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29/05/2014 | Agência Senado

Sustentabilidade do futebol depende de fair play financeiro e novo calendário, apontam debatedores

Por Rodrigo Baptista

Os rumos do futebol brasileiro foram debatidos nesta quinta-feira (29), no Senado, em audiência pública interativa promovida pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE). Mudanças no calendário e a adoção do fair play financeiro são algumas dos pontos que, conforme os debatedores, precisam ser encarados para garantir a sustentabilidade do esporte profissional no país.

A questão do fair play financeiro (ou “jogo limpo financeiro”) foi o ponto central do debate. Trata-se de um sistema de controle das finanças que obriga os clubes a gastarem apenas o que arrecadam.

Nos últimos 5 anos, apesar do crescimento das receitas dos principais clubes brasileiros, as dívidas dos clubes aumentaram em 90%, de acordo com o Bom Senso F.C., movimento que reúne 1,2 mil atletas profissionais e que propõe mudanças para melhorar as condições de trabalho dos profissionais de futebol. Conforme dados apresentados por representantes da organização, as dívidas dos clubes somam hoje R$ 5,3 bilhões.

Esse alto índice de inadimplência e de endividamento está levando os clubes não só a uma situação de risco e enormes dificuldades de gestão, como também afasta empresas e os patrocinadores do futebol. Como consequência, são comuns atrasos de salários e o não pagamento de dívidas trabalhistas.

— Tem que ser criada uma regulação quanto a isso. O refinanciamento das dívidas dos clubes sem contrapartidas vai fazer com isso vire uma bola de neve de novo – disse o goleiro do Palmeiras Fernando Prass, representante do Bom Senso F.C. presente ao debate.

Marco zero

Um dos caminhos apontados é a aprovação de uma lei de responsabilidade fiscal para o esporte, com refinanciamento das dividas dos clubes. A ideia já foi encampada pelo deputado Otavio Leite (PSDB-RJ), que é relator na Câmara do projeto de lei que cria o Proforte (PL 6.753/2013). Ele anunciou que apresentará novo texto à comissão especial que analisa o assunto para tornar obrigatório, por exemplo, que clubes e entidades esportivas apresentem certidões negativas de débitos com a União para poderem participar de competições oficiais.

A questão foi levantada primeiramente pelo presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, que é também líder da Comissão de Clubes formada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Segundo ele, essa lei pode representar um novo marco zero para o futebol brasileiro.

— O interesse dos clubes é muito próximo ao dos jogadores de futebol. Esse marco regulatório representa uma mudança substancial no futebol brasileiro – disse o dirigente.

Os debatedores enfatizaram que é preciso que essa lei contenha a responsabilização de dirigentes por irregularidades na gestão financeira para proibir o endividamento desordenado de clubes e federações esportivas. Também ressaltaram a necessidade de que a lei preveja punições progressivas, culminando com o rebaixamento da equipe para uma divisão inferior.

— Não se pode falar em financiamento se não aliarmos contrapartida dos clubes quanto à gestão e governança e que esse compromisso conste do regulamento das competições organizadas pela CBF- disse Sérgio Gomes Velloso, do Ministério do Esporte.

O goleiro Fernando Prass concordou e disse que sem punições severas, o risco é que as dívidas nunca sejam pagas.

— Tem que ter a responsabilização dos dirigentes, do contrário, no primeiro tropeço dentro de campo o planejamento vai todo por água abaixo e os clubes começam a gastar mais do que podem em contratações e salários – avaliou o atleta.

Calendário

Outro ponto largamente debatido durante a audiência pública foi a proposta do Bom Senso F.C para mudanças no calendário do futebol. Os jogadores profissionais defendem o aumento na quantidade de jogos para os ditos clubes pequenos e a diminuição do número de partidas dos grandes clubes. Eles também reivindicam a garantia de férias para os atletas e período adequado de pré-temporada.

Segundo Fernando Prass, cerca de 16 mil recebem menos de 2 salários mínimos e ficam desempregados ao final dos estaduais por falta de um calendário mais democrático e inclusivo. Em contrapartida, os times da elite podem jogar até 85 jogos em uma mesma temporada.

Este desequilíbrio cria dificuldade para os clubes de menor expressão se estruturarem, se desenvolverem e se tornarem economicamente auto suficientes ao mesmo tempo em que os grandes clubes do país sofram com o alto índice de lesões de seus atletas.

O dirigente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, admitiu que os campeonatos estaduais são hoje deficitários e representam prejuízo para os clubes. Segundo ele, a definição de um novo calendário é complexa e deve ser pensada a médio e longo prazo, além de contar com a participação conjunta de jogadores, CBF, clube, patrocinadores e as emissoras de televisão.

— Não podemos estabelecer essa regra sem definir quem vai pagar a conta. A televisão investe em torno de 2 bilhões ao ano no futebol. Essa definição tem que estudar também esse aspecto da solução de como fazer essa parte financeira – ponderou.

Modelo

Os jogadores também estão preocupados com a violência nos estádios, os preços dos ingressos e os horários das partidas, que segundo os representantes do Bom Senso F.C., têm afastado o público dos estádios. O Brasil ocupa atualmente a 18º posição no ranking de média de público nos estádios, ficando atrás de países sem tradição no futebol como Austrália e Estados Unidos.

O jornalista esportivo Mauro Cezar Pereira, da ESPN, aponta o modelo inglês como um dos caminhos para voltar a tornar o futebol atrativo no Brasil. A Premier League, criada na Inglaterra em 1992, é hoje o campeonato mais rico do mundo e conta com oito divisões, incluindo competições regionais que garantem que os clubes de menor expressão se mantenham em atividade durante todo o ano.

— A média de público da Inglaterra é mais do que o dobro da Série A brasileira. É preciso criar meios de voltar a atrair o público aos estádios – acrescentou o jornalista ao comparar a realidade do futebol nos dois países.