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10/10/2004 | Jornal O Dia

Um fim ao poder da SMTU

A manhã de sexta-feira passou quase num segundo. Como perfeito anfitrião, no Palácio da Cidade, o prefeito reeleito Cesar Maia distribuiu apoios, gravou programas de TV, divulgou a fórmula da vitória e deu opinião sobre tudo. Não faltaram espectadores: de políticos experientes, como José Camilo Zito, prefeito de Caxias, a coordenadores de campanha do PFL. Não é por menos.

Os holofotes da vitória no primeiro turno, com 1,73 milhão de votos, estão voltados para o prefeito do Rio, que virou a estrela do PFL nacional.

Quatro horas depois de ter começado a agenda oficial, Cesar recebeu o DIA. O prefeito revelou que quer acabar com a Superintendência Municipal de Transportes Urbanos, responsável pela fiscalização e regularização de transporte alternativo, ônibus e táxi. E integrar a SMTU à Secretaria Municipal de Transportes para um maior controle do órgão, onde funcionários são investigados por suspeitas de corrupção e assassinatos.

Ainda na área de Transportes, anunciou integração na Zona Oeste. E garantiu que Arolde de Oliveira não deixará a pasta para abrir espaço para o PSDB no governo. Ainda colhendo frutos da vitória, Cesar vai exportar mão-de-obra. Um técnico da Prefeitura do Rio será o secretário de Fazenda de Aparecida Panisset (PFL), em São Gonçalo, que assume o cargo depois de derrotar Graça Matos (PMDB).

Mas a guerra com o casal Garotinho parece não ter fim, mesmo depois das eleições. Cesar diz que está disposto a retomar o diálogo entre prefeitura e governo, mas deixou claro: quer ser procurado pela governadora Rosinha e o secretário licenciado Anthony Garotinho. “Cabe a eles”, alerta Cesar, certo do declínio político do casal. “É o beijo da morte”, disse, referindo-se à aliança entre o PDT e o PMDB em Niterói. Mas a briga se limita ao casal. O prefeito acena para uma reaproximação com o senador Sérgio Cabral (PMDB).

A menina dos olhos do prefeito nos próximos quatro anos vai ser a região da Leopoldina. Foi ali que o aficcionado por pesquisas identificou o mais fraco desempenho nas eleições, depois de ter consolidado seus votos nas zonas Oeste e Norte da cidade em outras eleições.

De olho em 2006? Cesar passou a admitir que só embarca em nova aventura, até nacional, se tiver projeção. Pausa durante a entrevista. Cesar pede uma Neosaldina. Não há cabeça que resista.

Como será sua relação com o Governo do estado nos próximos quatro anos?

Espero que, passadas as eleições, a governadora restabeleça as relações com os municípios. O PFL quer uma convivência institucional: como faço com Lula e Lula faz comigo.

E quem dará o primeiro passo? O senhor?

Cabe a eles me procurarem. Porque o primeiro passo eu dei, depois de 2000. A convivência no primeiro ano de governo foi muito boa e, de repente, foi rompida por iniciativa de Garotinho. Cabe a eles dizerem: “Olha, Cesar, passou a eleição”. Vamos restabelecer o convívio administrativo. Eu quero isso.

Nestas eleições aconteceram alianças inusitadas. O senhor acha que o eleitor vai entender a união do PDT, de João Sampaio, com o PMDB, de Anthony Garotinho?

Vai chocar o eleitor de Niterói. É uma coisa muito artificial, surpreendente. Acho que isso foi o beijo da morte. A vitória do Godofredo, que deveria ser com algum conforto, agora vai ser disparada.

E em Campos, como o senhor avalia a eleição?

O Garotinho, o tipo de política que ele faz, já não produz nenhum entusiasmo. A nível nacional, ele é um político considerado em extinção. Ele deixou de ser um personagem nacional muito pouco tempo depois de ter tido 15 milhões de votos. No Rio, não é diferente: é um político em declínio.

Quais são as propostas que o senhor pretende enviar para a Câmara este ano?

Uma deles é a integração da SMTU à Secretaria Municipal de Transportes. Será o desaparecimento da SMTU, enquanto autarquia, e a integração dela à Secretaria de Transportes. Os quadros, com todos os direitos garantidos, passam para a secretaria.

Como será isso?

SMTU virou um órgão que tem muito poder, com distância enorme, lá na Estrada do Guerenguê (em Jacarepaguá), que não ajuda a ter controle sobre esse poder. A gente quer colocar colado no secretário para ter um controle muito maior.

Outros projetos?

