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01/08/2013 | Jornal O Globo

Uma dupla imbatível

Por Victor Costa

Em 24 anos de vida, Luis Fernando Machado da Silva já passou por 22 cirurgias e tem quase 20 parafusos espalhados pelo corpo. Acostumado a driblar as barreiras da vida, o morador da comunidade de São Carlos, no Estácio, já tem data marcada para voltar às pistas após seis meses de recuperação de uma úlcera de pressão. Neste domingo, ele e o seu pai, Luis Carlos da Silva, de 48 anos, estarão entre os oito mil corredores que participarão da etapa Tiradentes do Circuito Rio Antigo. A dupla está inscrita nos 5km, mas o evento também tem a opção dos 10km.

— Adoro correr, sentir o vento no rosto. Bate uma adrenalina boa — comenta Nando, como é chamado, com um sorriso simpático e tímido, que revela um pouco de sua personalidade.

Nando sofre de mielomeningocele, doença congênita na qual a espinha dorsal e o canal espinhal não se fecharam durante a gestação. Desde seu primeiro dia de vida, ele não tem o movimento da cintura para baixo e, aos poucos, passou a ter outras limitações motoras. Apesar das dificuldades, sempre se esforçou para levar uma vida normal. Frequentou a escola até a 4ª série do Ensino Fundamental, mas teve que interromper o estudo por conta das inúmeras internações, que duravam meses.

Em 1999, aos 10 anos, Nando começou a nadar, chegando a competir pelo Tijuca Tênis Clube nos 100m, mas precisou parar com a natação por causa das seguidas úlceras de pressão que apareciam na região da virilha. Como o tratamento para cuidar das feridas levava meses e o risco de infecção é maior dentro d’água, a solução foi abandonar o esporte.

— O Nando fica um pouco caído para a esquerda na cadeira, pois não consegue ficar com a coluna ereta, o que causa um desgaste de todo este lado, além de comprimir seus órgãos internos. Quando ele tinha 14 anos, teve uma osteomielite (inflamação no osso) e precisou tirar a ligação óssea entre a bacia e o fêmur esquerdo. Com isso, ficou sem controle sobre os membros inferiores. Quando nadava, sua perna esquerda roçava no corpo abrindo uma ferida na região da virilha, que resultava numa úlcera de pressão — explica o pai, auxiliar de manutenção, que não se constrange em falar da saúde do filho, assim como conta de maneira natural as vitórias da dupla.

De curioso a corredor

Por curiosidade, em 2009, o auxiliar de manutenção foi assistir a um programa de qualidade de vida na empresa em que trabalha, que oferecia treinamento de corrida de rua. Após alguns treinos, Luis Carlos correu uma prova de 5km no Aterro do Flamengo e nunca mais parou.

— Fechei o percurso em 24 minutos. Um tempo ótimo de prova — lembra Luis Carlos, que logo ficou aficionado pelo esporte. — Passei a participar das provas e levei minha esposa (Fátima Regina, mãe do Nando), que também gostou. Até que decidimos levar o Nando. A ideia inicial era fazer a caminhada de 5km, empurrando a cadeira de rodas dele. Mas como eu não consegui caminhar, resolvi correr.

Nando lembra bem da experiência e até hoje usa a mesma cadeira, que não tem nenhuma adaptação para a prática esportiva:

— Era a Corrida de São Sebastião, em 2010. Foi uma sensação muito boa. Me senti como qualquer outro corredor ao cruzar a linha de chegada. Desde então, a gente passou a participar de todas as provas de 5km da cidade.

A dupla se orgulha em dizer que nunca precisou de mais que 30 minutos para percorrer essa distância. O filho pensa em ir mais longe e sonha com a maratona. O pai tem um pé atrás, mas também tem vontade, o que lhe falta é tempo. Além da rotina difícil, o acesso de Nando a sua própria casa na comunidade de São Carlos é complicada. Luis Carlos precisa empurrá-lo numa ladeira esburacada até alcançar uma estreita escadaria. Para subir os cerca de 100 degraus, é preciso esperar a mãe descer para levar a cadeira, enquanto o pai leva o filho no colo. Diante de todas essas dificuldades, a relação entre pai e filho ficou ainda mais estreita após o início na corrida.

— A gente sempre foi muito amigo. Meu pai me levava no samba da Estácio, mas só depois que passamos a correr juntos é que passei a frequentar também o Baile do Charme, no Clube Municipal, com ele — diz Nando, que é fã de funk antigo e passa o dia diante do computador., principalmente fazendo pesquisas sobre sua doença e corrida.

No início deste ano, Nando teve seu primeiro revés com a corrida. Por ficar sentado muito tempo na cadeira de rodas, ele teve novamente uma úlcera de pressão na virilha. Após seis meses de recuperação, a sua felicidade é visível.

— O Nando está muito ansioso com esta prova de domingo. Ele está bastante sorridente, com os olhos brilhando. A corrida sempre fez muito bem a ele, pois se tornou uma pessoa mais extrovertida e deixou um pouco da timidez de lado — conta a mãe Fátima Regina.