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27/04/2004 | Jornal O Globo

Ser legal agora vale nota

O currículo de algumas escolas do Rio acaba de ganhar mais uma disciplina: trabalho voluntário. Assim os estudantes ficam obrigados a participar de projetos sociais indicados pelos colégios. A novidade, que até já vale nota num colégio em São Paulo, pode render descontos nas mensalidades e atinge alunos dos ensinos fundamental e médio.

A maioria dos estudantes aprova a iniciativa, mas há quem não ache a idéia tão legal: segundo especialistas, o barato do voluntariado é ser espontâneo.

NA escola Alemã Corcovado, os alunos de 2º e 3º ano do ensino médio terão de cumprir 40 horas anuais de trabalho social a partir de maio. Para o colégio, o voluntariado é um pré-requisito para o mercado de trabalho, que valoriza quem tem facilidade de adaptação e de conviver em grupo.

Na Corcovado, os alunos acham que o voluntariado pode ajudá-los a conhecer a vida real.

- Somos privilegiados, vivemos numa ilusão.

Se a escola não obriga, muita gente não conhece o outro lado. Todos têm que ajudar, mesmo que depois decidam não fazer mais nada - diz Yuri Brersh, de 16 anos, do 2º ano da Corcovado, que participa de um projeto da escola com a Casa das Meninas, de Nova Iguaçu. - Organizamos bazares para vender o artesanato feito por elas.

Em São Paulo, a Escola Lourenço Cstanho inclui o voluntariado no currículo e foi além: a disciplina vale nota para os alunos do ensino médio.

Segundo o colégio, os alunos têm consciência de que o projeto não é assistencialista. O que importa para eles é a troca de experiências. No Rio, o Colégio Mopi só deu bolsas de estudos aos alunos do ensino médio que aceitaram ser voluntários em instituições cadastradas pela escola. Felipe Bastos e Georgia de Oliveira optaram pela Associação Saúde Criança Renascer, que dá assistência às crianças do Hospital da Lagoa.

- Sempre quis ser voluntário, mas não sabia como. Agora ajudo na recreação das crianças uma vez por semana, duas horas por dia - diz Felipe, de 16 anos, aluno do 2º ano.

Patrícia Magalhães, coordenadora de serviços comunitários da Escola Americana, diz que os alunos de classe média só têm a ganhar com atividades solidárias. No colégio, há cinco anos os alunos de ensino médio são obrigados a cumprir seis horas anuais de voluntariado.

- O adolescente nem sempre sabe que gosta de ajudar. Precisa ter contato com outra realidade, descobrir que o garoto pobre gosta da mesma música que ele - diz Patrícia.

Aluna do 3º da Americana, Ana Carolina Campos conta que dedica muito mais do que seis horas por ano ao voluntariado. Ela dá aula de inglês para uma menina da Rocinha e visita um orfanato e uma creche uma vez por semana.

- Ano passado trabalhei numa creche comunitária em São Paulo. Havia crianças doentes. Soube depois que uma morreu, mas graças ao voluntariado muitas se salvaram - conta Ana, de 18 anos, a vestibulanda de psicologia.

Iniciativas como a de Ana Carolina são louváveis, segundo Bruno Ayres, coordenador do Portal do Voluntário. Mas ele não acha certo tornar o voluntariado obrigatório.

- Muitas vezes o jovem quer ajudar, mas não sabe como. Por isso a escola deve incentivar, não impor. O voluntariado é espontâneo.

Na contramão do sugerido por Bruno, uma lei que obriga alunos da Uerj e da Uenf a prestarem serviço social, de autoria do deputado estadual Otavio Leite (PSDB), acaba ser aprovada na Assembléia Legislativa do Rio. A reitoria da Uerj é contra, alega que a decisão fere a autonomia da universidade, ma Leite defende sua idéia:

- A cada ano o individualismo se fortalece. A lei ajuda os estudantes a desenvolverem uma consciência social. A fiscalização cabe à Uerj.