Até o fim do ano pretendo que sejam discutidos de 14 a 15 projetos de lei. Está se estudando também flexibilização para que se construam condomínios no Alto da Boa Vista, que está acabando. Hoje está virando tudo casa de festa. Outra lei que tramita na Câmara e que terá prioridade tratará de exoneração fiscal de casas populares. O ISS permite isenção.

E para transporte, outro projeto?

O sucesso que a gente não esperava era a integração metrô-ônibus. Precisamos fazer também na Zona Oeste com os trens. Se as Kombis e vans quiserem, seria excelente. Eles ainda não deram sinal.

Onde o senhor pretende fazer mais investimentos?

O julgamento da população para mim é um veredicto. Preciso dar uma resposta a esse corredor da Leopoldina (como a Maré e o Complexo do Alemão), onde recebi os sinais mais nítidos de que preciso melhorar a performance. Mas ainda estamos estudando como.

Como o senhor vai fazer para revitalizar, principalmente, o corredor da Leopolidna, onde há prédios abandonados?

Uma prioridade é o Mercado São Sebastião. O prédio que temos em vista é o da Poesi, que fica ao lado da Vila Olímpica do Alemão. Se tudo der certo, poderia ser o segundo centro de cidadania da cidade. Outra no Curtume Carioca, na Penha, onde a Igreja Universal já entrou em uma parte.

Quais serão as maiores dificuldade para o Pan-Americano?

O único problema é a Vila Pan-Americana. O resto tem alternativa. A Caixa Econômica deslanchou o processo, e espero que as obras comecem logo. Será um alívio grande. Há expectativa na licitação do Complexo Esportivo do Autódromo. Se tiver licitante, também será um alívio.

O senhor vai mexer no seu secretariado?

Se eu pudesse, não mudaria ninguém. Está indo muito bem. Mas vai ter que incorporar o PSDB. Deve interessar ao PSDB mexer o mínimo na administração. Eles devem pensar: “Se o Cesar Maia for candidato em 2006, o Otávio assume e tem o poder absoluto”. Quanto melhor for o governo, melhor a chance desse brilho gerar um impacto nacional.

Quais são seus planos para 2006?

Meu planejamento é ser prefeito os quatro anos. No Brasil, a política é muito volátil e podem surgir situações novas que possam me levar a rever isso. Não tenho o menor tipo de vontade de não cumprir meu mandato de prefeito. O que pode me levar a mudar de idéia são circunstâncias que tornem competitiva uma candidatura a nível nacional. Que eu acho que não virão. Não vou participar de aventura.

Com o fim da eleição, tem alguma chance de o senador Sérgio Cabral voltar a indicar quadros para o seu governo?

Antes de resolverem o imbróglio do Garotinho, não. O Sérgio Cabral me ligou. E eu fiz essa provocação: “Quando vamos voltar aos nossos almoços?”. Para mim, quando Garotinho sair do PMDB, passa a ter a possibilidade outra vez de diálogo.

Se o secretário não deixar o PMDB?

Acho que sairá do PMDB. E para o PSC.

E na Saúde, o senhor muda o secretário?

Só se ele quiser. Ronaldo (Cezar Coelho) fez um trabalho muito bem feito. Mas a gente precisa ver como equilibra as duas secretarias: a que teve problemas, como nos hospitais, e a que avançou muito, como em programas como a prevenção ao câncer de mama.

O senhor pretende mudar a forma de cobrança do IPTU? Haverá algum aumento?

O IPTU não aumenta, o que muda é o valor dos imóveis pela inflação, corrigido pelo IPCA. Em imposto, raramente eu mexo.

O senhor pretende propor mudança do Imposto Sobre Serviço (ISS) para alguma categoria?

Estamos discutindo a reforma do ISS de feiras e exposições, e o quanto se deve dar continuidade na desoneração fiscal de hotéis. Estamos analisando também a redução da taxa das cooperativas de táxi.

Prefeito, voltando à política. O senhor acredita que a aliança do PT de Marta Suplicy, em São Paulo, com o PP de Paulo Maluf também pode trazer problemas?

Se perder a eleição, pode. A esquerda do PT vai cobrar visceralmente esse tipo de aliança. Se ganhar, glória aos vencedores. O PT é um partido no poder, perder São Paulo pode fazê-lo cair. Para o PT, uma possível derrota é diferente da de Garotinho, que está em declínio.

E o senhor acredita que isso pode gerar mudanças no PT?

Acho que pode. À medida que o PT que governa começa a perder prestígio com a esquerda do PT, isso tem impacto na política econômica do Governo.