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01/11/2010 | Revista Veja - Online

Vitória de Dilma no Rio quebrou a tradição de ‘lavada’ do PT

Por Cecília Ritto

O resultado da eleição presidencial no Rio de Janeiro foi amplamente favorável a Dilma Rousseff. Com o apoio da poderosa máquina do governo Sérgio Cabral, a candidata do PT abriu 21 pontos de vantagem sobre José Serra, e obteve 1,7 milhão de votos a mais que o tucano. Foram 4,93 milhões de votos (60,4% do total), contra 3,22 milhões obtidos por Serra. Uma análise retrospectiva do desempenho do PT no estado mostra, no entanto, um resultado bem mais modesto do que nas eleições anteriores.

Em 2006, Lula teve 5,53 milhões de votos, contra 2,40 milhões de Geraldo Alckmin – mais de três milhões de votos de diferença. E, em 2002, o PT impôs uma derrota acachapante a Serra, que teve apenas 21,03% dos votos fluminenses, contra 78,97% de Lula. Em números absolutos, o petista recebeu 6,3 milhões de votos e Serra, 1,68 milhão. No âmbito nacional o desempenho de Dilma nesta eleição (56% dos votos) também foi inferior ao que Lula conseguiu em 2002 (61,2%). Mas a diferença é bem menor.

O que torna o caso do Rio de Janeiro curioso é que, nas duas ocasiões, a candidatura petista foi escancaradamente apoiada pela máquina do governo estadual. Em 2002, o então governador Anthony Garotinho desincompatibilizou-se do cargo para concorrer à presidência e foi sucedido pela vice-governadora, a petista Benedita da Silva. No segundo turno, Garotinho apoiou Lula, assim como, claro, fez a governadora. Nesta eleição, Sérgio Cabral venceu no primeiro turno, com apoio do presidente Lula e da quase totalidade dos prefeitos fluminenses. Pouco antes da votação, Cabral reuniu 79 prefeitos e dez representantes de municípios fluminenses em um ato de apoio à sua candidatura e à de Dilma. Apenas três cidades não estiveram representadas no evento.

Um estado dividido – No entanto, o que se viu foi um estado dividido – o que é surpreendente diante da pouca penetração que o PSDB tradicionalmente demonstrou no Rio de Janeiro. José Serra ganhou em 40 dos 92 municípios, num resultado que foi ironizado pelo ex-governador Anthony Garotinho em seu blog. “Os votos dados a Dilma no Rio não têm nada a ver com Sérgio Cabral. A transferência que ele poderia ter feito através da máquina e de seus aliados não aconteceu”, escreveu Garotinho, que maldosamente atribuiu parte desse resultado ao fato de Cabral ter viajado para Paris logo depois da reeleição, só retornando duas semanas antes da votação.

Efeito Gabeira – O cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, pondera que não é bem assim. “Ainda faltam dois anos para eleição de prefeito. Eles não têm motivos para brigar com Cabral principalmente porque precisam de verbas. O apoio à reeleição do governador não significa necessariamente que eles arregaçariam as mangas para ir à luta por Dilma”, pondera Ismael, acrescentando que a grande surpresa da eleição do Rio foi o desempenho de Serra. Os nomes tucanos mais relevantes do partido no Rio são o prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito, o deputado federal Otavio Leite e o estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha. O único aliado que foi capaz de agregar votos a Serra é do PV: Fernando Gabeira. Ele ajudou o tucano a levar sete das dez cidades onde Marina teve boa votação. Quando o verde não estava presente, as caminhadas – sem qualquer infraestrututura que pudesse ser comparada à de Dilma no Rio – concentravam, no máximo, um grupo de deputados que passeava quase sem ser notado.

A frustração Indio – O próprio Indio da Costa, ex-candidato a vice, que é do Rio de Janeiro, não empolgava. As agendas eram centradas somente em Serra. “Indio agregou muito pouco. É muito jovem, sem experiência em campanha nacional. As questões que ele colou na campanha, como as Farc, não acrescentaram em nada. A juventude dele, que foi explorada na campanha, para um vice da república, é complicada”, afirmou Ismael. Ainda assim, Serra saiu-se bem nos municípios do norte, noroeste e sul fluminense, além da região serrana. Dilma conseguiu maior votação na região metropolitana onde, justamente, há grande quantidade de beneficiários do bolsa-família e concentração de obras do Programa de Aceleração do Crescimento. Diante desse quadro, Ismael classificou como “extraordinária” a votação de Serra.