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16/06/2003 | Jornal O Globo

Tom Jobim, um aeroporto que voa baixo

Com 2/3 da capacidade ociosos, movimento de passageiros retrocede ao que era há 23 anos

Corredores vazios, paredes bloqueando trechos desativados ou sequer abertos, lojas fechadas e pistas vazias. Este é o cenário do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, que está com dois terços de sua capacidade ociosos.

Lançado em 2000 pela Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) e pela prefeitura, o projeto Decola Galeão não levantou vôo e o movimento hoje do Antônio Carlos Jobim é semelhante ao de 24 anos atrás (5,8 milhões de passageiros em 2002 contra 5,7 milhões em 1979). Tudo isso apesar de terem sido gastos R$ 400 milhões (valor da época da inauguração, em 1999) para construir e equipar o terminal 2, o que elevou a capacidade do Galeão para 15 milhões de passageiros/ano segundo a Infraero.

Aeroporto perdeu até salão

de beleza e engraxate

Em contrapartida, o volume de passageiros no Aeroporto Santos Dumont só faz aumentar. Também diferentemente do Antônio Carlos Jobim e apesar da crise econômica, da desvalorização do real em 1999 e do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, o movimento de Guarulhos duplicou entre 1998 e 2002.

— Em vez de Decola Galeão, lançamos o Aterrissa Galeão — diz o vice-presidente da Comissão de Turismo da Assembléia, deputado Otavio Leite (PSDB), que está promovendo audiências públicas para levantar os problemas e buscar soluções visando a reverter o processo de esvaziamento.

Quem vai hoje ao Antônio Carlos Jobim não encontra mais salão de beleza, barbearia, engraxate e charutaria. Por falta de clientes, os donos de várias lojas fecharam as portas:

— Temos 180 lojas nos dois terminais, onde trabalham de três a quatro mil pessoas. Só o terminal 1 já empregou essa quantidade de pessoas — lamenta o presidente da Associação dos Concessionários Aeroportuários, Modesto Lopes.

Também os taxistas que fazem ponto no aeroporto sentem de perto a queda do movimento. Cristiano Vianna, despachante da cooperativa Transcopass, de táxis especiais, conta que, hoje, um motorista só faz duas corridas por dia:

— Antes, fazia cinco corridas, em média, por dia.

— Não agüento mais. Quero vender meu ponto no Galeão — afirma o taxista Jorge Rodrigues, da Aerocop, que trabalha há 13 anos ali.

Os tiroteios na Linha Vermelha e na Avenida Brasil são citados por taxistas e representantes de entidades que operam no aeroporto como causa da perda de passageiros. Mas não é a única.

Só Santos Dumont tem vôos para BH e Vitória

Outro motivo do esvaziamento é a transferência de empresas internacionais de aviação do Rio para São Paulo, a partir da metade da década de 90, quando o governo paulista passou a oferecer alíquotas menores de ICMS pelo combustível de aviação do que o fluminense (hoje São Paulo cobra alíquota de 25% e o Rio de até 30%). Mais uma razão citada é a transferência para o Santos Dumont de muitos vôos domésticos.

— No Internacional, temos poucos vôos para oferecer conexões — diz a presidente do Comitê das Empresas Aéreas, Maria Antônia Assunção.

O aeroporto não oferece um vôo sequer para Belo Horizonte e para Vitória.

— Que passageiro de vôo internacional se dispõe a fazer uma viagem de carro até o Santos Dumont, atravessando a Linha Vermelha, para apanhar um vôo para Belo Horizonte? É muito mais confortável fazer a conexão em Guarulhos, onde há cinco vôos diários para Belo Horizonte — diz Maria Antônia.