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19/01/2014 | Jornal Folha de São Paulo

Sites farão 'vaquinha' para compra de empresas

Por Felipe Gutierrez

Grupos de empresários brasileiros se movimentam para, no futuro próximo, lançar plataformas de "crowdfunding" (financiamento coletivo) para vender fatias de pequenas empresas.

Sites como empreenda.vc, eusocio.com.br, brootabrasil.co e startmeup.com.br têm planos de permitir que investidores comprem participações nesse tipo de negócio (por enquanto, usa-se o nome "equity crowdfunding" para o modelo).

Adolfo Melito, diretor de economia criativa da Fecomércio-SP, é um dos que estão trabalhando para colocar uma plataforma no ar. Ele conta que, apesar de não haver nenhuma plataforma de "equity crowdfunding", o movimento em torno disso se intensificou no primeiro semestre do ano passado, em uma palestra na escola de direito da FGV de São Paulo.

O site CrowdCube, da Inglaterra, é o principal modelo que os brasileiros miram.

A Tidy Books, uma fabricante de estantes para livros infantis da Inglaterra, usou a ferramenta para fazer uma "oferta de ações".

A empresa queria 75 mil libras (R$ 291 mil) e, para isso, resolveu vender 12,58% da titularidade. Para isso, fez um vídeo apresentando a empresa, explicaram os termos do investimento e colocou o projeto no ar.

"Escolhemos esse modelo para alcançar uma gama maior de investidores e embaixadores'", diz Ruth Duncan, gerente de marketing da Tidy Books.

É possível ser sócio da empresa com 100 libras (R$ 387), mas quem aportar mais de 10 mil libras (R$ 38,7 mil) terá ações com direito a voto.

Deu certo: até o momento, 113 investidores colocaram um total de 117 mil libras (R$ 453 mil).

Um dos empreendedores por trás do eusocio.com.br, João Falcão, 35, explica que, quando o site começar a servir de plataforma para os projetos, ficará com uma porcentagem do dinheiro levantado --será entre 5% e 10%.

Ele diz estar em conversas com cinco start-ups (empresas iniciantes de negócios tecnológicos) para preparar termos de investimento e as apresentações em vídeo.

"Tem um montante considerável de recursos que, hoje, não faz parte do ecossistema do empreendedorismo no Brasil. São coordenadores, gerentes de multinacionais, uma massa de executivos com conhecimento de mercado de capitais, que têm noção de risco e teria prazer em investir em start-ups", afirma. "Mas, até agora, eles não têm por onde começar."

Para Cássio Spina, presidente do grupo Anjos do Brasil, ainda vai demorar até que empresas financiadas por esse tipo de plataforma prosperem.

"Se quem for investir [em plataformas coletivas] estiver preparado para o longo prazo, acho ótimo."

Dilema de plataforma é mostrar riscos do negócio para investidor

A discussão que as agências regulatórias travam sobre o "equity crowdfunding" é qual o grau de consciência do investidor sobre o risco que ele assume ao se tornar sócio de uma empresa iniciante. Isso acontece no Brasil e em países em que o sistema já funciona.

"Todo mundo acha meritório facilitar o acesso de pequenos negócios ao capital de terceiros. Mas é preciso lembrar que são negócios que, muitas vezes, estão em fase incipiente e, por isso, de risco maior", afirma Gustavo Machado Gonzalez, chefe de gabinete da presidência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

"O público investidor pode não estar acostumado a esse tipo de operação. Como saber se o nível de informação é adequado e se eles entendem o risco?"

Apesar de ser um valor mobiliário --portanto, sujeito a regras da CVM-- a participação societária que é ofertada pela internet está dispensada das normas.

Segundo Gonzales, a dispensa acontece só em casos em que a pessoa jurídica é uma microempresa ou empresa de pequeno porte. Há um teto para captações (R$ 2,4 milhões por ano).

O que trava, até o momento, as plataformas de oferta societária na web é o estatuto da micro e pequena empresa. Por ele, pessoas jurídicas não podem ser sócias.

LEGISLAÇÃO

Há projetos para alterar essa regra, no entanto. O deputado Otavio Leite (PSDB-RJ) tem um projeto de lei apresentado no ano passado para permitir que pessoas jurídicas possam ser sócias de micro e pequenas empresas.

"Elas poderão receber investidores em capital, seja de pessoas físicas ou jurídicas", afirma o deputado.

Pelo projeto, o contribuinte que adquirir cota de empresa disponibilizada na internet poderá deduzir do Imposto de Renda o equivalente a 10% do que foi investido.

E, segundo o ministro Guilherme Afif Domingos, da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, em março deve ir a plenário na Câmara uma modificação na lei do Simples (um regime diferenciado de cobrança de impostos) para que empresas constituídas como S.A. (sociedade anônima) possam ser enquadradas nesse regime tributário.

Uma S.A. tem mais potencial para ter vários sócios e ter alterações no seu contrato do que uma empresa limitada.

Redes para empreendedores estimulam investimento

Sites, listas e fóruns na web para investidores e empreendedores se diversificaram.

Antes, esses endereços serviam apenas como locais de discussão, mas hoje há diferentes modelos.

A AngelList, uma das redes mais conhecidas, trouxe como novidade os investimentos sindicalizados.

Por eles, um investidor, que pode ser tanto uma pessoa física como um fundo, forma um grupo e os outros podem apoiá-lo. Assim, quando o líder decide apostar em uma empresa, pode ser seguido.

A OnTheGo Platforms, que desenvolve óculos com pequenos computadores embutidos ("smartglasses") conseguiu US$ 330 mil em um aporte liderado pelo fundo Foundry, que formou um grupo pelo site.

Ryan Fink, fundador da empresa, diz ter sido poupado de convencer investidores um a um porque uma entidade reconhecida fez isso por eles. "Agora temos um exército de investidores mundo afora que nos apoia e quer que a gente tenha sucesso, o que me faz sentir bem."

O Foundry fez um aporte de US$ 50 mil e o resto veio de quem o apoiou (com até mesmo US$ 1 mil). Quando os apoiadores venderem suas porcentagens, precisarão pagar 20% do que lucrarem.

Já o TrustedInsight.com serve para investidores trocarem figurinhas e tem 77 mil membros. O fundador do site Alex Bangash diz que a página é para quem colocou dinheiro em ativos pouco líquidos, como empresas de capital fechado, terrenos etc.

"São investimentos sem cotações diárias. Pelo site, pode-se achar um expert que terá uma boa noção de valor de start-ups da Ásia ou de fazendas do Brasil", diz.

O Mattermark.com avalia empresas de tecnologia e, para isso, usa algoritmos e grande quantidade de dados dispersos na web.

No Brasil não há nada semelhante, diz Bedy Yang, do grupo 500 Startups. Para ela, o número de pessoas dispostas a apostar em start-ups ainda é pequeno.

COMO FUNCIONA O CROWDCUBE

- É preciso se inscrever como empreendedor ou investidor

- Quem opta por ser investidor diz que compreende os riscos das operações

- Há vídeos com apresentações e textos falando sobre as empresas

- Cada negócio tem seus termos; se a meta não for atingida, o dinheiro é devolvido