de inteligência política e de respeito com os problemas do país. Ele parece caminhar de costas para a sociedade.

Com as eleições de 2014 a caminho, Nogueira sugere que o pleito terá algumas novidades. Além de uma candidatura que usa o discurso da “terceira via”, a população pode demonstrar maior interesse pelo debate político e forçar uma mudança na postura dos demais candidatos. Por outro lado, o cientista político teme uma ligação entre junho de 2013 e outubro de 2014, com uma enxurrada de votos nulos e brancos.

Para o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), a previsão é de que muitas pautas fiquem emperradas em meio à Copa do Mundo e a campanha política. Novas manifestações não serão uma surpresa, garante:

- Há um certo alívio no Congresso com a diminuição da intensidade das manifestações. Os parlamentares não estão inteiramente à vontade para fazer coisas que são visivelmente inadequadas. É um alívio, mas com um certo temor do recrudescimento desses movimentos - avalia.

Para Alencar, as manifestações de junho tiveram como saldo a organização das pessoas e a redescoberta da sua capacidade de reivindicar, mas também revelaram a inabilidade do poder público em lidar com essas demonstrações de insatisfação. O deputado ressalta a falta de preparo da polícia, e lembra que 2014 será o ano de oferecer propostas ao povo.

- Educação, saúde, mobilidade urbana, segurança pública e reforma política estarão na agenda da campanha. As pautas já foram dadas pela população, os candidatos vão ter que dar respostas a elas.

Para o deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ), o desafio agora é encontrar propostas que contemplem os anseios da população e as contas da União.

- A insatisfação demonstrada nas ruas deve convergir para uma discussão madura e concreta entre os nossos sonhos e a realidade - afirma ele. - Os protestos são legítimos e muitas vezes necessários, desde que não haja depredação. Agora, é preciso encontrar um caminho de respostas viáveis e factíveis.